Bilhetes…

De dentro do café, olhava a rua através do vidro por onde desciam as gotas de chuva. O cigarro fumegante por entre os dedos finos e delicados que terminavam numa unhas perfeitamente arranjadas. No filtro do cigarro, as marcas do bâton vermelho que usava nos lábios. Se fizesse um esforço, conseguia ver a sua pele branca da face, os pontos verdes dos olhos contornados pelas pestanas longas de rimel. Mas não se dava a esse esforço. Preferia ver a chuva a cair, sentindo o agasalho do casaco no interior do estabelecimento já de si quente, em contraste com a chuva e aragem fria de lá fora. Enquanto levava o cigarro à boca, a outra mão aconchegava o casaco ao pescoço deixando-a cair pelo grosso tecido até entrar no bolso. Sentiu um calafrio quando sentiu algo estranho dentro dele. Sabia que não tinha colocado nada no bolso. Nunca o fazia com o medo do esquecimento. Mas ali, em contacto com os dedos, algo estranho, parecia papel, mas dobrado, muito dobrado. Pensou em tirar a mão e deixar estar. Mas a curiosidade foi maior, e alcançando o papel com a ponta de dois dedos, tirou devagar.

Poisando o cigarro no cinzeiro, desdobrou cuidadosamente e olhou para a caligrafia que o preenchia. Estava escrito à mão e ela conhecia aquela escrita. Sem data, escrevia-se assim:

“Não sei quando lerás estas palavras, se é que algum dia lhe colocarás os olhos em cima. A falta de coragem fez-me escrever-te em vez de te olhar nos olhos e dizer-te tudo o que quero dizer. Não acho que seja surpresa para ti, já me percebeste há muito, já sabes o que te escrevo há mais tempo talvez que aquele que imagino. Mas mesmo assim, sabendo tudo isso, sinto necessidade de to dizer. Talvez depois me dês a oportunidade de to dizer cara a cara, olhos nos olhos, esses mesmos olhos que admiro e desejo. E o que te quero dizer é tão somente que te quero. E quero-te nessa tua simplicidade que me faz vibrar de um forma que desconhecia até agora, de uma forma que julgava impossível alguém me fazer vibrar e sentir. Adoro-te pelo simples gesto de andares, pelo simples facto de me veres, pela simples maneira de existires. Fazes-me sorrir pelo simples gesto de entrares numa sala qualquer, espalhando esse aroma inebriante da tua pele, do teu perfume tão próprio, que me faz querer levantar e abraçar-te, apenas para sentir esse respirar que me dá vida a mim. Sinto-me vivo quando estou junto de ti, mesmo que não me fales, mesmo que não me conheças, mesmo que nunca me tenhas dirigido um segundo olhar.

Sabes, imagino-te na minha solidão, que me deixas guiar-te na doce balada de uma música, me deixas ter-te na solidão de um tango, me deixas tanta coisa que desejo. Imagino-te gostando da felicidade de seres amada, imagino-te na doçura de um carinho que te faz sorrir. Não me perguntes o porquê de o sentir, de desejar que me faças rei do teu reino, me faças crer que o meu amor não é uma ilusão, um devaneio de quem pouco mais tem para dar que a si próprio. E dou-te, mesmo que não aceites, dou-te tudo de mim, dou-te o que sou e o que tenho, dou-me de alma e coração. E mesmo que me jogues no lixo, serei teu, até ao fim dos meus dias. Porque o amor é mais que tudo o resto, é mais que eu próprio, é mais que o mundo em que vivo. O meu mundo. Esse mundo que gostava que o vivesses. É pouco eu sei. Não é talvez o mundo que sonhas para ti. Também o sei. Mas gostava que fosse teu. Gostava que o vivesses, como eu vivo o teu, mesmo que não mo dês, mesmo que não me deixes entrar. Sinto a sorte de pelo menos estar à porta, à entrada, vislumbrando cada momento teu. Vejo o teu sucesso, vejo a tua força, e fico imensamente feliz por ti. Sei que não me vês. Sei que me olhas quando forçada a isso. Não notas a minha existência, o meu sofrer por te querer. Esse sofrer bom de quem ama sem mais nada. E sim, amo-te mais que tudo na vida. Amo-te nas poucas palavras que te dirigi. Amo-te nos longos olhares que te dei sem que notasses. Deste-me vida com a tua existência, mesmo sem o saberes. Deste-me força sem o quereres. Tornaste-te razão do viver, do levantar todos os dias de manhã sabendo que te veria, sabendo que te ouviria, mesmo que as palavras não fossem para mim. Mas talvez com estas linhas esteja a desafiar o destino que não é meu. Sejam o sonho que não posso viver. A única certeza que tenho é que esse sonho me faz adorar-te, querer-te, desejar-te.

Não sei qual o destino que darás as estas linhas, mas seja ele qual for, tem a certeza da pureza de tudo o que te escrevi.

Até sempre, se não for para sempre…”

Uma lágrima caiu pela face branca, enquanto os dedos trémulos novamente embrulhavam o papel. O cigarro ainda no cinzeiro fumegava o últimos suspiros. E na lembrança o som da terra a cair sobre o caixão que o levava.

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4 responses to “Bilhetes…

  • Anjo caído

    Sabes que te leio. Pode não ser da forma correcta, mais justa ou que mais gostaria, mas leio-te sempre…

  • John Doe

    Há imensas formas de me ler… E torna-se um hábito não ser lido da mais correcta e mais justa.

    Paciência…

  • Anjo caído

    O conformismo não é certamente uma característica tua.

  • John Doe

    Há sempre uma altura em que aprendemos que o conformismo é o único caminho. As esperanças não morrem, mas vão sendo cada vez menores, até estarem num ponto da quase nulidade. É aí que entra o conformismo…

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