Correndo o risco de ser severamente punido com arrancar de unhas, empalamento e exposição da cabeça guilhotinada numa qualquer rotunda do burgo…
…tenho saudades do inverno.
Correndo o risco de ser severamente punido com arrancar de unhas, empalamento e exposição da cabeça guilhotinada numa qualquer rotunda do burgo…
…tenho saudades do inverno.
Como fósforo, o tempo vai passando quase sem se dar por isso, principalmente quando quem nos acompanha ao longo desse tempo no enche de um carinho e ternura imensa.
És meu eterno, por muito mais tempo que aquele que é possível contar. Guardo-te em caixinha de madeira exótica, entre folhos de cetim debruados a ouro. Guardo-te em cru, na essência que me rodeia. Guardo-te nos cheiros, nos gostos, nos risos e nas lágrimas, nas saudades das partidas e na felicidade dos voltares, no rodopio de um abraço e num beijo a duas mãos, sempre, até sermos velhinhos…
… com o coração. É assim que te sinto benfazejo meu, todos os dias da minha existência de há tanto tempo para cá e para sempre minha.
Assim, do nada, há muitos poucos dias, cresceu em som esta melodia.
Primeiro, num rádio e senti saudades.
Depois, alguém com um pequeno pífaro, fez ecoar as notas de uma varanda de um qualquer prédio vizinho e voltei a sentir saudades…
Uma profunda tristeza invade-me o corpo e o espírito.
Como aquela de ficar em cais acenando a um navio que parte, quando o nosso desejo era seguir com ele.
…não te atrases.
Gosto de te ver chegar com o sorriso que ilumina tudo o que te rodeia.
Apetece-me abraçar-te, naqueles abraços que não terminam, que sabemos que são o prolongamento de todos os abraços passados e que, ainda que os braços se apartem, continuará até ao infinito.
Fica, assim como estás, que os meus olhos não se cansam de te ver. Descansam em ti de tudo o resto que existe, afastam-se do mundo e ficam apenas em suspenso na curva da tua face.
Dá-me a tua mão. Os dedos entrelaçados dão-me fulgor para respirar mais uma vez, alijam a carga que é simplesmente caminhar. Nota-se nas pegadas que os passos se arrastam, excepto quando estás assim, de dedos entrelaçados.
O ar fica mais fresco quando vens, quando passas em meu redor de dedos poisados no meu ombro, ligeiros mas marcantes.
A tarde finda. Ainda há sol e quero ver-te a figura a contra-luz desenhada num horizonte desfocado.
Vens, não vens? E não te atrasas, pois não?
… como se quisesse lavar todo o corpo. Muda-se imagem na vã esperança de que tudo o resto se modifique com ela. Os olhos cansados tendem a fechar de remelas coladas (vindas sabe-se lá de onde!!).
Será cansaço? Ou lágrimas petrificadas? Não sei…
Fica a nova imagem, até que os olhos de novo se cansem…