De joelho em terra e de mãos ao céu,
.. rogo-te meu Criador.
Traz de volta o frio.
Eles…
(continuação)
E dias se passaram nesse jogo de volúpias, de encontros e desencontros, de visões fugazes em que o desejo em crescendo fazia revolver em vertigem o ser de cada um. Houve momentos em que olhares se cruzaram, sedentos da ternura emergente, em que a distância de uma rua nada era em comparação com o alicerçar da cumplicidade notória.
E chega o dia em que ela sobe, no velho hábito do dia, e um perfume estranho a invade. Sente o calafrio que anuncia a surpresa de algo maior, percorre-a de ponta a ponta, elevando cada cabelo da sua nuca. O frenesim que toma conta da sua pele, que nasce no seu baixo ventre e se espalha quase miraculosamente pelas coxas e pela barriga até ao peito. Sabe-lhe a boca à adrenalina, seca-se na expectativa do que não conhece. Aquele perfume, aquele aroma só pode ser dele. Sabe-o no seu íntimo, que vibra no sentimento. E a razão que lhe desce e refreia os ímpetos. Como poderia? Não pode. Não deve. E chega ao patamar que conhece tão bem como a palma da sua mão, antecâmara do seu santuário. Seu e de mais ninguém. Homens o tinham cruzado sem que por isso o tenham violado, o seu lugar mais recôndito e secreto, o seu refúgio, a sua ilha deserta.
E sim, era ele. De gravata deslaçada e barba de três dias. Era mesmo ele que encostado à sua porta pedia de olhos suplicantes que o deixasse entrar no que era mais seu. A surpresa que lhe abre a boca, que a faz estacar vendo o seu reflexo nos olhos que a miram. E um sorriso que nele nasce quando se lança para a frente em passo lento, de mãos nos bolsos, qual felino em momento de caça. Sabe que não lhe dá reacção, sabe que ela o espera ali, perdida do mundo dos mortais. E fâ-la sentir o gosto da sua boca na dela, em beijo que a faz levitar de uma forma que desconhece. Ela sente-lhe os dedos que a agarram, sente a mão que lhe desliza pela costas e não a deixa cair a seus pés. Fecha os olhos e deixa-se levar na louca fantasia do ser que a aperta. Sente o calor da língua que deixa entrar em si, nas busca do seu sabor até que o vazio se apodera e a custo reabre os olhos ao mundo. Ele abre-lhe o caminho até à sua porta, deixa-a passar como que dando autorização a entrar no que é seu. Os olhos que se voltam para trás, por cima do ombro, enquanto a chave roda, talvez com som que já não se ouve nada. Entra no seu mundo que não reconhece. Aquele cheiro que sente não é de sua casa. Leva os dedos ao nariz e aspira o perfume dele. É aquele cheiro que a impede de reconhecer o seu próprio lar, que a invade, que a viola no que é mais de si. Volta-se a ele, com os olhos suplicantes de mais, brilhantes do desejo que a devora desde o seu interior. Volta-se e nada vê.
Uma lágrima, prontamente limpa, inicia a descida pela face sedosa. Lágrima de raiva, lágrima de saudade.
Corre à janela para o ver atravessar a rua.
(continua)
Eles…
Há uma semana que o pensamento era imensas vezes ocupado pela figura magnetizante do homem presente do outro lado da rua. Via-o de relance todos os dias, em voyerismo alucinante, sem saber quem era ou o que fazia.Sentia a necessidade inexplicável de saber como era a sua voz, o seu aroma, de saber quem era e porque o era. O magnetismo que aquela figura lhe pregava roçava o imbecil, levando-a ao esforço herculeo de afastar as ideias daquele fascínio.
Era uma manhã como tantas outras, o mesmo iogurte de frutos silvestres, a mesma torrada com a mesma proporção de manteiga. O gesto mecânico de calçar os sapatos, os mesmos sons de chave, porta, chave, elevador, porta, sempre o mesmo passo acelerado para chegar à rua, ao carro. O olhar nervoso ao relógio para verificar que mais uma vez estava atrasada. Abre o carro e lança a carteira ao lugar ao lado, sentando-se quase com violência ao volante ao mesmo tempo que a chave na ignição e o carro dá o arranque.
