Dançamos?

A noite escura recolhia-me no seu regaço, tornando-me invísivel, denunciado apenas pelo chapinhar compassado dos passos na calçada irregular de pedras grandes e incertas. Tirando a lua envergonhada pelas nuvens e uns escassos neons nas paredes dos bares, mais nenhuma luz incendiava a noite. Pelo contrário,os sons enchiam os becos por onde passava, desertos de almas e tão cheios de notas ecoantes pelas paredes despidas e velhas das casas que perfaziam as ruas e ruelas. Sons vibrantes, gementes, tristes ou alegres, conforme o antro escuro por onde se passava. Mais ou menos a meio da rua, um som diferente fez-me estacar. Melodia triste, poeta, gemida nos sons, embalante nos sonhos sonhados e nos outros. O arrepio que veio apenas de escutar atentamente, tornando-me surdo para todos os outros sons, e a melodia que me ia conquistando. Encosto-me na parede do outro lado da rua e acendo um cigarro que fumo lentamente, deixando-me invadir pela calma sonora de um bandoneón, gemido ao seu limite, acompanhado por umas cordas ligeiras e suaves, notoriamente dedilhadas por mãos sábias e calejadas. As lágrimas que não controlo quando uma volta mais aguda me faz vir à lembrança o quanto desejei o tue corpo rodopiando ali, naquele momento, comigo. Senti o teu peito altivo de encontro ao meu, o perfume que se eleva do teu pescoço, naquele recanto secreto e apaixonante, aquele mesmo, ao qual chamei o canto dos amantes, as tuas mãos abertas nas minhas costas, enquanto a tua cabeça no meu ombro se deixa cair nos sentimentos do querer. A tua face nos meus olhos, não estando mas como se tivesse, recordando o toque da ponta dos meus dedos no desenho das tuas sobrancelhas, percorrendo o fino caminho até à tua face. E a dança não importa mais, não há mais o que dançar, que não seja a pura vontade de estar. Digo que te quero apenas com o olhar que se fixa no fundo dos teus olhos claros e a ilusão que me dizes o mesmo, enquanto os lábios se baixam de encontro aos teus, naquele encontro inocente das peles sensíveis que se roçam, do sentir do respirar na minha pele. Sinto o perfume de ti entranhar-se em mim, lentamente, docemente, rodeando-me de uma forma tão intensa quanto inexplicável. Sei que estou só, mas sei que estás ali, não consigo sair, és tu que me fazes ficar, querer mais, mas continuo só, ao som de um tango triste.

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10 responses to “Dançamos?

  • Anónimo

    dou comigo tantas vezes a recordar tantas sensações semelhantes…
    Sei que amo porque o sinto SEMPRE comigo, o cheiro, o respirar, o toque na minha pele …

    MAGNIFICO mais uma vez,ía a descer essa rua( não sei porquê mas vejo-a de descer) enquanto pensavas nela

    Anya

  • John Doe

    Dizes essas coisas tanta vez que já nem sei como agradecer…

  • Anónimo

    não precisas agradecer e se digo estas coisas é porque as sinto e me sinto bem e ver os quadros que pintas.

    A única coisa que posso pedir-te é que nos continues a deliciar

    Anya

  • John Doe

    Continuarei a escrever enquanto tiver forças e vontades…
    Se isso vos delicia melhor ainda.

  • MiquellinaLasciva

    A mim deixa-me….ó pá tu sabes…como me deixa!!

    E claro que delicia..

  • John Doe

    Óptimo. Não é outro o meu objectivo…

  • Sininho

    Jonh Doe, Entendo melhor o seu tango agora.
    Tão lindo que é no que ispira e serena em mim.

  • John Doe

    Tango é um pensamento triste que se pode dançar.

  • Sininho

    Se o dançar, vai ver que não é triste.

  • John Doe

    Gostaria de o saber dançar. É um projecto que ainda tenho. Mas os meus pés de chumbo lembram-me imensas vezes das dificuldades que vou ter….:D

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