Silêncio

Pela vereda húmida do orvalho matinal, ladeado pelos fortes trocos das árvores intemporais, ouvindo ao longe, um riacho no seu ruído tão próprio de quem saltita por entre pedras lisas do desgaste dos anos, num quase borbulhar de cadência ritmada como terra gargarejante, caminho na solidão de um proscrito. O verde que salta aos olhos no meio da bruma matinal, nevoeiro que se entranha pela roupa e faz gelar a pele, arrepios que percorrem cada milímetro do corpo como corrente eléctrica. O som dos passos abafado pela erva que nasce livre no caminho há muito sem ser pisada, caminho curvilíneo, serpenteando pelo matagal crescido. Gotas de água gelada pingam e acertam em cheio no pescoço descoberto, ensopam a camisa que se cola ao corpo. O bafo que condensa no ar, formando baforadas da fornalha do interior dos pulmões, que a cada respiro se enchem de uma ar tão límpido com a água que se ouve correr ao longe. Aqui e ali, rastos de animais que se escondem a medo, sinais que há mais vida para além de mim. Sons agudos de um milhafre madrugador em busca de alimento, quem sabe para a prole que não o deixa descansar da azáfama diária. Sobrevoa-me planando pelos céus. Ouço-o mas não o vejo. Pergunto-me se ele vê alguma coisa. Sorriu ao pensar que por cima desta bruma está um sol radioso, brilhante.
O caminho sobe, noto nas pernas que começam a pesar, transformando cada passo num pequeno sacrifício. O Ilíaco, o glúteo e o gémeo, cada um como que rangendo por si. Falta de hábito pensa-se. Mas mesmo na lentidão, o passo certo leva ao destino, perseverando no esforço contínuo do caminho. Sente-se já o calor do dia que abre, manhã solarenga depois da névoa, não é o topo do mundo mas quase. E agora sim, a ave real que se vê, em voos circundantes, em avanços picados sobre algo que só ela vê. A pedra onde se descansa parece um trono, sente-se como tal, enquanto os olhos percorrem a imensidão do infinito que se vê pela frente. Manto de nuvens a meus pés, andarilhos, cansados, quase trôpegos, que descansam agora da viagem empreendida. E durante largos minutos, apenas se ouve a brisa nas árvores e ainda o riacho que corre, esse sem se cansar, renovando a humidade da terra, que cheira intensamente. Mantos amarelos de Carqueja, o azul da Urze, ao longe as mimosas dão manchas no verde do pinhal. Aquece o sol, seca-me a camisa, faz-me fazer pala com as mãos para ver mais ao longe.

Fico-me no êxtase do silêncio que me invade.

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3 responses to “Silêncio

  • Anónimo

    Mais um excelente texto! “Fico-me no êxtase do silêncio que me invade”, é como eu fico depois de ter lido o texto e agora em silêncio me retiro para poder “saborear” cada palavra.
    Até já.

  • Maria

    Mais um belo texto!
    “Fico-me no êxtase do silêncio que me invade” foi como eu fiquei depois de ter lido o texto e assim me retiro em silêncio, absorvendo cada palavra.
    Até logo.

  • John Doe

    Obrigado Maria.

    Os agradecimentos são tantos e tão belos que já nem sei como responder…

    Até já.

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