Monthly Archives: Abril 2009

Em guerra

Com os dedos sujos de terra e sangue desembrulha o pequeno papel, gasto das vezes que foi aberto e fechado, e olha para a foto uma vez mais. Treme de medo ou de frio ou de medo e frio, enquanto o cacimbo que tudo cobre se entranha pela pele até aos ossos. De ouvido à escuta, sempre alerta, encosta a si o cano da arma como que se ela fosse a sua namorada lá longe. Mas não é, o seu gosto é metálico, não é doce como a boca que beijou em saudade. Sorri enquanto à língua lhe vem à lembrança o toque acetinado dos beijos demorados de seu amor. Ajeita-se à arma sonhando que é o corpo quente e tenro de sua amada. Sobe-lhe a mão pela coronha como se fossem coxas roliças, mexe-lhe no gatilho como se lhe sentisse o sexo, afagalhe-lhe o tubo de fogo como se lhe ajeitasse o pescoço. Deitado na lama preta que lhe parecem lençóis de seda, deixa-se invadir pelas sensações da memória. Sabe-lhe de cor o gosto…

Caem pequena gotas de água na cara e nas folhas à sua volta, em ruído que o faz acordar e olhos abrirem-se de novo à foto que segura entre dedos. Passa-lhe dedo e marca-a a sangue. Sangue que não é o seu mas que bem poderia ser. É de outro, aquele mais um que jaz inerte a pouca mais de dez passos. Limpa com a manga do casaco ensebado, sujando mais que outra coisa. Já mal se nota o sorriso ou os olhos. Esta gasta de tanto ser vista. Dobra-a e guarda-a no bolso junto ao coração. Deita-se de barriga ao frio, de olho em mira sentindo o frio da terra e da água entranharem-se por dentro das vestimentas tão sujas quanto ao chão em que se apoia. Olha para os lados e sente-se só, sem companhia, sem amor, sem chão onde pisar em segurança. Deixa os olhos irem até ao seu companheiro de armas, ali estendido, ainda de olhos abertos ao infinito, o sangue a escorrer-lhe pelo canto da boca, diluído pelo temporal que se abate. A chuva em ribombar estridente nas copas das árvores, nem a passarada se ouve e ele ali, perdido no meio do nada, se mira apontada a nada, e o companheiro que já nada vê. Uma vontade de gritar que lhe sobe pelo corpo e que trava a tempo na boca que não se abre. Limpa os olhos com as costas da mão, desviando a água que cai em bica pela testa e se prende na sobrancelhas turvando a visão.

Escurece e ninguém aparece. Pergunta-se pelo outros que não ouve, que não vê. Não sai do seu posto, mira fitada ao vazio. Mas o cansaço que aparece, inimigo mais mortal que todos os outros. E os olhos pesam cada vez mais, fecham-se lentamente enquanto as mãos largam a sua amante de ferro, deixando o sonho entrar na inocência da felicidade.

Desperta ao som da fala que não conhece. Quanto tempo passou? Quem faz barulho assim? Levanta a cabeça para ver em seu redor e sente primeiro que ouve a bala que lhe atravessa o peito, que se projecta de encontro ao chão como se lá tivesse criado raízes, como se este o puxasse até à profundeza do inferno. O quente que lhe invade o peito do sangue que escorre da ferida aberta. Leva a mão até à foto e aperta-a enquanto sente os últimos suspiros que lhe saem do corpo.

Acorda estremunhado, de suor escorrendo pelas faces, olha ao lado e ela dorme descansadamente ao seu lado. Beija-a na face e deita-se novamente, deixando os dedos percorrem a cicatriz que lhe marca o peito…

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Surpresa

Numa formação recente, em que eu era formando, fizemos um jogo peculiar. Consistia em prender com uma mola, uma folha de papel nas costas. Depois escrevíamos nas costas dos outros uma característica que achávamos dessa pessoa.

Fiquei surpreso com algumas que me apontaram. Surgiu o simpático, o acessível, o sério, o bem disposto, o experiente e, a que me surpreendeu mais, misterioso…

Perguntei depois o porquê de apontar essa característica e responderam-me que era por o meu olhar ser difícil de perceber…


Quarto Vermelho

Sugestão musical : Dead Combo – Putos a roubar maçãs

O quarto pintado a vermelho sangue na penumbra, iluminado apenas por um candeeiro de luz amarelada, conferindo uma visão quase fantasmagórica do teu corpo. Vejo-te a pele por entre tules negros que tapam a visão deliciosa das tuas carnes despidas. Rodopias no tapete fofo, que te silencia os passos, levada pela música que deixas entranhar-te no corpo qual perfume inebriante. Os teus cabelos negros que te beijam o pescoço e os ombros, bambolenates com o corpo, fazendo vontade de deixar os meus lábios possuírem. Vais deixando cair as sedas quase transparentes, fazendo-me a mim voar na imaginação de te possuir. Rodopias , mostras-me o teu corpo despido, libertado das amarras, sorris na vertigem que te causas. A pele que mostras, as coxas fortes que se atrevem a mostrar o esplendor do seu interior desejoso. Deixas-me sem ar e sabes disso. Os pequenos seios que se mostram, rijos, palpitantes, pedindo as carícias absorventes das mãos que se acalentam e frenéticas seguram as últimas pontas do tecido que os vai descobrindo.

Cais na cama no auge da música que te preenche. Deixas as mãos escorregarem pelo teu corpo, sedento de ternuras, percorrem-no em força lenta, de mão espalmada e dedos esticados, dirigindo-se ao âmago do corpo. Vejo-te no arfar da respiração tão descompassada, seios ondulantes, a barriga contraída na expectativa do que se segue e eis senão quando a mão te chega ao sexo luzidio, ocultando-o dos olhares indiscretos. Descansas por um segundo, na quietude do quase silêncio, até que levas a que um curioso dedo te penetre lentamente fazendo com que um corrente de energia avassaladora te comece na coxas e te percorra em calor todo o corpo até ao incontido gemido que te sai da boca, em entusiasmo doce. Deixas que a mão te percorra a pele, que o teu corpo rodopie na cama, no formigueiro que te percorre cada nervo, no avassalar de todas as sensações. Mordes o lençol, enquanto tocas o teu íntimo, dedilhas o teu corpo como cordas de harpa esticadas ao máximo, sentes-te tão próxima no auge do desejo até que voas no esquecimento doce do orgasmo que te invade cada pedaço do corpo.

Ficas-te enroscada em ti própria, saboreando a languidez do corpo e da alma satisfeitas, ouvindo ainda os últimos acordes da música que acaba.

Olhas-me, sorris e adormeces…


Panem et circenses

As pessoas que regularmente lêem este blogue não estão habituadas a lerem aqui nada sobre a situação actual do país ou do mundo. Faço hoje um parêntesis e escrevo algo sobre o mesmo…

Este fim-de-semana começou a silly season… A partir de agora, quase todos os sábados e domingos haverá uma festarola qualquer. Começou com o fim-de-semana da juventude, vai seguir com as festas da cerveja e do S. João e do artesanato e das escolas e das estrelas e porque não das pedras da calçada… Qualquer coisa servirá de motivo para festas e mais festas.

Estava eu na minha janela, esfumaçando o meu tabaco e a única expressão que me veio à cabeça foi mesmo pão e circo. Olho para os insufláveis onde a criançada andava, o rappel promovido pela Armada Portuguesa, o camião da ERSUC onde a diligente funcionária colocava no lixo normal cartão que seria reciclável, assim como esferovite e restantes plásticos, os trampolins para pequenos e graúdos e um mar de gente em filas de espera para acompanhar pequenos nas brincadeiras.

