Vamos à bola?

Na rua as pessoas juntam-se, acotovelam-se, quase se atropelando na ânsia de entrar. Ouvem-se já alguns cânticos que vêm pelo ar de dentro do recinto. Gritos de quase guerra, em uníssono nas gargantas afinadas, ecos de vitória desejada e incerta. O olhar de ânimo, desejo, vontade férrea de vencer. Encontrões até chegar às galerias, a descida pela escadaria, o sentar num banco desconfortável, o cheiro da relva acabada de aparar. Os ecos fazem-se ouvir por todo o estádio. É cedo ainda, não há artistas. A claque da casa salta, fazendo tremer toda a estrutura. Mesmo que não queiramos, a adrenalina sobe em nós, sentimos o nervoso miudinho, contagiante. Sentimos que estamos dentro de um tribo, a nossa tribo, das nossas cores. Toca-se no cachecol que se afaga ao pescoço. É nosso, as pessoas olham-me como sendo dos deles, mesmo que não me conheçam e eu não me sinto sozinho. Entram para aquecimento, os primeiros aplausos para os da casa, os primeiros assobios para os visitantes. As cores vivas de quem corre no tapete verde, o murmúrio das conversas laterais e as pessoas que vão chegando e acomodando-se. Ouve-se perfeitamente o som baque dos chutes tensos nas bolas, e as pessoas em delírio pelos craques que jogam. Na acústica, músicas mexidas que nos fazem perder a beleza das vozes que se aquecem na expectativa do começo. E as claques aos saltos, insultos múltiplos entre apoiantes. Olha-se o relógio nervoso, a expectativa, o anseio por ver o espectáculo. Aqui e ali, discussões acaloradas sobre os últimos resultados, as últimas estratégias. Treinadores de bancada, sempre de olhar acutilante, praguejando que fariam muito melhor. E a acústica que incita os da casa, e dá a constituição das equipas. E a cada nome o aplauso sonoro ou a assobiadela monumental, conforme seja herói ou adversário. E entram perfiladas, cores garridas, e todos se levantam, qual vista de gladiadores na arena. São onze de cada lado, mas três de árbitro. O comum acordo de todos na assobiadela perante este último. Os primeiros “gatuno” vociferados como se ele ouvisse. E num instante o silêncio, no momento suspenso do primeiro sopro estridente do juiz. E no milésimo segundo após os gritos que voltam, incandescentes, furiosos. As faces de raiva da jogada perdida, as certezas de quem sempre soube que era mau jogador, mesmo que já tenha marcado golos. Mas é mau, perdeu aquela bola tão fácil. E o suspense da jogada, o perigo que ronda a área, o respirar em suspenso aguardando a decisão, o som do chute, o rasar a trave, o bruaá de uns o suspirar de alívio de outros. E novamente se ouvem os tambores, que tocam sem cessar, como que marcando o ritmo do passo de quem joga. E suspende-se outra vez, e cai na área e grita-se falta. E vocifera-se novamente contra o juiz, que é cego, que é mau, que está comprado. Manda jogar, não é nada. E a cada apito ou falta dele, mais uma lista de impropérios contra o homem, que está ali, sozinho, no meio de tantos outros, que tem o poder de decidir.

E sucedem-se os sons de desânimo, desilusão a cada jogada falhada, a cada golo perdido. E o intervalo que chega, com os nervos em franja. Discutem-se as jogadas, a má sorte, o estratégia falhada, o mau juiz. E as cadeiras abandonam-se, na busca da comida, o cachorro, a bifana, um fino para a sossega. Os miúdos, apanha bolas, brincam no relvado, nota-se nas suas caras que sonham um dia jogar ali, como os outros que estão no descanso. Rematam numa baliza vazia, gritam golo sonhado que aquelas bancadas inteiras os aplaudam de pé. Voltam as pessoas, cheiram a carnes fritas, ao fino que se entornou pela roupa. Mas não faz mal, é dia de jogo.

Entram de novo as equipas e os olhos procuram alterações, quem saiu quem entrou, qual a estratégia. Discute-se o 4x4x2 e o 4x3x3 ou o 4x5x1, como se trocassem números de telefone. Volta a fúria, mais leve, que os finos e a barriga cheia fazem efeito. Surge nova oportunidade, e os visitantes marcam e as vozes dos poucos adversários que se faz ouvir num estádio silenciado. Cabeças baixas de quem não acredita, o balde de água fria que esmorece a confiança. Mas lá dentro luta-se ainda, como se se lutasse pela vida. E uma jogada mais perigosa faz levantar ânimos. O sangue corre mais depressa outra vez, até que a felicidade chega, contagiante. Abraços entre desconhecidos na celebração de um golo que dá pouco mais de nada. Não está ganho, pelo menos já não se perde. Ouvem-se os tambores, os incitamentos. Os gladiadores não desistem. E o juiz que não ajuda. Chega-se o fim a passos largos, mas ainda há tempo. Há sempre tempo até o infeliz do árbitro soprar pela última vez. E ao cair do pano, depois de tantos saltos de expectativa, a reviravolta, os da casa marcam, a confiança restaura-se, a alegria volta. Há quem chore, há quem ria, há quem fique pasmo. E os que antes criticavam dizem agora que sempre souberam, sempre confiaram. E acaba em alegria para os da casa, a vitória foi conquistada. Aplaudem-se mutuamente, gladiadores e espectadores, celebrando a vitória suada, o cansanço de ambos estampados nos rostos, mas a alegria que não se consegue disfarçar. E as pessoas vão saindo do estádio, umas quantas, poucas, chegam-se à relva, querem uma assinatura, uma camisola, os restos da batalha, um pouco dos heróis. Novamente os atropelos na saída, que se quer ir para casa, ou para o tasco da terra, contar na sua versão tudo o que se passou, como foi a batalha, como também eles foram heróis pela equipa ter ganho, porque foi importante estar lá, junto deles, fosse a criticar fosse a incitar. E o estádio fica vazio de gente, já nada se ouve, um silêncio sepulcral que invadiu a arena, as cadeiras vazias, o lixo que se acumula. Ficam alguns com olhar perdido pelo tapete verde, pelas bancadas despidas, pelos amigos que se fazem ali e que apenas voltaram a ver dentro de duas semanas. Talvez para de novo os abraçar, ou talvez carpir as mágoas de uma derrota, na certeza porém de que a arena ali se mantém e os seus gladiadores voltarão…

Anúncios

2 responses to “Vamos à bola?

  • Anónimo

    Pois é, pelo que tenho visto aqui na net, o pessoal gosta de textos mais hard…
    Os blogs que falam de sexo então tem comentários e visitas a torto e a direito.

    No teu caso, (e garanto que não é pra dar graxa, porque o sería…? ) tenho vindo a descobrir como escreves e noto um fluir e uma intensidade que me agrada qualquer que seja o tema.

    Este caso é um brilhante exemplo do que escreves e de como escreves bem…mesmo bem!

    Obrigada por partilhares connosco o que tens cá dentro.

  • John Doe

    Obrigado pela visita. Obrigado pelo comentário. E obrigado eu pela partilha ser lida tão atentamente.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: