Danças

Sugestão de som de fundo aqui (Abrir numa nova janela).

Pele morena, cabelos negros, escorridos, corpo pequeno e esguio, caminhando em suavidade, com toda a leveza de uma aragem que passa quase sem se sentir. Pés descalços, marcando a areia prontamente apagadas pelo mar que lhe beija doce os pés andarilhos. O sol que se vai escondendo por trás do manto de água calma, reflectindo os laranjas da paleta de final de dia e ela que pára e olha o horizonte longínquo. Senta-se na areia, agarrada aos joelhos, queixo poisado sobre estes, arranjando o cabelo por detrás da orelha, cabelo teimoso que foge do seu lugar a cada brisa que passa.

Aprecio-a ao longe, sentado na pedra aquecida pelo dia quente, deixando o fumo do meu cigarro esvair-se no ar. Apetece-me levantar e ir, caminhar até ela, perguntar quem é. Vejo-a há muito sem descobrir quem por detrás se esconde. Apetece-me ir, descobrir, conquistar.

Já se vê apenas meia estrela luminosa quando de um ímpeto, sem saber bem o que fazer, me levanto e inicio o passo pelo areal vazio, olhos postos naquela figura ali, sentada. Pára-se e a razão vem ao de cima, faz estacar, pensar, fugir. Mas a vontade é imensa, e caminha-se em passos miudos, a medo, de encontro ao destino incerto. Imagina-se o que se dirá, ensaia-se o discurso que me apresente, que diga quem sou e ao que vou. O medo, sempre o medo, que não me larga a mão e o coração que dispara sem sentido. O perfume chega-me, fecha-me os olhos, acelera-me ainda mais. Sinto-me confuso, sonhador.

A música nos ouvidos faz-me esquecer dos receios e chegada a ela estendo-lhe a mão.

– Danças?

Olhos tristes que me olham, desconfiados mas cheios de um ternura transbordante, sem saber o que fazer ou dizer. Nota-se que engole em seco. Não me espera ali, não sabe quem sou, mas sorri e estende a mão.

Levanto-a e dou-lhe um auricular que coloca no ouvido. E ao som fecha os olhos e enlaça-me, poisando a mão nas minhas costas e a cabeça no ombro. Rodopiamos lentamente no areal, como se mais nada existisse. Deixamo-nos ir pelo embalar do som que nos invade, as palavras não são necessárias quando o corpo vai falando por nós. Lentamente o dia chega ao fim por trás de nós, deixando-nos embrenhados no escuro da noite que cai e nos transporta até ao mundo dos sonhos.

E dançamos até não haver mais dia, até não haver mais música, até não haver mais que dizer.

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8 responses to “Danças

  • Miquellina

    Quando é que partilhamos o auricular?? Hum??

    (Beijo)

  • John Doe

    Um dia destes Miquellina…

  • São

    Mais uma vez conseguis-te transportar-me para o cenário, adoro o mar e gosto da praia ao fim do dia, quando já quase não tem gente, quantas e quantas vezes não estive já sentada na areia abraçando os joelhos e olhando o pôr-do-sol, e que saudades tenho, de olhar assim o mar, se um estranho se acercasse e me pedisse para dançar, penso que a minha reacção seria precisamente a da tua personagem.

  • John Doe

    Sabes, vivi durante alguns anos junto ao mar. Sinto um fascínio enorme por ele, sendo recorrente nos textos que fui criando ao longo do tempo, nestes aqui publicados e noutros, já publicados em outros sítios e que estão na sombra hoje (talvez um dia os republique). E nesses anos que junto dele vivi, muitas madrugadas estive com ele, sentado na praia. Muitas vezes desejei uma estranha junto de mim. Nunca aconteceu, talvez nunca aconteça… Mas ele contínua a exercer sobre mim um fascínio enorme…

  • São

    Fascínio é precisamente a palavra indicada para definir o efeito do mar sobre mim, um fascínio inexplicável, pois nunca vivi perto do mar, só mesmo em férias e fins-de-semana mas não me importava nada de morar bem pertinho dele, sou capaz de passar horas a olhar o mar a ouvir o som das suas ondas.
    O meu ambiente de trabalho, no computador tem invariavelmente fotos do mar e também na minha música, tenho o som do mar, para quando a saudade bate mais forte.
    Todos desejamos, fantasiamos, sonhamos também eu algumas vezes sentada na areia com um livro no colo e os olhos no mar, sonhei com um estranho que no fim da tarde passeia o cão à beira-mar, este foge-lhe e vem ter comigo eu faço-lhe festas, então ele acerca-se, diz-me que o cão não costuma gostar de estranhos, começamos a conversar e conversamos, conversamos como se nos conhecêssemos desde sempre.
    Gostei da música que sugeris-te, não conhecia e espero que republiques os textos gostaria de os ler.

  • John Doe

    São:

    Muitas vezes caminhei eu pela beira da praia ao entardecer com vontade de ser o estranho. Muitas vezes vi eu, mulheres como tu, lendo na beira do mar sem a coragem de me acercar.

    Quanto aos textos, um dia talvez, faça a selecção dos que considero melhores e os republique…

  • Sininho

    Pergunto-me, Será que tens alma de Cyrano? e ainda, Que felicidade roubada nos privamos nós por termos narizes grandes e primas com ouvido selectivo e miopes…

    Lembrei-me: será dia de vencer uma trôpega paixão ardente? Se não consumando, ao menos vendo mais de perto? http://ftl.lusitango.com/

  • John Doe

    Nunca me tinha comparado a tal figura. Mas vendo bem, talvez o seja mesmo…

    Quanto à sugestão, que muito aprecio e agradeço, não fosse Lisboa tão longe e talvez…

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