Sobrevivência

Que queres tu?

Diz-me…

Diz-me o que queres ou deixa-me em paz. Desaparece na eternidade do tempo, da minha vista, da minha alma. Vivo no meu mundo sim. E vivo porque nele sou feliz. Tenho-o só para mim e para mais ninguém. Egoista? Chamas-me egoista por ter um mundo só para mim? Talvez o seja. Estou farto de viver no mundo dos outros, na suas regras, nas suas infantilidades. E aviso-te, no meu mundo não entra mais ninguém que não eu.

Desaparece. Não gostas desaparece. Vai procurar o que quer que seja que procuras em outra alma que não a minha. Não sei dar da forma que queres receber, que precisas de ter…

Fazes-me primeiro voar nas asas da tu imaginação e eu, na minha estupidez natural deixei-me ir. Para depois o quê? Hum… Depois o quê? Me deixares no ar e dizeres desenrasca-te? Me encheres a cabeça de sonhos e depois me mandares à vida?

Estou cansado. Estou farto. Apenas isso… farto…

Deixa-me no meu mundo.

Deixa-me só.

Desaparece porra…

Larga-me os sonhos…

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82 responses to “Sobrevivência

  • Ouriço

    Se calhar, o melhor que fazias era perguntar directamente isso à pessoa em questão ou aos teus sonhos…

  • John Doe

    Já está perguntado. O escrito foi a pergunta…

  • immortal

    fazes-me lembrar alguém

  • John Doe

    Não sei se considere isso um elogio ou não…

  • immortal

    foi um desabafo, desculpa, mas nao o disse com má intenção

  • Flowerbomb

    Se amas os teus sonhos, porque hás-de esperar que alguém desapareça? Sobretudo quando pode nem desaparecer em nós (cá dentro)? Se amas os teus sonhos, agarra-os bem e desaparece-lhe tu primeiro. Impreterivelmente.

  • São

    Desculpa a pergunta. Consegues mesmo ser feliz, isolado nesse mundo só teu ou simplesmente consegues não ser infeliz?

  • John Doe

    Immortal:

    Não tens que pedir desculpa de nada. Eu sei que foi sem más intenções. Quando o disse era na esperança que não o tivesses dito com mágoa, mas com alegria de conhecer alguém assim.

  • John Doe

    Flowerbomb:

    Quando nada mais são que sonhos, o que fazer? Há coisas que simplesmente não controlamos…

  • John Doe

    São:

    Nada a desculpar.

    E direi que consigo mesmo ser feliz.

  • Ventania

    É a minha vez de dizer, fazes-me lembrar alguém que conheço e que amo, com Alegria, pelo simples facto de poder conhecer, de poder amar. Tomara que esse alguém possa ser feliz como tu. E direi mais ainda, pelos teus escritos estou a quedar-me apaixonada.

  • John Doe

    Ainda bem que faço lembrar alguém dessa índole. Fico feliz por isso.

  • Sininho

    Curioso, faz-me pensar se tanto ruido de fundo nos obriga por vezes a ficar autistas…

    Frequentemente confundido com egoísmo, imagino que nos levamos a viver num compasso que nos inibe sermos entendidos como iguais. Somos uns pares diferentes.
    Há quem fale de portas, barreiras , trancas na porta, eu às vezes acredito que é simples como “ser”, nesse momento. “Somos” desiguais a quem também “é” sem se reconhecer, a estranha “Alice” . Pergunto-me, será que talvez num momento dobramos o tempo e coexistimos numa mesma dimensão com uma linguagem própria que é dístone? a promessa que imaginávamos reiterar pelo caminho , já não é verdade e carece ? não soaremos então como uma cacafonia de expectativas de resposta e reciprocidades desentendidas? cobramos o grito de socorro que não ouvem e emudecemos na palavra que nos suplicam.

    Há partos difíceis, ainda bem que não nos lembramos vividamente do nosso, nunca sobreviveríamos ao trauma- mas vamo-los tendo e renascendo devagarinho- Desencapsulamos os dias que já não são presente e que cristalizámos às vezes para os tornar mais infinitos – mas que já não são e doem porque queremos mais um bocadinho desse perpétuo….- tanto ruído….

    Gosto de segredar, há saúde na procura de harmonia. Foi só depois de muito fazer ranger, desesperado e atroz , o minúsculo violino tocado por uma pequenina e esforçada valente, de onde ouvi saír uma peça que me encheu de orgulho.

  • John Doe

    Acho que sim, que somo obrigados…

  • Sininho

    Uhm… não concorda então que às vezes nos pomos a jeito… ou somos miupes e vemos o que está perto e pronto. porque o resto exige muito de nós e não estamos para isso ,até porque as lentes são caras nos ferem a córnea…ou até temos a ver com o assunto e nos esquecemos que dar a a face é ser maior e propôr aos outros que o sejam também..
    Luto frequentemente neste dilema entre ver o outro ou sentir pelos olhos do outro. lê-lo ou entendê-lo. Não é fácil mas ,estou atenta e galvanizada na minha missão, que naturalmente é pessoal e nada tem que contagiar pandemicamente os mais cépticos.

    Bem-haja pelo seu tempo e anterior resposta.

  • John Doe

    A questão não é por aí, no meu entender. Eu, por norma, procuro sempre entender quem está pela frente para que possa perceber a forma como vê, reage e sente. Se isso é colocar a jeito como diz, não sei. Talvez o seja. Mas há sempre um sentido obrigatório resultante da forma do ser.

    Quando forçosamente somos compelidos a estudar o humano que por uma ou outra razão se coloca no nosso caminho, eu sinto sempre a obrigação de o entender na sua plenitude, sujeito claro está às vicissitudes intrínsecas que daí podem advir, nomeadamente a resposta não positiva e não compreensiva às tentativas de conhecimento. E penso que concorda comigo, que é facto que a maioria dos que se afiguram não pretendem sequer perceber a nossa intenção do conhecimento.

  • Sininho

    Concordo em absloluto mas, estou algo confundida com a sua resposta. Na coscuvilhice a que me dediquei ontem pelos seus textos e respostas que dá a quem os comenta, receio ter ficado com a percepção que o John Doe promove ser isso mesmo; alguém que por parte do seu construto , tem uma imensa necessidade de se perservar do conhecimento dos outros. Ora, não há bela sem senão… Pergunto-me : Não há quem o acuse de procurar a entrega do outro e dar pouco da sua essência em retorno? A mim já o fizerem, tive um momento de purgatório quando o senti de facto tão verdade. Talvez daí a minha explanação sobre a linguagem dos desencontros, como dois gagos, miopes a articularem sobre a folhinha mais castanha da árvore.
    Vim ao expurgo, fiquei com menos “bicho”

  • John Doe

    Tudo são fases. Já fui um livro aberto e dei mais que recebi. Hoje sou mais fechado. Mas nunca peço mais que aquilo que dou. Hoje sou apenas mais prudente no quanto dou e no como dou.

  • Sininho

    É assim depois da catarse. A vida continua. Diferente.
    Partilho:
    “Entende, Sou eu atrás desse vidro”. Há toda a verdade de mim nessa pele, sou eu, mas tem um filtro de névoa leitosa que tem de existir sempre para mim. O esfumar da minha morte ou glória.
    Serei também um todo nos diferentes semblantes do meu rosto pelas múltiplas cores na paleta dos nossos humores. Uma colagem de risos luminescentes e sonos escavados em sulcos negros nos olhos, verdes de náusea ou roxos de dor chorada, laranjas de vitamina ou beringela de sedosa luxúria. Mas gosto de me imaginar e revelar doirada, numa película de camuflada blindagem de pó fino que não revela o sublime ou mediocre, mas irradia de esperança do toque de midas a quem traz vasos rachados para dar novamente valor, como os meus. Esses que, de quando em vez, entendo que já estão na arca, e que a medo seguro nas mãos para os ver amarelecer com brilho a sair dos meus dedos. É a minha metamorfose da vida. Aquela que me faz sorrir e acreditar e dormir em paz e caminhar mais firme porque tenho as minhas riquezas, os meus tesouros; o meu património.