Olhando para a situação económica do país, e sendo esta uma câmara que a um ofício de um empresa demora três meses a responder, pouco mais de nada faz que não seja arranjar alcatrão e dar dinheiro para o clube de futebol, gasta dinheiro nas festas desta índole…

E então fez-se luz. A ideia aqui dos políticos deve ser “já que vai faltando pão, ao menos que não falte o circo…”


Oração

A ti meu Deus te peço, que ele seja feliz como mais ninguém, tenha força de viver, a sabedoria de saber o melhor e a capacidade de o fazer. Que conheça o amor e a alegria, que os erros o ensinem a guiar no caminho, que lute por tudo o que acredite e que nunca se esqueça que é capaz.

A ti meu Deus, peço-te que o conduzas no caminho da verdade, da amizade, da tolerância. Que conheça o dom do silêncio e a força da palavra.

A ti meu Deus, peço-te que lhe concedas uma vida longa, recheada de vitórias e conquistas, recheada dos sentimentos e dos sentidos.

A ti meu Deus, peço-te que me ajudes a fazê-lo muito melhor que eu.


Ensaios sobre a noite

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E a noite que chega, lentamente, em tons chuva…

Cobre-nos o manto do silêncio do breu que traz a hora dos sonhos…


Lágrimas

E porque não ler com estes sons em fundo? (Abrir numa nova janela)

Em frente o caminho de luz reflectido no imenso manto de água, sente-se a brisa de fim-de-dia que refresca fazendo a pele arrepiar à sua passagem. Paredão quieto e imenso, rocha de força que suporta a fragilidade tua. Os gritos e as correrias em fim, em azáfama de arrumos de fim de dia de verão. Acaba-se o dia que amanhã vem mais, bolas que saltam pela areia que escurece ao ritmo da noite que aparece. Já se vê a lua lá no alto com o seu brilho prata. Se olhares com atenção, lá ao longe começam a notar-se os cintilantes brilhos das estrelas que serão a tua companhia pela noite fora. Tens frio e não ligas nenhuma. Sentes as lágrimas que te querem saltar dos olhos, querem fazer o seu caminho pela curvatura da tua face. Inspiras profundamente, cheiras o ar do mar que te chega, num esforço sobre-humano de travar o inevitável. Estás só e mesmo assim não choras, não queres chorar. De que servem as lágrimas perguntas-te tu no fundo da tua mente. De que servirão? De nada. Continuas na tua conversa tão própria, em que a razão vai ralhando ao coração. Abraças-te, não pelo frio, mas porque queres e precisas de sentir uns braços que te rodeiem as cintura. Precisas desse sentir para que não desfaleças na loucura. É bom mas sabe-te a pouco. Sabes que não deveriam ser os teus braços que querias que te rodeassem. Sabes que os teus braços deveriam rodear outrem que não tu. Lembras-te de pedaços do passado, fazem pressão nessas benditas lágrimas que teimas em que não caiam. Tentas levar os pensamentos a fugir para outras coisas, para as coisas felizes que viveste e também esses pensamentos te forçam na lágrima que não conseguis-te parar. A gota que te brilhou nos olhos e saiu, escorrendo pela pele morena até cair no teu queixo. Sentiste-a a bater nos teus braços que te apertam. Não limpas que o vento cuidará de o fazer. Contrais-te toda para que mais nenhuma saia. Não podem sair, não podes desabar o mundo assim. Sentes isso. Sabes que num só dia uma lágrima de felicidade e duas de tristeza e dor.

O sol que continua a estreitar o caminho de luz no mar, sinal que o fim está próximo, final de mais um dia que sobreviveste. As estrelas brilham mais agora que o breu da noite chega como manto cobridor de tudo. Ouve-se apenas o roçar lento do mar na areia da beira-mar.

Chego-me a ti sem que me ouças e enlaço-te nos meus braços por trás de ti. Não me olhas, sabes quem sou. Poisas a cabeça no meu peito e deixas-te ir no abandono soluçante das lágrimas que deixas de conter, num choro compulsivo e arrebatador. Sinto-te no abandono de saberes que ali estou, no momento em que sabes que não desabas porque te seguro.

Eu não te vou deixar cair…