Apetece-me…

– Estou aqui…

A voz ecoou pelo espaço minimalista das divisões acinzentadas, reflexo do tempo chuvoso que faz na rua. Doce e melodiosa, faz sorrir apenas de ouvir.

-Aqui onde? -pergunto eu, sabendo perfeitamente onde estava, apenas forçando-a a emitir um resposta. Queria ouvir mais daquela voz que me preenche os sentidos.

– Aqui, na sala… – ouço sabendo que acompanha um sorriso.

Chego-me a ti, vejo os teus olhos que apanham os meus na subida das páginas do livro que deixas cair no teu regaço. Blusa branca semi-transparente, deixando ver uma lingerie rendada que sabes perfeitamente que me tolda a razão, saia comprida que sobe pela perna traçada, deixando ver o fim das pernas torneadas, pés descalços, sentindo o fofo do tapete que inicia logo após o sofá onde te sentas.

Chego-me a ti e sento-me. Perna dobrada por cima do sofá, cotovelo nas costas, face na palma da mão. Deixo-me estar assim, contemplando a tua figura que me olha de sorriso rasgado. Nada mais te disse desde que cheguei. Nem um beijo te dei. Sei que o esperas. Vejo-o no teu gesto irreflectido de passares a ponta da língua humedecendo os lábios, tornando-os brilhantes, desejáveis. Aproximaste de mim, num gesto lento e calculado. Sei que o queres e tu sabes que o quero dar. Mas sabes também que gosto de te contemplar nessa singela postura de descontracção. As tuas mãos seguram ainda o livro aberto no teu regaço e vejo-as fecharem-no sem marcar página. Lanças o livro no chão sem barulho, que o tapete silencia tudo. E viraste para mim, assim como eu estou. Sorris. E vejo-me nesse sorriso, neste sentimento que nutres de uma forma que não consegues esconder. A perna que sobe ao sofá abre um pouco essa saia. Sabes que me atazanas, me fazes sonhar com a pele que esconde. A blusa que se ajeita numa abertura tendenciosa.

Arrasto-me no sofá até tão perto que sinto o respirar da tua boca nos meus lábios. Fecho os olhos. Sei que fechas os teus. E os lábios entreabertos que se tocam ligeiramente, num toque fugidio, lento. Sinto-te o calor do corpo, tão perto, tão certo. E deixo-me ir em novo beijo, mais completo, em que te sinto a boca, em que te sinto o corpo arrepiar de paixão, de carinho. E a minha mão que se poisa naquele pedaço de pele da tua perna a descoberto, que sobe pela saia até chegar à tua cintura. Suspiras quando ali toco, naquelas costelas vibrantes. Aquele suspiro em que trincas o lábio inferior ainda de olhos fechados. E o som que me enche a alma. E não me contendo, beijo-te novamente e deixo a mão subir até ao peito que se mostra. Sinto na palma da mão o bater do coração e desço-a por dentro dessa blusa decotada até sentir que o teu seio se molda. Vibras, sinto-o.

Vou abrindo botão a botão, desnudo-te, em gestos simples e inventados. Sinto-te o corpo que se aproxima. Sinto que entramos em sintonia, em sinfonia melodiosa. E deito-te no sofá, e cubro-te comigo, as tuas coxas nas minhas, em encaixe perfeito enquanto te sinto o interior da carne, milímetro a milímetro, em toques aveludados. Sentes-me, dizes-me isso mesmo em cada gemido lento e murmurante, nos olhos fechados que se abrem em busca do beijo que completa. Sinto-te em doces ondulações perfeitas, como mar acariciando a areia da praia. Sincronismos perfeitos dos desejos que evoluem, que sobem pela pele, que descem pelo corpo. A energia que se acumula nos músculos retesados do teu corpo, e do meu. Enérgico mas saborosamente lento. A calmia de encontro à força. Fazes-me sentir tudo de ti, fazes-me preencher-te na doce união, fazes-me sorver-te o amor que me transmites de forma tão carinhosa. Sinto-te a pele, sinto os seios que se roçam no meu peito em arrepios doces de uma tensão que se acumula.

E as lágrimas que afloram ao teus olhos enquanto dos teus lábios sai o doce murmúrio esperado “Meu amor…“. E vibras no gemido descontrolado de quem atinge um Vivace sorridente, num andamento da sinfonia que compomos em conjunto.

Deixas tombar a cabeça ao lado, o cabelo que te cobre a face ruborizada e levas o dedo à boca sorridente, num gesto de quase vergonha e novamente murmuras “Meu amor…

Aconchego-me a ti naquele sofá, abraço-me ao teu corpo, agarras-me o braço, enquanto a chuva começa a bater nos vidros que dão ao jardim.

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10 responses to “Apetece-me…

  • Miquellina

    Um rol de sensações deliciosas percorrem-me a imaginação…perante a magnitude de um momento carregado de intimidade como este é revelador…e sim, escreves que é uma delicia.

  • John Doe

    Ainda bem. É essa sempre a intenção. Que quem o leia “sinta”, “veja” e “cheire” o que escrevo.

    Se é uma delícia? Não sei. Talvez…

  • Anónimo

    Tantas vezes que já vivi isto…
    Mesmo assim são poucas quando se ama …

    Nunca o saberia descrever desta forma mas sinto-o dentro de mim…

    MA RA VI LHO SO

    Anya

  • John Doe

    E não consegui descrever tudo…

    Obrigado Anya

  • Iris Barrso

    Ser capaz de fazer o leitor megulhar dentro de um cenário descrito, sentir os cheiros, ver as cores, respirar ao mesmo tempo que os personagens, é um feito que poucos conseguem e que eu, simplesmente, amo.

    Perfeito!

  • John Doe

    Se foi isso que te fiz sentir, fico feliz. Porque é essa a intenção quando se escreve. Que se vá para lá, que se sinta e que se veja…

    Obrigado

  • Aradhana Luminos

    Porque o amor é uma coisa maravilhosa, quando partilhado e retribuído…

    Um “mundo” de sensações muito bem descrito. Gostei.

    😉

  • John Doe

    Obrigado pela leitura e pelo comentário.

    Bem vinda…

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