Passos

O pôr-do-sol tingindo de vermelho e laranja o céu e a terra, as nuvens ao longe correndo ao ritmo da brisa de verão, e a noite que se aproxima trazendo com ela o silêncio total. Recorte de luz num corpo frágil, dando aos últimos raios a face ao beijo do calor que foge, cabelos soltos, dançantes ao sopro da natureza que passa, leve, singela, olhos que falam, mas não contam os seus segredos, mãos que acariciam sem tocar.

Caminha pelo campo, de ervas cerradas e altas, deixando que lhe acariciem o corpo, com toque suaves e doces, mão estendida dando pequenas cócegas nas palmas abertas. Sorriso aberto, olhos fechados, passos lentos e firmes, sentindo todo o aroma que emerge da terra. Cheira a terra e água, cheira a Violetas e Camomila. Papoila vermelha entre cabelo negro, rasgo de cor na pele morena. Olhos fechados ainda, no passo certo sem destino. Senta-se na sombra da árvore que vai desaparecendo, recosta-se no velho tronco que a ampara.

Não resisto e caminho na sua direcção, de máquina nos olhos, vou imortalizando o recorte na paisagem, captando cada gradação da cor que se vai esvaindo. Caminho com a mesma letargia, sentindo o mesmo roçar das ervas altas, o mesmo aroma que sentiu. E a câmara vai disparando, quase como que não controlado, em desvario de gravações. Olha-me enquanto a enquadro, sorri pela surpresa, lança-me a mão para que lha pegue. Sinto-lhe a mão fria na minha que a segura, puxando-me para que me sente junto. Sinto-lhe o corpo que se aconchega ao meu, agarrando-se a mim, encaixando-se no meu ombro, cabeça poisada no peito. Sinto-lhe o cheiro do cabelo que me invade de uma forma tão intensa, que por momentos apaga todos os aromas das flores do campo que nos rodeiam.

A noite avança no seu silêncio, e sinto que as mãos que me agarram não me deixarão mais. Aperta-me sem dor, na busca do momento de união perfeito, o corpo junto, o coração que se sente bater do outro lado, em bombadas compassadas, como o passo lento que me trouxe. Abraço-a, na protecção do frio que chega com o breu, aconchego-a mais ainda a mim, cingo-a a tudo o que sou, porto-de-abrigo em dia de tempestade, imortalizador do sorriso gracioso que lhe preenche a face em felicidade. De dedos no seu queixo levanto-lhe a cabeça, deixo-me ir no doce beijo dos lábios que me pedem, perdido no som do pequeno gemido da expectativa. Sinto-lhe o gosto doce da saliva que me invade, o calor de um respirar que anseio, na dança de uma boca que me preenche. Beijo meigo, ofuscante do mundo. Beijo cristalino, cheio de sentido. Levita-se o corpo no toque sedoso dos lábios envolventes, sabor brando de afectos imensos. O toque suave das línguas em dança pausada, deslizantes e ternas, aconchegantes do destino que se faz.

A noite cobre-nos, e a lua dá as boas vindas, em luz prata, lua cheia, como cheios estão os corações dos amantes.

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