Monthly Archives: Fevereiro 2009

Pudesse eu…

Soubesse eu ter o dom das palavras para te dizer o que penso. Mas não o tenho, sei dizê-lo apenas de uma maneira.

Fazes-me povoar a imaginação de viciosas ideias de deleites inconfessáveis. Fazes-me desejar trincar-te a carne como se trinca a alma. Ah pudesse eu ter letras suficientes para construir as mais belas palavras, e brincar de puzzle e construir frases e textos e capítulos e livros com tudo o que vejo. Mas não tenho. Tenho apenas uma forma de o dizer, de o escrever.

Soubesse eu pegar em pincéis e telas, e soubesse eu desenhar e colorir quadros de sonhos que sonhei. Pudesse eu murmurar em tons pastel a paz que me dás e a fervorosa calma que me aconchegas. Mas não sei. Sei apenas desenhar numa qualquer cor num qualquer papel as letras que repito.

Pudesse eu fechar-te os olhos e fazer-te sonhar, imaginar, alcançar tudo aquilo que eu próprio sonho, nem que fosse apenas dar-te a mais pequena gota do grande oceano em que me fazes navegar.

Pudesse eu conseguir fazer sair as palavras destes rudes lábios e fazer-tas chegar ao teu coração. Mas não consigo…

Pudesse eu fazer-te sentir…

…tudo.

Mas não posso, não consigo…

Apenas sei escrever, és bela…


Sons – Série Portugal


Chega de Saudade

Dois grandes compositores,

Dois grandes interpretes.

António Carlos Jobim e João Gilberto.

Vai, minha tristeza
E diz a ela que sem ela não pode ser
Diz lhe numa prece que ela regresse
Porque eu não posso mais sofrer
Chega de saudade, a realidade
É que sem ela não há paz, não há beleza
É só tristeza, e a melancolia
Que não sai de mim, não sai de mim, não sai
Mas se ela voltar, se ela voltar
Que coisa linda, que coisa louca
Pois há menos peixinhos a nadar no mar
Do que os beijinhos que eu darei na sua boca
Dentro dos meus braços os abraços
Hão de ser milhões de abraços apertado assim
Colado assim, calado assim
Abraços e beijinhos e carinhos sem ter fim
Que é pra acabar com esse negócio
De viver longe de mim
Não quero mais esse negócio
De você viver assim
Vamos deixar desse negócio
De você viver sem mim


Acordares

O dia acorda sonolento, espreguiçador, trazendo o primeiro calor do raio de sol que passa pelo buraco do estore quase completamente fechado. Fantasmagórico aquela visão dos raios que entram e se espalham pela cama desfeita e chão claro. Retira-se a roupa que cobre de um safanão, trazendo à baila aqueles pequenos grãos de pó que rodopiam no ar. Os olhos ainda semi-cerrados do dormir, fechados ainda pela intensidade da luz, o corpo dormente, preso, convidativo ao expandir do corpo, que se faz já de pé, corpo nu, retesado da manhã. Olha-se o ninho de onde se saiu, vê-se o corpo dela, pele despida, branca, macia, ternurenta, objecto de beijos e caricias da noite, local de toques e sensações, arrepios e loucuras. Desliza-se a pouca roupa que a cobre, lento, perspicaz, doce para que não acorde, não já, não agora, que é momento de contemplação, momento de honra ao templo de amor e desejo. Sente-se uma vez mais, na ponta dos dedos que percorrem as suaves curvaturas das costas, tão nuas como ele, a candura, a simplicidade daquelas linhas que se deixam levar no suave silêncio da manhã. Pele branca, amarelecida pelo raio de sol que poisa suave, vontade de beijar, vontade de apertar, vontade de ter. A mão que se abre, cai num todo, afaga na plenitude, corre a lateral em subida, sentindo aquele ponto em que ao rijo do osso se passa ao suave do seio, quente, brando, moldável à palma que o acaricia, deixando os dedos sentirem o vale que os separa, na palma o mamilo que se retesa ao contacto. Pára-se, sente-se apenas o respirar lento, compassado, o coração que bate. Cabelos desgrenhados, tapando a face, laivos de um aroma conhecido, quase desaparecido. Encosta-se face na face, deixa-se que os cabelos dela divaguem na cara dele, soltos, lambidos. Encosta-se o peito às costas dela, molda-se a ela, que dorme ainda, que não desperta, que não se quer desperta. Mão que desmonta o seio, esquadrinha entre costelas, passa pelo umbigo, cinge-a a si, sente o suspiro, sonha talvez, ajeita-se, comprime-se a si involuntariamente. Joelhos que se flectem, em simbiose perfeita, corpos juntos em um só, e a luz que sobe, como que ele próprio exploratório, toca-a, como ele toca, ligeiro, sorvente. Ele quer mais, quer sentir mais e explora as suas entre coxas, sente-a, pequeno pêlos em monte de Vénus, afaga-os, delira com eles. Entrega-se a ela por completo, abandona-se nela, num acordar ternurento. Aguarda-se pacientemente o seu despertar, aguarda-se o seu novo nascer, ali, com ele.Beija-lhe a face, descobre-lhe o corpo, afaga-lhe a alma.

Doces acordares…


Perdão sentido

Há alguns dias atrás, fui confrontado com a indicação de que sentiam que eu cobrava aos meus amigos por tudo o que lhes fazia. Cobrar não no sentido monetário do termo, mas em termos emocionais. O que eu percebi é que me diziam que eu esperava algo em troca sempre que ajudava um amigo, que não tinha uma ajuda desinteressada.

Não tinha a noção que era assim. Se há coisas que obviamente cobro de todos os amigos, como sejam a lealdade, sinceridade, honestidade, respeito e segredo, não tinha noção que cobrasse mais. Foi uma surpresa e um choque. Porque se o fiz foi sem essa intenção ou mesmo consciência.

E por isso mesmo, a todos os meus amigos que se sentiram cobrados por algo que disse ou fiz, peço humildemente o vosso perdão. Se o fiz, não tinha esse direito, mesmo inconsciente que o fazia.

Já agora, pedia a todos os meus amigos que se sentiram de alguma forma cobrados, que mo digam directamente, para que este pedido de perdão seja feito olhos nos olhos, que é como deve ser feito.

Obrigado.


Chocolate Negro

Tenho que confessar um pecado meu…

Chocolate negro, daquele de culinária…

Sinto agora o gosto na boca de um pedaço de chocolate negro, amargo…

Um pedaço de céu…


Gostos

Hoje passei cerca de uma hora a meia a fazer uma coisa que gosto. Passei hora e meia a falar da vida.

Não da minha propriamente, mas sim da vida, apoiando aqui e ali com experiências minhas. E é sempre elevante perceber que o “público” para quem falava, um grupo de pessoas de média de 20 anos, habitualmente irrequietos, faladores, desinteressados, passou uma hora e meia de olhar atento, pensante, perguntador, ávidos talvez de algumas coisas concretas da vida. Por hora e meia passaram a ouvir falar da vida como é, fosse profissional, fosse pessoal, deixando de lado matérias enfadonhas sobre pós-vendas, clientes e consumidores. Percebi que lhes faz falta isso mesmo, ouvir falar do que é a vida, do que tem de bom e mau, das experiências de quem já viveu, dos conselhos de por quem já por ali passou.

E soube-me bem, sentir que alguns aprenderam alguma coisa com aquilo que fui, sou e talvez venha a ser…