Pequeno conto de Natal…
Os pequenos passos arrastados pelas ruas húmidas e sujas da baixa não ecoavam pelas paredes. As sapatilhas atadas a cordel à volta do pé para que a sola não caísse, de um azul esbatido, quase irreconhecível pelo surro entranhado na lona, calças de ganga e uma camisola esburacada que deixava entrar mais frio que propriamente agasalho, boné vermelho, demasiado grande para a pequena cabeça que cobre, deixando pequenos fios de um cabelo loiro fugirem-lhe à testa. Unhas gastas, de roídas e de limadas nas pedras ásperas das paredes. Caminha em direcção ao rio, que ali perto há uma padaria que tem os fornos a fazer calor que repassa na parede e cheira a pão fresco que não pode comer, mas que o cheiro lhe enche a barriga nas fantasias de menino. Encosta a cabeça à rede, de nariz espetado no ar, vendo o paquete que ali está atracado, cheio de luz e cor, de música e risos, luxos que não sabe a que sabem, apenas imagina. Vira a pala para trás para se encostar mais, até os quadrados lhe ficarem marcados na pele e fecha os olhos, sonhando estar lá, onde outros como ele correm em algazarra e brincadeira, vestidos de roupas caras e limpas, não sujas como as dele e mesmo que apenas em sonhos, sorri. Leva a mão ao bolso e tira o apito amarelo que o senhor que vende na rua do restaurante que deixa sempre os restos dos almoços no contentor lhe ofereceu hoje de tarde. “Porque é Natal” disse-lhe. Olha o apito amarelo, cujo plástico quase brilha na noite escura, preso na pequena palma suja e sente-se rico. O coração acelera por aquele presente que lhe fez lembrar o que é receber presentes. Fecha a mão e guarda de novo no bolso bom, que o outro tem um buraco e pode cair.
Caminha ao longo da rede, de olhos postos naquele barco tão grande, ao abrigo do escuro que tem vergonha que o vejam. Olha a chaminé da padaria e já há fumo, já cheira a massa a levedar que em breve será pão para outros comerem. Chega-se à parede e já sente o calor dos fornos com o sono a pesar nas pequenas pálpebras, resultado do cansaço de ser andarilho da cidade. Senta-se no chão coberto pelo pedaço do cartão que guarda na fresta da parede para que não lho roubem e olha de novo o apito, o seu tesouro. Apetece-lhe soprar e celebrar aquela prenda tão grande, mas sabe que não pode. É de noite, não se faz barulho. Assusta-se com a porta que abre ali ao pé de si. Não é costume, não quer que o encontrem. Um homem de grande barriga e bigode farfalhudo, esbranquiçado pela farinha, aparece para deitar lixo no contentor. Encolhe-se para que não seja descoberto, sustem a respiração para não fazer barulho. O homem grande olha-o ali sentado, encolhido como se quisesse fazer parte da parede. Caminha para ele, mas não tem olhar zangado, mas sim um pequeno brilho nos olhos. Olha a mão que lhe é estendida e levanta-se de um salto pronto a fugir. Mas algo o faz estender a mão para a outra que o espera. Conduz pela porta aberta, para a luz da padaria que nunca tinha conhecido. Um mundo novo que acabava de descobrir pela mão daquele senhor grande. Cheirava a massa a levedar, cheirava ao açúcar dos bolos que brilhavam em cima das bancas, sabores que nunca tinha provado mas apenas imaginado quando passava em frente das montras. Leva-o por uma escada ao fundo e sobe. O homem chama alguém e uma senhora igualmente forte aparece e sorri. O homem diz-lhe que estava na rua lá atrás, escondido e ela estende-lhe mão. Despe-o e dá-lhe banho de água morna, muito diferente da água fria dos beirais onde costumava lavar a cara de manhã. Veste-o de roupas lavadas num quarto onde existem fotografias de um menino como ele mas que não encontra em lado nenhum. Desce as escadas de novo e em frente do forno está um banco onde lhe dizem para se sentar. Sente o calor na cara quando o abrem para pôr lá dentro a massa que virará pão e todo ele sorri de uma felicidade. “Porque é Natal”, lembra-se ele da voz do homem que lhe deu o apito amarelo. Olha cabisbaixo para o homem que está a suar do calor do trabalho e