Imóvel, olha para a sua frente como que petrificada. Preso no vidro um papel com letras negras escritas. “Olá!”. Depois de cinco minutos especada a olhar para aquela folha de papel, retirou-a e colocou-a no banco do lado.
O caminho para o emprego foi feito com a cabeça em rodopios, e o dia não foi melhor. Dobrou e desdobrou o papel até quase o rasgar, desejando o fim do dia, a sua janela a varanda dele. A volúpia que se foi apoderando do seu ser conforme as horas foram passando, desejos quase inconfessáveis que ele lá estivesse, naquele momento de ambos.
O fim da tarde chegou e a ânsia de chegar transformou a distância num suplício difícil de suportar. Os movimentos tão habituais foram feitos sem se dar por isso, voa pelo caminho, o elevador parece pesado e não anda. Chega, corre à janela, olha a varanda dele. O coração quase que salta pela boca quando o vê, na calma de fumar o seu cigarro. Sente a onda que se apodera do corpo, que a faz encostar ao vidro, de mãos espalmadas, vendo-lhe o sorriso travesso que lhe pinta a face, enquanto puxa mais um travo ao cigarro quase no fim.
Ele olha-a, ao longe, descobre-lhe a figura a custo pelo reflexo do fim do dia, vê-a quase espalmada, como que se quisesse voar até ele. Sorri-lhe e vê que lhe corresponde, num sorriso luminoso e nervoso. Fuma pacientemente o cigarro que chega ao fim, enquanto o gato reclama que está na sua hora de comer. Senta-se no chão, com o gato subindo ao seu colo, encosta-se na parede de olhar fixo, vendo-a. Recolhe-se de seguida com ela ainda encostada à janela.
O resto da tarde e o princípio da noite foram passados em sobressalto, com idas e vindas ao vidro que lhe dá ao mundo. Espera vê-lo mais uma vez, precisa de o sentir ali, mesmo que não saiba o porquê dessa necessidade.
(Continua)
Como é que é possível?
Como é que é possível que haja pessoas com responsabilidades de formação de jovens que nem um email sejam capaz de escrever em condições?
Como é que alguém, supostamente instruído, é capaz de não usar maiúsculas no início de uma frase, muito menos na escrita do seu próprio nome?
Como é que é possível que em 5 linhas seja capaz de dar cinco erros ortográficos de palmatória e utilizar três “k’s” em vez da palavra “que”?
Como é que é possível que as pessoas aprendam se quem ensina pouco sabe?
Expliquem-me por favor. Eu não consigo entender…
…
Olha…
Olha para o infinito do oceano e vê.
Vê as mil cores quentes que se espalham na imensidão do sol que se esconde lá ao fundo. Vê as nuvens que deslizam ao sabor da brisa que aqui não passa. Vê as gaivotas que tornam a terra sem ser sinal de tempestade. Vê como tudo se conjuga no universo pequenino em que vives.
Olha a areia doirada em que enterras os pés, fria já que o sol já não aquece. Olha as pegadas que aqui deixaram. Têm uma histórias sabias?
Aqui uma criança, de passos curtos e pés pequenos. Ali um adulto, em passo de corrida. Olha, também aqui estão as tuas pegadas, com a tua história.
Agora entendes como me está o coração. Tem pegadas também e cada uma com sua história. Há as marcas de quem passou como uma brisa, de quem me espezinhou até mais não querer, as que passaram em passo curto ou em corrida ou ainda de quem mais não fez que simplesmente passar.
E também cá estão as tuas, que vais deixando.
E cada sorriso teu é mais uma pegada que nele fica.
Contra vim mortisnon est medicamen in hortis
Eclesiastes 12:7 –
“…e o pó volte para a
terra como o era,
e o espírito volte a Deus
que o deu…”




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