Sangue meu

A faca poisada no punho moreno fazendo pequeno vinco. Os olhos marejados de lágrimas olham-na na busca de uma coragem que não chega, não vem, não sobe pelo peito onde furiosamente bate um coração. Sente-o bater na jugular saliente do pescoço contraído em esforço. Soluços fazem saltar a lamina na pele e ele vê aquele vinco tão definido onde a lamina esteve poisada e para onde voltará já de seguida. Vibra um pouco e a pele rasga um nada. Ele sente a dor lancinante que lhe atravessa os nervos pelo braço acima até ao cérebro que não desliga. Uma pinga tinge a lâmina tapando o seu reflexo e corre lentamente pelo braço até ao cotovelo gotejando nas lajes brancas do chão de uma casa-de-banho. Ele ouve o pingo a cair, a bater no chão, num som ensurdecedor, que faz a cabeça rodopiar. Ele sente, mas sabe que não é suficiente. Não chega à veia que deve abrir. Ele sabe que tem que ser assim, abrir, jorrar o seu sangue, pintar aquelas paredes e chão de imaculado branco com o seu sangue. Pintar tudo aquilo do vermelho vivo do seu sumo, daquilo que o fez viver. Chora ainda enquanto pressiona a lamina e a faz correr do princípio ao fim pela sua pele, sente que a lâmina afiada entra pela carne até raspar no osso do punho que lhe segura a mão pendente. Sente a faca saltar na mão enquanto a lâmina fica romba no contacto com o duro do seu punho. E o sangue jorra, salpica a parede a cara o peito. Ele vê enquanto todo ele fica pintado a sangue. Vê os seus olhos de dor espelhados no vidro à sua frente. Vê-se desaparecer por trás da cortina vermelha que se coloca à frente. Sente o cheiro ferroso do sangue quente que lhe invade as narinas, os gosto nas gotas que inadvertidamente lhe caíram na boca quando a abriu no grito surdo da dor lancinante que lhe atravessou o corpo todo. O arrepio que lhe atravessou cada milímetro de pele no esgar de dor. E sente que o corpo se adormece, e a dor foge na mesmo proporção que a poça de sangue vai correndo lentamente pelo chão, ficando cada vez mais espesso. Sente as pernas que fraquejam, o batimento que é mais lento. Já não o sente na jugular, já quase não o sente no peito. Deixa-se cair, sentindo ainda que as costas da sua camisa começam a absorver o sangue que está no chão. Sente o corpo a esfriar, repara que o moreno da pele dá lugar ao branco pálido da ausência de sangue.

Sente-se adormecer deitado no chão, no sorriso desenhado de uma ausência de si e, murmurado sem som pelos lábios moribundos, desenhou no ar a palavra “Amo-te”.

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