Monthly Archives: Março 2009

Doçuras

Pés descalços no tapete de relva que se estendia pelo sol, sentindo as folhas fazerem pequenas cócegas na pele que caminha descontraidamente, no resfolhar tão próprio do verde que se dobra à passagem. Vestido solto, transparente, que esvoaça à passagem da ligeira brisa, saborosa, que afasta o calor abrasador da tarde soalheira. Cabelos soltos , lançados às costas, negros e brilhantes, olhos azeitona, sorridentes como só eles, semicerrados pela luz intensa que os faz agastar, lábios rosa, carnudos, de traço vincado, delicados e humedecidos. Caminho lento, silencioso, na graça de ser quase nuvem, livro na mão fechado. No ar, a música ligeira que enche os sentidos e as vontades de algo maior, em compasso lento e estudado, a fazer deixar invadir pela calma da serenidade do tempo.

Senta-se na beira da piscina de água cristalina, pés na água, molhando o vestido que se cola à pele lisa. Riso solto enquanto puxa acima o vestido teimoso que teima em cair até à água. Fica-se por fim, beijando as coxas morenas em toque grudado, em carícias de união.

Abre-se o livro que se poisa no regaço, aberto na passagem marcada. Dedos finos que dedilham as páginas soltas, no vagar imenso da leitura atenta. O sol que queima como fogo na pele, o coração que arde por dentro por quem ama. Sorriso que sai na fuga do pensamento até sabe-se lá onde. E a obra lançada ao lado, enquanto apoiada na mãos lança os pés alternados pela água, levantando salpicos que lhe batem na cara e peito. Pequenas gotas que brilham ao sol que lhe bate, escorrem pelo vale sinuoso do peito. Corpo esguio que se despe, sentindo as próprias mãos acariciarem a pele que se desnuda, lançando o vestido ao chão por companheiro ao livro, para de seguida desaparecer na água que a cobre. Braçadas lentas e compassadas, em viagem silenciosa até ao meio da massa de água.

Fica-se flutuando, de seios apontando ao céu, de coxas ligeiramente abertas, deixando a água invadir a sua intimidade, de cabelos espalhados, de olhos fechados sentindo a música que ainda ecoa.

Final de tarde que chega, no frio próprio do sol que se esconde, vestindo novamente o pano que de seco se põe molhando, deixando visível a elegância do perfil, escorrendo ainda as gotas que lhe beijam pele. De pés descalços se faz o caminho de regresso até onde os olhares indiscretos não alcançam.

Fecha-se a porta, acaba-se a música e termina-se o dia.

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Sim tu…

…tu que estás aí, triste.

Sim tu, que perdes as forças a cada dia que passa. Sente o meu abraço que te envolve, sente o meu beijo que te acaricia a pele de jasmim, ouve a minha voz que ecoa dentro de ti. Ouve-me…

Sim tu, sente-me agora…

Estou longe, sei-o bem. Mesmo perto sei que estou longe. Mas sente-me…

Faz um esforço, esquece o resto do mundo por momentos, deixa para trás o que te atormenta o espírito, e sente-me…

Ouve-me quando te digo que te gosto.

Ouve-me quando sem palavras te olho fundo nos teus olhos negros, sente-me quando te abraço sem te tocar.

Isso, sente agora o aperto do meu enlace, deixa-te ir na ternura do meu ombro.

Fica assim, só mais um pouco.

Não chores…

…ou deixa-me beber as lágrimas que te correm. Deixa-me conhecer as cambiantes do seu sabor.

Sim tu…

… sabes bem que é para ti.


Problemática das vidas passadas…

É usual, e já vi por essa blogosfera, imaginarmos quem fomos numa vida passada. Acreditamos, pelo menos alguns, na reencarnação e imaginamos o que seremos numa vida futura. Há quem diga até que a luz que vemos na hora da nossa morte não é mais que a saída da nossa alma num nascimento num qualquer lado do mundo (talvez seja por isso que os bebés se esquecem do procedimento traumático do nascimento).

No entanto, num filme que vi recentemente, e que gostava de ver novamente, assim como a sua sequela (“Before Sunrise” e “Before Sunset“), apareceu-me uma ideia desconcertante.

