Reflexões

A experiência de que falei há algum tempo atrás acabou. E correu dentro daquilo que esperava, não tanto como terceiros esperavam. É sinal que ainda sei algumas coisas sobre mim. O que acho que é um bom sinal. É sinal que sou capaz de pensar e de analisar o que se vai passando comigo, com a minha vida, que me apercebo das coisas que me fazem avançar, atrasar, parar ou mesmo retroceder.

Sempre me considerei como alguém capaz de pensar, de ser e de sentir. Sempre me julguei capaz de transmitir isso mesmo a quem me acompanha e a quem me ajuda. Desenvolvi, por mote próprio, e sentido de necessidade próprio, alguma capacidade de expressão para isso mesmo. Talvez por isso consiga escrever alguns contos tão apreciados (e o meu muito obrigado a quem os aprecia), alguns aqui escritos, outra já publicados noutros cantos e que hoje estão guardados, talvez para um dia voltaram a ver a luz. Mas dizia eu, desenvolvi essa capacidade de expressão, descritiva, sentida, no propósito de conseguir ser transparente para quem o quero ser. Mas noto falhas em mim nesse sentido, porque nem sempre o consigo ser. Mesmo que ao longo do tempo tenha tido a ilusão que o conseguia, acontecimentos recentes mostraram-me que não fui tão transparente quanto o deveria ter sido. Demonstraram-me que não foram capazes de me ver em toda a minha plenitude, apanhando-me a mim de surpresa, uma vez que não contava com essa dificuldade. Mas a vida é feita dessas coisas, e serviu, se para mais nada, para me melhorar mais um pouco ao nível de expressão. Mas confesso que serviu para mais alguma coisa. Serviu para escolher ainda mais a quem me ponho transparente. Serviu para ver que nem toda a gente merece que seja transparente, doce ou apaixonado. Serviu para me fechar bem fechado e só abrir a quem efectivamente merecer por isso, a quem efectivamente estiver interessado em me conhecer. Já houve muitas pessoas que se fingiram de interessadas nessa abertura, talvez no intuito de colher frutos para si, de receber sem dar. Aprendi isso tudo e, a maior parte, a custas minhas, com as dores que isso trouxe, com as tristezas que me assolaram. Aprendi que não me posso apaixonar assim, à primeira, só porque me mostraram um mundo que me agrada, que me deram luta a conquistar. Prometi a mim mesmo que não me apaixonaria novamente. Cumpro a minha promessa religiosamente. Loucura dizem uns quantos, impossível dizem outros tantos. Sim, é relativamente impossível não começar a sentir algo, mas é fácil matar à nascença. Seja por convencimentos próprios, seja porque a pessoa do outro lado rapidamente nos mostra que não vale a pena.

Hoje, mais que ontem, aproximo-me cuidadosamente das pessoas. Porque a maioria das vezes, saiu desiludido, seja porque razão for. Seja porque efectivamente não compreendem o alcance das minhas palavras e, consequentemente de mim, seja porque têm apenas uma intenção particular e não estão interessadas no todo que sou.

E para ser sincero, cada vez me sinto mais sozinho no mundo. Mas cada vez gosto mais de o estar. Porquê? Porque o facto de estar sozinho me tira das desilusões que a maioria das pessoas me dá. Há quem possa dizer que é uma fuga de mim… Se o fosse, não colocava as coisas tão critalinas como as ponho.

Acreditem, eu não fujo de mim.

Eu neste momento fujo sim, mas do resto das pessoas…

Anúncios

10 responses to “Reflexões

  • Anónimo

    apesar de para mim ser um texto com montes de situações por trás, noto alguma leveza nesta escrita.
    Não tanto uma desilusão pois até parece qeu já sabias o resultado…
    No meu caso, continuo a querer acreditar nas pessoas…acho que vou ser assim até morrer , paciência sou assim não há mesmo nada a fazer …
    Quanto a ti, só espero que não fujas daquelas que valem a pena…
    Não é justo levarem todas por tabela pois parece-me que é o que queres fazer.

    E se um dia a paixão de bater à porta …deleita-te, vive, sê tu por inteiro e vais ver que tudo o resto se encaixa 🙂

    Parabéns mais uma vez ( vou deixar de dizer isto porque até parece que tenho uma “intenção particular”)

    🙂

  • John Doe

    É de facto um texto com imensas coisas por trás, essas mesmo que vou fechando não transparecendo. E sim já sabia o resultado apesar de não me terem acreditado quando o perspectivei.

    Eu já fui mais ingénuo, acreditando sempre nas pessoas e na sua bondade. A vida vai-me ensinando que nem sempre é assim. Talvez por isso a minha falta de justiça, como referes. Quando olho à minha volta e tantas pessoas não tiveram pingo de justiça para comigo, a questão do porquê continuar a ser justo levanta-se. Será justo para mim continuar a ser justo para os outros? Talvez me digas que sim. Aceito a tua opinião. Mas, e há sempre um mas, a necessidade da justiça própria cada vez é mais premente. Talvez isso leve a essa tal injustiça do perigo da generalização, do todos levarem por tabela.

