…
Trauteia-se uma música qualquer enquanto os passos lentos ecoam por entre casa velhas e desertas, frias do tempo em que já não mora ninguém. Roupas velhas jogadas em cantos escuros e rasgadas pelo tempo que passou deixando os seus sinais. Repercussões vibrantes da voz sumida e dos andares barulhentos das pedras que se calcam, estridência para a paz que se almeja. Estuda-se o horizonte vazio na busca da cor magnânima dos olhares perscrutantes de mim. Ruas tenebrosas, cinzentas, inquinadas de águas negras lodosas em esparrinhares assustadores. Luz, precisa-se de luz, de calor e clamor sussurrante de bem-quereres. Tapam-se os ouvidos fugindo para o silêncio. Caminha-se como louco de dedos espalmados na cara cobrindo os poros amplificantes dos sonidos. Gritos contraproducentes que abafem os monstros e da paz almejada chega-se à discórdia indesejada.
E por fim os teus olhos.
Cala-se o mundo que não é para aqui chamado que os ouvidos são apenas para ti. Estreita-se o olhar que a vista é para ti. Tocam-se as mãos que o sentido é teu.
Esquece-se a música e as casas e as roupas e os burburinhos belicosos. Esquece-se a água suja e a dissonância dos assombros.
Estás perto de mim.
Fecho os olhos e sinto-te…
… aqui.
…
Sentado numa pedra fria de uma qualquer soleira de uma porta aberta, encosto-me na arcada áspera de rocha antiga. Sinto-lhe as rugosidades e as planuras dos séculos, das mãos que se lhe apoiaram, dos pés que a pisaram, da força dos homens que as carregaram. Deixo que o tempo tome conta de mim, no olhar do futuro sonhado. Deixo que a noite me abrace, na solidão do ser. A luz da lua que me beija os pés, estrelas que não se vêem. Fecham-se os olhos na tentiva de escutar o som dos teus passos no breu da noite, suplicam-se os sons na expectativa que as brisas te tragam a mim. O som do papel que queima entre os dedos, da baforada que obriga a expelir o fumo dos pulmões. Olhos fechados, marejados das lágrimas que não podem cair.
Sente-se o frio que faz o corpo contrair, que faz sentir vivo. Ouço-te. Finalmente ouço-te chegar. Ai felicidade imensa que brota dos meus lábios, luz que me chegas, fonte que me dá alento. Fazes-me levantar, puxas-me pelas mãos, abraças-me no meio do escuro. Já não me sinto só, já a noite não me parece tão escura, já a lua foge envergonhada. Voz que me encanta, braços que me embalam, colo do meu descanso, ternura minha.
És tão doce…
Olhares

Tens luz,
tens dourados que nos fazem voar,
tens formas que apenas aos anjos estão guardadas.
Encontro
Vi-te.
Vinhas ao longe em passo lento de olhos perscrutadores, cabelo apanhado num rabo de cavalo solto, deixando à visão a bela imagem do teu pescoço. Já te estou a ver há muito mas ainda não me encontraste. Levantas o nariz cheirando a maresia que te chega em baforada de vento e reparo como fechas os olhos deixando-te invadir por aquele aroma salgado de mar. Apetece-me correr até ti e pura e simplesmente elevar-te. Há demasiado tempo que não te sinto o coração a bater no meu peito. Há demasiado tempo que não te sinto entre meus braços. Resisto, deixo-me ficar. Observo-te como vens até mim e ainda não me conseguiste descortinar. Aquele aroma sal também me chega, também me obriga a fechar os olhos, que rapidamente abro para os poisar na tua figura que vem lá, ainda demasiado longe. Espero que chegues, espero que me vejas. Aguardo com ânsia o teu sorriso assim que me vejas, aquele rasgar doce de uma saudade que aperta e que se vê desfeita. Aperta o peito da espera, que se torna longa, câmara lenta na vida, no dia. O teu caminhar solto, o teu corpo belo que faz voltar olhares, que causa quase ciúme e orgulho. “És tão bonita…” penso. Sorris e apetece-me gritar-te “Estou aqui” só para que sorrias mais ainda, mas não grito, não sai voz. Fico-me na espera longa. Estás mais perto, cada vez mais perto. Quase que juro que já te sinto o perfume, aquele tão doce que inebria todos os sentidos. Sorrio. Vou sorrindo de coração exaltado por mais um encontro. Coração que não acalma antes, durante ou depois. És assim, sobressalto meu. Fazes-me correr sem sair do lugar. Olho-te no teu caminho, delicado, em que cada passo é algodão, que me faz caminhar sobre nuvens quando os dou a teu lado. Mas não agora. Agora estou parado, levitando apenas. Nada de mim toca no mundo conspurcado. O nosso mundo é diferente de todo o outro.
Viste-me.
Sorriso rasgado que me tolda o discernimento. Levanto-me e abro-te os braços. Quero que corras a mim, me saltes ao colo e me envolvas. Gosto de te sentir em meus braços, aconchegada, da forma como poisas a cabeça no meu peito. Aí tem-se a certeza de tudo, de que somos donos de nós, que tudo o resto desaparece e nada mais importa.
Sinto-te.
Abraças-me de forma duradoura, forte, o teu perfume que me chega, cândido, embriagante. As palavras que se soltam naturais do reencontro, em que nos apartamos para que os nossos olhos se reencontrem na profundidade do gosto nosso, até não resistir mais e de novo te aconchegar ao peito. Caminhamos, lado a lado, nas nuvens que fazes sentir, direcção ao desconhecido, não importa destino que estou contigo. Agarras-me a mão, sinto-a. Encostas-te a mim, sinto-te. Vou voando nas asas da imaginação que não pára e nos passos que não se ouvem.