Reproduzo aqui na integra:

“OK, well this was my thought: 50,000 years ago, there are not even a million people on the planet. 10,000 years ago, there’s, like, two million people on the planet. Now there’s between five and six billion people on the planet, right? Now, if we all have our own, like, individual, unique soul, right, where do they all come from? You know, are modern souls only a fraction of the original souls? ‘Cause if they are, that represents a 5,000 to 1 split of each soul in the last 50,000 years, which is, like, a blip in the Earth’s time. You know, so at best we’re like these tiny fractions of people, you know, walking… I mean, is that why we’re so scattered? You know, is that why we’re all so specialized?

Alguém a consegue refutar?


Danças

Sugestão de som de fundo aqui (Abrir numa nova janela).

Pele morena, cabelos negros, escorridos, corpo pequeno e esguio, caminhando em suavidade, com toda a leveza de uma aragem que passa quase sem se sentir. Pés descalços, marcando a areia prontamente apagadas pelo mar que lhe beija doce os pés andarilhos. O sol que se vai escondendo por trás do manto de água calma, reflectindo os laranjas da paleta de final de dia e ela que pára e olha o horizonte longínquo. Senta-se na areia, agarrada aos joelhos, queixo poisado sobre estes, arranjando o cabelo por detrás da orelha, cabelo teimoso que foge do seu lugar a cada brisa que passa.

Aprecio-a ao longe, sentado na pedra aquecida pelo dia quente, deixando o fumo do meu cigarro esvair-se no ar. Apetece-me levantar e ir, caminhar até ela, perguntar quem é. Vejo-a há muito sem descobrir quem por detrás se esconde. Apetece-me ir, descobrir, conquistar.

Já se vê apenas meia estrela luminosa quando de um ímpeto, sem saber bem o que fazer, me levanto e inicio o passo pelo areal vazio, olhos postos naquela figura ali, sentada. Pára-se e a razão vem ao de cima, faz estacar, pensar, fugir. Mas a vontade é imensa, e caminha-se em passos miudos, a medo, de encontro ao destino incerto. Imagina-se o que se dirá, ensaia-se o discurso que me apresente, que diga quem sou e ao que vou. O medo, sempre o medo, que não me larga a mão e o coração que dispara sem sentido. O perfume chega-me, fecha-me os olhos, acelera-me ainda mais. Sinto-me confuso, sonhador.

A música nos ouvidos faz-me esquecer dos receios e chegada a ela estendo-lhe a mão.

– Danças?

Olhos tristes que me olham, desconfiados mas cheios de um ternura transbordante, sem saber o que fazer ou dizer. Nota-se que engole em seco. Não me espera ali, não sabe quem sou, mas sorri e estende a mão.

Levanto-a e dou-lhe um auricular que coloca no ouvido. E ao som fecha os olhos e enlaça-me, poisando a mão nas minhas costas e a cabeça no ombro. Rodopiamos lentamente no areal, como se mais nada existisse. Deixamo-nos ir pelo embalar do som que nos invade, as palavras não são necessárias quando o corpo vai falando por nós. Lentamente o dia chega ao fim por trás de nós, deixando-nos embrenhados no escuro da noite que cai e nos transporta até ao mundo dos sonhos.

E dançamos até não haver mais dia, até não haver mais música, até não haver mais que dizer.


Ciclos

Um ciclo aproxima-se rapidamente do fim. Quarta-feira que vem, acaba-se o dar aulas onde estou. Até quando não sei, mas este ciclo fecha-se. Devido a isso, hoje foi a primeira despedida sem adeus aos primeiros alunos, que foram também os primeiros a quem dei aulas na vida. Um carinho imenso que se cimentou ao longo do tempo, apesar de barulhentos, irrequietos tudo o mais, ficarei para sempre marcado por esta turma. Pessoas de valor, que vi crescer mais um pouco. Pessoas com quem me abri, com quem ri e com quem me zanguei. Pessoas que ensinei e me ensinaram a mim. Pessoas com todo um futuro à sua frente.

Uma das alunas abraçou-me no fim, num abraço sentido e sentimental, numa demonstração de carinho imensa, que me deixou triste por os deixar mas feliz por lhes ter tocado na vida.

Obrigado por esse abraço pequena, significou muito para mim, como homem e como formador.

A todos, o desejo de uma felicidade imensa, de realização de todos os projectos que imaginarem e desejarem.

Façam-me o favor de serem felizes…


Brumas

2


Céu Azul

1

Ergues-te por entre as brumas da memória, altiva, significativa. Esplendor do dia, brilhando aos raios de sol. És montanha em mim, calmaria acima de tudo o resto.