As Montanhas de Vento – III
O negro de asfalto fazia-se na calma corrente de quem retira prazer do caminho, deixando a viatura deslizar silenciosamente nas longas rectas e curvaturas suaves de uma auto-estrada descongestionada. Entra-se na cidade e quase não se dá conta disso. Caminho teleguiado, feito quase sem pensar, com destino certo. Rádio desligado para ouvir melhor os pensamentos que surgem a velocidade superior que à do próprio carro, morde-se o dedo, olhos semi-cerrados, procura constante do conforto de um banco que parece demasiado rígido. No peito, um coração em sobressalto por mais um momento há tanto esperado, transformando a jugular num telégrafo emitindo código morse de afectos.
Chegado ao destino, acaba-se o cigarro antes do momento mágico de entrar naquele santuário tão dela, tão sua imagem e criação. Conhece-lhe a casa de cor, sabe-lhe os cantos, memorizou-os da primeira vez que os viu, os sentiu. Desde o calor de uma sala aconchegante ao intenso de um quarto imerso no seu perfume. Sabia-a ali, tão perto.
Pega na pirisca entre dois dedos e lança-a longe expelindo ao mesmo tempo os últimos resquícios do fumo que lhe dava a sensação de aconchegar o nervoso que ainda sentia de cada vez que se especava à porta pronto a esticar o dedo e carregar no botão da campainha. Mas mais atribulação era aquele momento de suspenso, tantas vezes comparado ao passo rumo à queda de elástico atado aos tornozelos, entre o toque e a resposta. Era momento de ficar sem chão, de coração a bater nas têmporas, de expectativa em que a garganta perigosamente se apertava até quase ficar sem ar, em que a boca ficava com o gosto esquisito da contracção de todos os músculos. Momento que se ultrapassava com o ruidoso “clank” da abertura da porta. Passos largos, degraus subidos dois a dois, o arfar de quem corre e de quem anseia e depois aquele barulho tão característico da porta que se abre ainda não lhe chegámos, aquela sensação tão ilustre de que somos esperados e que nada daquela sofreguidão era essencial.
O sorriso com que foi brindado foi enorme, rasgado, tão cheio de sentimento.
- Olá – disse-lhe ela – ainda bem que vieste.
- Olá – disse Carlos enquanto se aconchegava nos braços que lhe estavam estendidos em cumprimento.
Quase lágrimas lhe rolavam pelas faces no contentamento de novo a poder sentir assim tão perto de si. Sentia-lhe a saudade de a poder ter junto ao peito, fazendo-a sentir como aquela máquina a que chamavam coração furiosamente clamava por si.
- Desculpa – diz Carlos
- De quê?! – enquanto franzia o sobrolho em estranheza daquela palavra que não fazia sentido ali.
Carlos estende as mãos às suas faces que prende e deixa os lábios seguirem a vontade próprio de se colarem aos dela, num beijo terno e cuidado, em que colocou todo o carinho e desejo que sentia. Deixou as mãos escorrem pela figura esguia e enlaçou-a num abraço apertado.
Porque lhe pediu ele desculpas ?
Eu ás vezes sinto que o meu amor faz tão parte de mim, da minha carne que só me apetece pedir-lhe desculpas de o amar tanto como não sabia ser possível …
Mais uma vez ,ler-te logo pela manhã é um bálsamo .
Um beijo, Anya
Essa tua explicação é plausível… Pode ser outra…
Obrigado pelos teus elogios Anya.
Sim, porquê? Foi por tê-la beijado? Pela urgência? pela ânsia de de roubar um momento que não se entendia igual?
Um beijo Francisco, que o IV venha depressa cerzir esse tecido de alma
Um beijo Teresa.
Vamos esperar pelo IV… As resposta vão surgir…