Tempo

No relógio que compassa o tempo, as folhas que cairam de um passado recente. Imagem de árvore nua, no Inverno frio e ventoso, imagem de mim. Sonha-se com a primavera das tuas palavras, na firme emoção dos novos rebentos que irão virar folhas e fazer esquecer os braços despidos de ti.
Aguardo-te minha Primavera, na certeza do sonho impossível.
Livros

E ali sentado, desfolhando o livro de mim, passas-te como vento fazendo as folhas voarem, desmarcando-me da página onde ia. E nas páginas brancas do futuro apeteceu-me escrever uma história.
A minha história…
…a tua história…
…a nossa história.
Ervado

E sim, sonhei rebolar contigo neste ervado húmido e aconchegante, neste tapete verde feito de esperança. E sim, quis que fosse o teu retrato que por ali estivesse. Procurei-te por entre o verde das folhas, na firme ilusão de ver os teus olhos despontando por entre a relva selvagem.
Ficou incompleto…
…faltaram as tuas pétalas brincado ao sabor da aragem.
Estupidez
Assim como os problemas não marcam na agenda, na mesma proporção a estupidez não escolhe idades.
Cento e um
E o Amor vem
E o Amor vai
Num sentido perverso
De um medo que não sai
Livros escritos
Contos contados
E uma linha comum
Dos sentidos magoados
Cento e um dias
Cento e uma horas
Cento e uma batidas
Na tua espera que demoras
Não sou
Não serei
Longe do teu Amor
Certeza que morrerei
Caminhos feitos
Passos dados
A sorte ao fundo
Dos dados lançados
Morre-se hoje
Talvez amanhã
Lógico porem
A bruma de uma manhã
Aqui fico
Aqui sou
Na contínua esperança
Que sei que me vou.
Anjos
E o Anjo da Morte chegou e pegando na mão disse:
- Vem, chegou a tua hora. Escolheste-a. Assim seja feita a tua vontade.
E a alma saiu do corpo inerte sobrevoando tudo e todos e até chegar às profundezas do Inferno.
Recebido por Azazel, rodeado por Abramalech, Asmodeus, Astaroth, Baalberith, Belial e Pazuzu, disseram em coro:
-Vem, a tua morada está pronta. Escolheste-a. Assim seja feita a tua vontade.
Intolerâncias
Se há coisas que não gosto é da intolerância. Intolerância pela cor da pele, religião, sexo ou qualquer outra coisa. É algo que me faz remoer as entranhas de mim.
E ao longo da vida já eu próprio senti intolerância, por ser gordo, feio, e outras coisas mais. Mas a intolerância que mais odeio é mesmo a intolerância dos pensamentos e sentidos. Ás vezes torna-se gritante a incapacidade do outro conceber que se sente e pensa de maneira diferente, que o que é válido para uns não é válido para outro, por tentar fazer com que uns vejam os pontos de vista do outro apenas porque tem a ideia que está certo. Mas será assim tão impossível conceber que os conceitos para uma mesma coisa pode ser diferente de pessoa para pessoa? Será assim tão inconcebível que o mesmo facto pode ter leituras diferentes? Julgo que não, tanto que eu próprio não julgo ninguém. Procuro conhecer para entender os pontos de vista, questiono para perceber o porquê dessa visão diferente da minha. Se a entender como errada, digo o porque a acho errada para mim, e apenas para mim. Mas não tento convencer ninguém que está errado. Esse convencimento tem que partir do outro, se julgar que os meus argumentos são válidos. Se não o julgar assim, apenas tenho que aceitar esse facto e nada mais. É principio meu aceitar as pessoas como são. E gostar delas assim. E o contrário poderá suceder também, e quem transformar os pensamentos seja eu, porque os argumentos que me apresentam são melhores que os meus, porque me fizeram perspectivar diferente sobre a mesma coisa. Mas uma coisa digo, não é a mostrar intolerância, que me fazem mudar de ideias. Não é a custo de insultos que conseguem argumentar. Ou conseguem, mostrando-me a mim, que são as minhas ideias que estão correctas, acreditando nelas ainda com mais convicção.
E é essa intolerância que me faz arrepender de me abrir, de me mostrar como sou, de mostrar tudo de mim. Porque sei que penso de maneira diferente, sinto de maneira diferente, julgo-me a mim mesmo de maneira diferente. E esse mostrar dá azo a essas intolerâncias.
Eu apenas sou intolerante perante uma coisa. A própria intolerância…
Afinal foi um dia bom…
Como já disse atrás, eu sou mesmo burro. Afinal hoje foi um dia bom e não me tinha apercebido. Aprendi que todas as pessoas sabem sobre a minha vida mais que eu próprio…
Felicidade das felicidades… Afinal todos me compreendem. Que bom que é. Eu, burro como sou, é que não tinha percebido isso. Obrigado a todos por me elucidarem. Afinal o trabalho tem que ser meu a ver se consigo ficar minimamente inteligente para perceber que me percebem…
E eu a pensar que era inteligente. Será este pensamento mais uma prova da minha burrice?


6 comentários