    Obrigado pelos parabéns, e sim deves deixar de o dizer. Não por imaginar uma intenção particular (ou soubesse eu quem és…) mas sim porque não são merecidos. Obrigado eu pela atenção com que lês o que escrevo e tão generosamente comentas.

  • immortal

    temos momentos em que nos apetece fugir das pessoas, depois passa…cai-mos outra vez e tentamos fugir novamente…
    seja como for revi-me na tua reflexão
    e não nos faz bem andar a fugir muito tempo, nem estarmos sozinhos demasiado tempo, torna-nos amargos e desconfiados…corremos o risco de nos tornar demasiado carentes e sequiosos de um afecto e isso sim, é que é muito mau! devemos só estabelecer uma meta, limites na entrada dos outros na nossa vida e nós na vida deles…
    digo eu, se é que faz algum sentido isto

  • mf

    “a necessidade da justiça própria cada vez é mais premente”

    Eu diria que o caminho é por aqui. No dia em que sentires que é justo que possas ser feliz, nesse dia, e só aí, vais pegar em ti e lutar por isso. Até lá, vais-te desiludir sempre e com todos, façam o que fizerem. Porque já estás, à partida, à espera de te desiludir. Não és tu que dizes que, sempre que te sentes bem, começas a pensar quando vai acabar? Nós atraímos o que sentimos, disso não tenhas dúvidas.

  • John Doe

    Immortal:

    Eu já caí e levantei tanta vez que chega à hora em que temos que dizer basta. É mesmo aquele sentido de haver justiça a nós próprios, o momento singelo em que sentimos que não queremos cair mais. Quanto a chegarmos ao momento em que estamos demasiado carentes, depende da preparação psicológica de cada um para esse mesmo momento. Não me entendas que nunca preciso de ninguém. Olha quem… Eu fui, sou e serei sempre humanodependente. Preciso sim sempre. Mas é como dizes. Limito a entrada. Se qualquer pessoa, ou pelo menos quase todas, poderiam entrar, hoje a malha é fina e cada vez mais. É prevenção apenas.
    Mas, somo sempre, ainda é uso o velho ditado “Depois de casa roubada, trancas à porta”, ou seja, só depois de muita cabeçada é que aprendi.

  • John Doe

    mf:

    O caminho é certamente por aí, não o duvides. E se há maneira de não me desiludir é mesmo não dando azo a que haja desilusão, não dar o flanco. E sim, é um facto que quando me começo a sentir bem com alguém, começo a pensar quando é que esse bem estar vai acabar. E neste momento, como dizia no final do post, cada vez me sinto melhor na minha solidão, não dando o flanco, não dando azo a essas mesmas desilusões, não me permitindo sequer que me tentem conquistar, seja porque meio for. É simples não é? É pena eu ter demorado tanto tempo a aperceber-me disso mesmo, e ter caído as vezes que caí. Ainda não estou seguro que me arrependa do que já me aconteceu, porque vivi situações interessantes apesar de tudo. Mas se o soubesse antes de as fazer, também não estou certo que as fizesse. Foi o caminho da vida… paciência.

    Talvez o caminho da minha felicidade esteja mesmo aqui, na fuga das outras pessoas… Como em tantas outras coisas da vida, o tempo o dirá. Certo que continuarei aqui para quem quiser falar, que quiser a minha ajuda, quem quiser que partilhe algumas experiências da minha vida, quem pretender o meu conselho. Para isso estou sempre disposto. Para o resto é que definitivamente não…

  • Sininho

    Há mistos de agri-doce. De desalento e de esperança fecunda. Há definitivamente momentos para tudo e para estarmos aptos para entender que uma verdade imensa um dia , genuina e verdadeira, tem cambiantes largas e é por vezes mutante.
    Acredito que nessa caminhada lúgrube, existe um perdão que nos temos de conceder a nós mesmos, pela humilhação do nosso erro ou engano, dessa leitura trôpega e da afronta da perda e desencanto ou desamor, e não ter vergonha dele ditando-nos paliativos “nuncas”. É como engolir placebos mágicos.
    Pensei muitas vezes que nem sempre estamos aptos a seguir em frente porque cristalizamos o erro, um marco num tempo que já nos é anacrónico; sentimos o travo amargo que perdura e não repetimos o prato. Mas às vezes, de vez em quando, porque se cozinha diferente e a vida tem alquimias próprias, confecionam-no de um modo diferente, podemos dar-lhe outro nome e corajosos atrevermo-nos a degustar de novo.

    Mas sim concordo, não obstante, que a autopreservação é muito ajuizada.

    Um beijo querido John.

  • John Doe

    Sabes, já sofri tanto, mas tanto por não me autopreservar… Soubesses tu as lágrimas que já me caíram por me terem deixado na mão, por ter acreditado, por ter amado sem mais nada…

    Por isso tudo, só me mostro a escolhidos.

    Um beijo querida Sininho.

  • Sininho

    E fazes bem. Os exclusivos eleitos assim o merecem. E tu, claro, também.

  • John Doe

    Digo-te que à bem pouco tempo, mais um escolhido se me atravessou pelo caminho. E faz-me bem…

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: