Sangue meu

– Ouve…

Na ponta da falésia, de mão em concha atrás da orelha apontada ao mar, fechava os olhos absorvendo todos os sons que subiam pelas rochas acima. O mar batido lá ao fundo, em rugidos ameaçadores no fustigar da rochas, para depois ouvir o frenesim borbulhante do recuo. Cadências certas como relógio, compasso do tempo passado ali.

-Seis…

Contava as ondas no atento do rugido maior da sétima.

-Ouve, é agora…

E o rugido maior do mar que entra furiosamente pelas grutas, ecoando pelas frestas abertas dos milénios passados. Subia até nós do ventre da terra, fazia-nos tremer como terramoto suave.

-Ouviste? Diz-me que sim…

Tinha ouvido sim. Por momentos tinha-me dispersado da figura dela, que me preenchia os sentidos não dando lugar a mais nada e tinha escutado o rugir. Era impossível não lhe fazer a vontade.

Aproximei-me e abracei-a por trás, segurando-a, deixando o queixo poisar-lhe no ombro despido. A aragem fazia-lhe o cabelo esvoaçar-me na cara e todo o cheiro, do salgado do mar e do perfume suave dela, estalou-me na cara de uma só vez. Senti que as mãos delas seguravam os meus braços e deixou encostar a face à minha. Sentiamo-nos na ponta do mundo, com o sol quente a bater na face. O arrepio que me corre enquanto sinto a pele da face roçar na da minha e as mãos que me apertam mais. Encaixamo-nos na perfeição. Sinto-me como peça de puzzle com encaixe perfeito no jogo da paciência de encontrar o nosso par.

-Cinco…

-Seis…

E a sétima que chega e nos faz tremer outra vez. Um riso que se escapa da boca enquanto sentimos a fúria do mar muitos metros abaixo dos nossos pés.

– Assim o mundo parece perfeito. – diz-me.

A resposta bate-me na cabeça “Contigo o mundo é perfeito“. Mas nada digo. Deixo-me estar no silêncio das vozes, quieto, sossegado, contemplativo. Deixo-me absorver os momentos radiantes do sossego matinal, na companhia do meu par perfeito.

As mãos afrouxam nos meus braços mas eu não desfaço o enlace. Roda para mim enquanto as minhas mãos percorrem o contacto até estar de frente para mim, face a face. As mãos pelo meu pescoço, os olhos semi-cerrados pela luminosidade e o vento que lhe traz o cabelo para a frente. E então aquele gesto sublime de sacudir a cabeça lançando o cabelo num só sentido, deixando a descoberto a face ao meu sentido. Aproximo-me com lentidão, como que sentindo cada milímetro do ar do espaço que nos separa. Fecho os olhos ao sentir a pele sedosa da face em contacto com os lábios que desenham um beijo, que poisa como a aragem que corre. Pequeno em fogosidade, longo em tempo, como deve ser a demonstração da ternura envolvente. Deriva-se suavemente pela pele até ao encontro dos segmentos carnudos que lhe desenham o sorriso. E toca-se, ligeiro, os lábios. Tremo sem saber se é a sétima onda se o sangue que me corre mais depressa, que me faz disparar a afeição. Tremo no contacto simples dos lábios nos meus. Impossível não a comprimir mais no meu abraço. E beijo-a novamente, mais longo, mais envolvente, procurando mais do seu sabor, do seu toque. E mais uma vez encaixamo-nos na perfeição, num beijo tão doce e envolvente, que faz o mar de inverno envergonhar-se da sua fraqueza. Sinto-a em mim, no seu abraço, no seu beijo. Sinto cada momento, cada instante, imensurável no tempo dos homens, duvida-se até que no tempo dos deuses.

As ondas já não importam, já não são elas que nos dão o terramoto. Somos nós que convulsionamos naqueles sentires e sentidos.

E o aparte que a custo se faz, no doloroso afastar de parte do que somos, sentindo ainda o entorpecimento da pele, mistura da fricção recente e da lembrança do gosto. Saboreia-se os lábios como que não querendo deixar escapar porção, por mais pequena que seja, do gosto do amor.

Sorrimos. Frente a frente. Sorrimos.

E falo eu…

-Sentiste? Diz-me que sim…

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8 responses to “Sangue meu

  • Anónimo

    Não sei mais o que te dizer …

    “Pintas” maravilhosamente bem

    Sente-se tudinho…

    Até o cheiro a mar e aqueles salpicos salgados cá chegaram :)))
    `
    Doce, envolvente… o amor tem destas coisas…

    Sei que não chega mas não tenho mesmo palavras… Obrigada por me deixares sentir-te …

    Anya

  • John Doe

    Obrigado eu pela tua atenção.

  • São

    Leio este blogue, desde que pela primeira vez publicas-te no “Prisão de Palavras”, nunca antes tive coragem de comentar os belíssimos textos, onde com palavras e de uma forma extraordinária, retratas cenários para os quais sou facilmente transportada, neste deu até para sentir o cheiro a maresia; gosto do que aqui leio, por isso venho quase todos os dias ver se há algum texto ou alguma fotografia novos.
    Num mundo cada vez mais materialista, admiro e agradeço a generosidade de quem assim me permite ler tão belos textos

  • John Doe

    São:

    Obrigado pelas tuas palavras. Obrigado pela tua dedicação a este sitio que não é mais que umas singelas linhas dos sonhos e das esperanças.

    Generosidade a tua, pela coragem de comentar e dizer o que pensas. E perdoa-me a admiração minha pelas tuas palavras.

  • São

    As minhas palavras são sinceras, e ficam aquém do que penso da forma como nos teus textos os ambientes são retratados com clareza, subtileza e elegância conseguindo envolver-me e transportar-me para o cenário coisa que a maioria dos livros de autores consagrados que leio não consegue ou dos blogues que leio dos quais apenas ressalvo um.
    Gosto de ler estas tuas “singelas linhas dos sonhos e esperanças” como diz o poeta “o sonho comanda a vida”, felizmente podemos sonhar, infelizmente às vezes é mesmo só o que podemos fazer.

  • John Doe

    Não sei o que te dizer… Deixas-me sem palavras… Eu, que gosto tanto delas e tanto gosto de as arranjar, não sei mais o que te dizer.

    Obrigado, do fundo do coração, por essa leitura atenta. E fazes-me feliz ao saber que te consigo transportar até aos cenários sonhados. Porque é esse o intuito.

  • São

    Não tens de dizer nada, nem agradecer.
    Sou eu que agradeço e não tenho palavras que façam justiça às tuas.

  • John Doe

    Resta-me agradecer-te a atenção…

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