da primeira fornada sai um pão ainda fumegante para a banca. Tem vontade de o pedir, tem fome, já não come desde os restos do almoço do restaurante da rua do senhor que lhe deu o apito. As mãos grandes enfiam os dedos dentro do pão e uma faca reluzente atalha-se num pacote de manteiga e barra o miolo que a faz derreter. A boca saliva de vontade mas não pede, fica mudo no querer até que o homem lhe estende o pão que deixa escorrer a manteiga pelos dedos. Pega-lhe e come com afinco, com vontade que não acabe e sente os dedos gordurosos, que lambe no fim, um a um, para que nada se perca. Na pergunta se quer mais, os olhos respondem aquilo que a boca não diz. Novamente os dedos grossos entram pela carcaça ainda mole e mais manteiga generosamente barrada. Sente a comida quente aconchegar-lhe o estômago e a senhora aparece com um copo de leite morno. Vai a um pote e tira uma colher de um líquido viscoso e amarelado que coloca no leite. Mel… E bebe leite e come mais pão que o senhor lhe dá de olhos lacrimosos entre festas nos cabelos loiros. Come bolo-rei e outros sabores que apenas imaginava, come até não conseguir comer mais e sentir o peso da cabeça que apoia num braço até adormecer. Sente ainda os braços gordos do homem pegarem-lhe ao colo e subir a escada, deitá-lo numa cama já aberta e quente, coberto por lençóis perfumados. Sorri no limbo do dormir e recorda-se com o apito amarelo preso na palma das mãos, “É assim o Natal…”
Já não sei chorar…
Houve tempos em que sabia, em que era fácil deixar correr livremente pelas faces cansadas a água que me limpava a alma. Houve tempos em que sabia deixá-las correr…
Já não sei…
Ficam-me bailando nos olhos, ficam-me travadas na garganta que se fica em nó. Já não as sei libertar.
E revolvem-se as entranhas em querer, em tentativa de reaprendizagem, em forças que me faltam. Quero e preciso. Mas já não o sei fazer. Um dia talvez, quando todas as lutas acabarem, eu possa finalmente aprender de novo e possa exaurir tudo que se engole em seco.
Talvez um dia eu comece um texto por “Eu…” . Talvez um dia o solte em torrente de palavras.
Alquimias
Existem momentos que nos transformam, pessoas que nos alteram, situações que nos mudam a forma de viver, de pensar, de ver o mundo e de caminhar.
Antigamente acreditava-se que os alquimistas tinham o poder de transformar chumbo em ouro ou que tinham a possibilidade de chegar ao Elixir da eterna juventude.
Transformação.
Mudança.
Consegues-me isso tudo. Transformas-me em melhor. Alteras-me a forma. Dás-me vida.
És alquimista dos tempos modernos.
Ao largo…
Depois de algum tempo ao largo, volta-se…
Ocupado com a vida que não é mansa, em lutas necessárias, afastei-me daqui. Volto agora, com mais frequência espero.
Um beijo a quem mesmo assim não me deixou…
Please do…
Gemido, lânguido, quase choroso…
Blame it on My Youth – Keith Jarrett Trio…
…
Hoje, mais uma vez, a raiva consome-me. Hoje, mais uma vez, vejo sonhos irem por água abaixo.
Estou extenuado. Sinto-me tão cansado de ver tudo ruir…
Apetece-me verdadeiramente desistir.
Pura e simplesmente deixar-me ir lentamente para outro lado que não este…
Nos jardins de pedra
Nos silêncios dos jardins de pedra, escuta-se o passo arrastado dos agrilhoados.
Oferendas…
A adaga vibrava ao ritmo do sangue que lhe fluía nas veias, presa entre as palmas das mãos suadas. O punho, feito de marfim trabalhado nalguma tabanca bafienta de uma qualquer tribo africana, assentava perfeitamente nas mãos que a seguravam com os seus entrecortados marcando a pele tal a força que lhe era aplicada. Uma lâmina reluzente, que terminava numa ponta afiada com brio, mostrava o reflexo da pele morena que a circundava misturada com o brilho do aço reluzente. Encostada à carne, fazia já os estragos para os quais tinha sido produzida. Uma gota de sangue fina nascia como rio do ponto de contacto escorrendo pelo peito despido até ser absorvida pelos jeans gastos. Sentia aquele pequeno rasto do líquido rubi, quente e viscoso, conforme ia descendo pelo seu corpo.