Sentes-me.
Quando te envolvo os ombros no abraço destemido, te puxo mais perto, não te deixando escapar. Gosto de te sentir assim, perto, bem perto. Deixamos a noite cair sobre nós, o manto negro, esconderijo dos amantes, cobrir-nos o rasto que se perde no infinito do ser. As palavras deixam de ser necessárias, apreciamos o silêncio em que deixamos os olhos e as mãos falarem por si, matarem também eles as saudades que se acumulam.
Dor triste mas saborosa da saudade…
…mas só temos saudade do que amamos.
Da alma
O vento forte assobiava pelas frestas abertas de uma janela com vista a quase nada, num vislumbre do negro da noite que já vai alta. Nem ponta de luz se descobre no céu carregado, adivinhante de chuvas que não caem, anúncio de morte de um verão que queima. Ao longe, a batida oceânica na areia que não se vislumbra mas que se sabe de oiro. Está-se só, sentindo a aragem que bate e abana, que quase faz voar, desejo quase incontido de uma realidade apetecida. O cigarro que queima nos dedos, fumado mais pelo vento que pela boca que permanece fechada, silenciosa, sem compassos linguísticos que atravessam a mente de um forma dominadora, deixo o fumo desprender-se de forma livre pelo ar. Olho-o, naquele preciso momento em que o azulado se esvai na noite, em que desaparece de forma misteriosa misturado com os elementos.
Ajeita-se na cadeira que começa a parecer desconfortável, apaga-se a ponta incandescente num cinzeiro quase cheio e sempre o vento como companhia.
Deita-se na cama, de corpo despido, com o fresco dos lençois a tocarem-lhe a pele e deixa que o cansaço enfim surja e lhe tolde os sentidos. É tarde, muito tarde. Os olhos fecham no vagar do segundos e um último pensamento que o faz sorrir. Atordoa na certeza do novo dia e na convicção de uma nova vida.
Sentidos
Sinto-te na ponta dos dedos que te percorrem a pele de fio a pavio. Sinto-te na ponta dos lábios com que te beijo sem fim. Gosto de sentir quando perdes a tua noção do espaço, do ser. Quando nada mais importa que não seja o sentir. Que a razão ou a direcção do mundo não interessa. Quando tudo se resume a fechar os olhos e vaguear na imensidão dos sentidos apurados, alertas pelas extremidades nervosas em alvoroço. Gosto que te mostres na vulnerabilidade de seres mulher e nada mais, que as fraquezas e forças, que as dores e razões desapareçam como que por magia. Gosto quando te soltas no confinado espaço entre o teu corpo e o meu. Gosto quando és pura e simplesmente minha. Gosto quando voas e me fazes voar nas asas do querer. Quando fazes do teu desejo arma de libido, quando fazes do meu querer tortura consentida.
Sabes, gosto de ti…
Chuvas de fim de tarde
Os passos chapinham na água que corria livremente pelos passeios a caminhos do bueiros escuros e frios que ladeavam a fronteira da estrada. Pedras brancas e negras gastas pelas solas do tempo, batidas pelos martelos dos homens no tempos imemoriais, homens que já não se lembram, homens que talvez até já nem respirem e comunguem o ar aromatizado de uma terra molhada. Salpicos que se entranham pelos sapatos que caminham no vagar de chegar ao vazio, ensopam as calças iguais a todas as outras que lhe compõem o armário. Torna-se difícil o caminhar pelo passeio atulhado de anónimos que se cruzam, ultrapassam, atrapalham.
O céu cinzento que não aparenta dar tréguas no cair de água, que tapa toda a luz de um sol que não brilha. Fim de tarde de um mar revolto, que bate na pedras na fúria de partir. Mas não parte, desgasta, como aquela chuva desgasta as pedras da calçada.
Chega-se à janela já a seco e olha as gotas que escorrem pelo lado de fora, na libertadora sintonia de se juntar a tantas outras e escorrer ao chão e perder-se no rio que leva ao mar, que leva ao oceano. Bebe álcool que lhe queima a garganta e o estômago. Sente-lhe o ardor quando passa pelo seu interior, lhe deixa a língua em calor doloroso.
Saí à varanda, vai para a chuva. Fecha os olhos e levanta a cara ao céu sentindo como mil agulhas que lhe fustigam a cara. Quase que sente o sangue quente a escorrer-lhe pelas faces doridas. Dor do obrigatório sorrir, dor do escondido chorar. E chora, deixando que as suas lágrimas salgadas se juntem às outras que lhe caem, lhe ensopam a roupa lhe diluem a bebida. Lágrimas que deixa correr para o chão, para a rua, para o rio, para o oceano. Não importa para onde vão. Importa que saiam, importa que o libertem de ser quem sempre é. Sente que a roupa se cola ao corpo, torna-o pesado, molhado, só.
Olha o horizonte vendo uma réstia de sol sem forças fugir por entre nuvens carregadas e iluminar um pedaço de mar. Olha o copo já vazio, lambe a água que lhe cai ao lábio, sabor a sal.
Chora ainda.
Poisa o copo no chão.
Abre os braços.
Grita-lhe o nome.
E cai no finito de olhos cerrados.



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