Doçuras

Pés descalços no tapete de relva que se estendia pelo sol, sentindo as folhas fazerem pequenas cócegas na pele que caminha descontraidamente, no resfolhar tão próprio do verde que se dobra à passagem. Vestido solto, transparente, que esvoaça à passagem da ligeira brisa, saborosa, que afasta o calor abrasador da tarde soalheira. Cabelos soltos , lançados às costas, negros e brilhantes, olhos azeitona, sorridentes como só eles, semicerrados pela luz intensa que os faz agastar, lábios rosa, carnudos, de traço vincado, delicados e humedecidos. Caminho lento, silencioso, na graça de ser quase nuvem, livro na mão fechado. No ar, a música ligeira que enche os sentidos e as vontades de algo maior, em compasso lento e estudado, a fazer deixar invadir pela calma da serenidade do tempo.

Senta-se na beira da piscina de água cristalina, pés na água, molhando o vestido que se cola à pele lisa. Riso solto enquanto puxa acima o vestido teimoso que teima em cair até à água. Fica-se por fim, beijando as coxas morenas em toque grudado, em carícias de união.

Abre-se o livro que se poisa no regaço, aberto na passagem marcada. Dedos finos que dedilham as páginas soltas, no vagar imenso da leitura atenta. O sol que queima como fogo na pele, o coração que arde por dentro por quem ama. Sorriso que sai na fuga do pensamento até sabe-se lá onde. E a obra lançada ao lado, enquanto apoiada na mãos lança os pés alternados pela água, levantando salpicos que lhe batem na cara e peito. Pequenas gotas que brilham ao sol que lhe bate, escorrem pelo vale sinuoso do peito. Corpo esguio que se despe, sentindo as próprias mãos acariciarem a pele que se desnuda, lançando o vestido ao chão por companheiro ao livro, para de seguida desaparecer na água que a cobre. Braçadas lentas e compassadas, em viagem silenciosa até ao meio da massa de água.

Fica-se flutuando, de seios apontando ao céu, de coxas ligeiramente abertas, deixando a água invadir a sua intimidade, de cabelos espalhados, de olhos fechados sentindo a música que ainda ecoa.

Final de tarde que chega, no frio próprio do sol que se esconde, vestindo novamente o pano que de seco se põe molhando, deixando visível a elegância do perfil, escorrendo ainda as gotas que lhe beijam pele. De pés descalços se faz o caminho de regresso até onde os olhares indiscretos não alcançam.

Fecha-se a porta, acaba-se a música e termina-se o dia.

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