Tinha tacteado com os dedos o ponto de inserção, não fosse a lâmina bater nalgum osso do seu externo. Procura aquele espaço entre as costelas, aquele ponto único, que lhe dava acesso à máquina que fazia vibrar a adaga. Sentia nas têmporas a adrenalina a ser bombada para o seu cérebro que não perdia a lucidez do momento. Sentia-se quase samurai praticando o Seppuku, com as devidas diferenças de local. Preferia que fosse directo ao coração. Ao menos assim, haveria mais hipótese de sucesso, calculava.
De joelhos no chão de terra, no meio do arvoredo que se silenciava, chegara o momento do seu sacrifício. Estava escrito e, por isso, incontestado. Nem as pedras que lhe magoavam os joelhos o impediriam da sua oblação, da sua última oferenda.
Baixou os olhos até à lâmina e lentamente os elevou ao céu que começava a escurecer.
Era hora.
Cerrou os olhos e impulsionou as palmas das mãos até si, sentindo o gume rasgar a pele e a carne até sentir o guarda-mão bater-lhe em força no peito. Os olhos abriram-se num repente e um golfada de ar foi inspirada de boca completamente aberta. Sentiu por breves segundo o jorro de sangue que imediatamente lhe saiu do peito e a vida esvair-se de si.
Tinha terminado tudo, não sentindo já o corpo cair em desamparo na terra, de mãos mostrando as palmas depois de largado o seu instrumento de morte e de olhos arregalados como se a vida por ali tivesse saído. A terra engolia o sangue que lentamente deixava de correr fazendo bica pelo punho de um imaculado branco riscado a vermelho até apenas pequena gotas caírem.
A noite tinha chegado e uma brisa levantava-se entretanto trazendo consigo o aroma das árvores húmidas das chuvas recentes, cheiro a terra molhada, fértil, a folhas que se decompunham no processo natural da vida. Os olhos que já nada viam foram tapados por um folha que entretanto lhe batera na cara, quase como se a natureza os quisesse fechar.
A oferta estava feita. Restava esperar pelos seus efeitos.
Ainda é verdade…
Há momentos em que temos que parar tudo, travar a fundo e pensar. E pensar sobre e colocar tudo em causa. Eu penso que estou num momento assim. A avaliar tudo e todos, avaliar em que ponto estou e quais as opções que posso e tenho que tomar. Apesar de tudo é um momento extremamente solitário. Podemos estar acompanhados, por gente que nos quer bem e que até nos compreenda, mas não deixam de ser momentos solitários. Porquê? Porque há pequenos pormenores que apenas nós sabemos, situações que apenas nós vivemos, razões, ou a falta dela, que só nós conhecemos. Desta paragem abrupta, várias opções podem ser tomadas:
1. Continuamos como estamos até aí.
Poderá ser a maneira mais fácil e menos trabalhosa de se avançar. É um hipótese sempre presente, mesmo que a situação até ai não tenha sido a que mais nos preenche. Se a situação tem sido óptima, nada a discutir, mas se não tem sido, a possibilidade de mudar versus possibilidade de continuar coloca-se de uma forma acutilante. E muitas vezes se toma a opção de continuar, de não levantar ondas, mesmo que isso nos dê mais dor e mais sofrimento. Mas é opção que podemos considerar válida, porque ela existe e é efectiva.
2. Dizemos “Basta!”
É sem dúvida a opção com mais riscos. Dizer “Basta!” vai levantar ondas de choque que teremos que estar preparados para enfrentar, ondas de choque nossas e dos que nos rodeiam. É atribulado chegar a uma conclusão destas, é um caminho difícil e perigoso, cuja base é transformar quase completamente uma vida. Mas, na minha opinião, o dizer “Basta!” poderá ser feito de diversas forma também.
a) Mudança de alguns aspectos
Mudar é sempre difícil. Vem desde estudos antiquíssimos que a mudança é um aspecto organizativo de maior relevo e de maior dificuldade dentro de uma organização. Se transportarmos a ideia de um organização empresa para uma organização sociedade, infinitamente maior e mais sensível, então a mudança ainda poderá ser mais difícil. Porque se é complicada a mudança de hábitos, alterar mentalidades é tarefa titânica. Mas com coragem e colaboração é possível ir alterando algumas coisas. Mas aqui a palavra chave é colaboração, isto é, as alterações não se podem apenas efectuar em nós mas também em quem nos rodeia. Se tal não acontecer, as alterações podem não surtir o efeito desejado.
b) Mudança de muitos aspectos
Maior que a anterior em tudo, a colaboração torna-se mais permente ainda, ou seja, tem que haver vontades de terceiros em mudar, tem de haver disponibilidade para se sentarem e ouvirem. Mas a percepção das nossas dificuldades, medos, anseios ou infelicidades nem sempre é a maior. Eu tenho dificuldades em ser percebido pela maioria das pessoas que me conhece. E ir a cada uma delas e alterar alguns aspectos é de uma dificuldade extrema. E não falo na “logística”, mas sim na compreensão da necessidade de alterar. É decididamente uma opção muito difícil e talvez não seja de todas a melhor.
c) Radicalidade
A maior mudança de todas, a que comporta mais riscos, a que provoca mais ondas de choque, como atrás lhe chamei. É o “Basta!” na sua forma mais dura. É o quase cortar a direito. Implica riscos enormes na estima pessoal, em que nos lançamos de novo no mundo completamente a solo. Utilizando uma linguagem mais informática, é fazer o reset à vida. É a mudança de tudo aquilo que conhecemos e sentimos e vivemos no nosso passado. Não é apagar, porque um passado nunca se apaga. É simplesmente deitar abaixo a maioria das bases e construir de novo, ou utilizando uma frase que gosto, é “baralhar e voltar a dar”. Por norma, a radicalidade não é aconselhável. Porquê? Porque a preparação mental para o que a seguir tem de ser feita de uma forma tão segura e tão capaz, que a mínima brecha pode dar azo a que caíamos de uma forma cujo levantar seja difícil demais. Mas há momentos na vida, em que a radicalidade é necessária e aconselhável. Saberá cada um quando assim se deseja.
3. A Morte
Por último a morte. Para a maioria das pessoas, a morte nunca entra nas contas. É sempre uma não opção. Pois bem, para mim a morte é um opção. Poderá ser a última de todas, o desespero de causa, o egocentrismo puro, mas não é por isso que deixa de ser opção. É a ideia de felicidade extrema, em que passa a não haver nada que seja indutor de estados de alma cabisbaixos, descrentes e de sobrevivência num caminho que seria suposto fazermos a viver cada momento com uma felicidade quase inexplicável. Perfeição é uma utopia, mas a esperança de viver nela não o é.
Neste momento estou parado, ou quase parado, analisando tudo o que sou e o que quero e como o vou conseguir.E as opções estão em cima da mesa…
No horizonte as marcas do dia que ia acabando na doçura da tarde de um dia de outono, com o laranja espraiando-se pelos farrapos de nuvens e pela imensidão da foz do rio. As janelas abertas deixavam o ar de impregnado do aroma salgado da maresia invadir o interior do carro que rolava de forma macia pelo alcatrão liso da estrada sem trânsito. Aquele ar carregado de sal e a luz ainda intensa que obrigava a quase fechar os olhos traziam um sensação de calma quase obrigatória. Destino marcado no aparelho, seguindo as instruções quase de forma automática, conduziam ao momento há tanto esperado e mais ainda desejado. Vontade crescente que quase leva às lágrimas, querer imenso de novo sentir os braços pelo pescoço.
O momento chega, fazendo com que tudo o que se imaginou não passasse de um esboço do sublime e perfeito segundo em que os olhos de novo se encontraram. Pela cabeça passa o quanto estranho é que a realidade suplante o sonho. Fecha-se os olhos, cerram-se com a força toda, deixa-se de novo toda aquela mulher entranhar-se, deixar que o seu perfume repasse, se cole a pele para que acompanhe no depois.
A vontade não esmorece, a saudade não se apaga, um novo sulco nasce.
E com as lágrimas um sorriso de felicidade.
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