    Eu gosto de dar os meus vasos dourados. Não me forcem a fazer o inverso porque não sou eu e fujo. . Gostamos de entender os outros pelo todo e eu sou um todo para cada um, em verdade, mas aquela que cada um está preparado para receber, Eu sou assim. Pedacinhos, tal como a cor em miríade nos quadradinhos vidrados no tal painel Bizantino quando os vês dependendo da hora que o sol incide. Mas sempre que possível, doirados.”

  • John Doe

    Tento sempre aprender mais em cada fase da vida em que passo. E sou experimentalista ao ponto de me fazer de cobaia na experimentação do que me faz sentir melhor.

    E sim, a vida continua, diferente.

  • Sininho

    Vai-se conhecendo bem, assumo.
    Eu também gosto de boiões de ensaio… de ver as cores mudar e eu a plasticizar-me. Olha, olha, afinal consigo fazer um Flic-flac à retaguarda e um emprachado daqueles de merecer um a “standing Ovation”- e a minha multidão de sininhos em delírio aplaude- VALENTE, BRAVA! BIS!!!

  • John Doe

    São vários os contorcionismos que se vão fazendo ao longo da vida. Mais, são várias as descobertas pasmantes de possibilidades que conseguimos fazer com o corpo e com a alma. Já escrevi noutros cantos que não este que muitas vezes somo como água no rio. Molda-se à pedra por onde passa…

  • Sininho

    mas flui sempre e não passa pela mesma pedra.

  • John Doe

    É um facto. A questão é sabermos se somos rio a passar por várias pedras ou se somos as pedras pela qual passam muitos rios…

  • Sininho

    Rolling stones… agrada-me tudo menos ficar lapidada pela erosão.

  • John Doe

    Mas é inevitável a erosão a quem se expõe às intempéries.

  • Sininho

    De acordo.
    Num outro olhar, ficamos mais polidos. quem sabe mais bonitos, ergonómicos e multifuncionais, permite-nos alisar arestas até ser colhidos para aquecer benfazejos as costas de alguém.

  • John Doe

    É um facto. No entanto, também convenhamos que a natural erosão dos anos traz consigo um cansaço extremo, uma vontade que se acumula de que tudo acabe depressa, de que a rocha passe a pó.

    Noto eu que ao passar do tempo, a vontade de tornar ao pó vai aumentando na mesma proporção do aumento de caudal de águas tumultuosas que por mim vão passando.

  • Sininho

    Há uma relação directa, concordo.
    Lembrei-me do “princípio da incerteza”. Saíndo da hermética e já talvez obsoleta teoria e na minha interpretação mais leiga, digo que num determinado momento temos um Objecto que é protagonista.
    Todo o universo e agentes de influência e estimulação levitam e interagem com Ele como único actor de palco. Acontece porém, que na obscuridade, essas manifestações colhem ,per se, inúmeras subversões, actividades paralelas e vidas próprias que, de algum modo, por acção directa ou indirecta, o destituiram num momento para que um outro ocupe o seu lugar. Nesta sucessão de actividade se gera a mudança e acção e obviamente a incógnita de qual será a preponderante nas muitas frentes de manifestação que nos enchem a vida- uma discussão dialéctica, o surgir de um filho, a morte, o que fazer de jantar..
    Desgaste, sem dúvida, toda a dinãmica causa dispêndio, a inacção seria a melhor a melhor forma de não envelhecer rápido talvez, podemos dar-nos a desleixos, perguiças e abandonos e desistência.

    A erosão acontece quando o diafragma mexe parasimpaticamente mais uma vez, mas enquanto vivos, levando-nos para mais longe, a chegar onde não iríamos noutras correntes. Aqui , por exemplo, em fragmentadas nano moléclas de um todo que és, quando em craquelé propagas pedacinhos, de sonhos, produtos mais ou menos escatológicos da alma, e influencias terceiros, que como eu, se mergulharam neste caldo e deixam aqui também partículas de si. – um prepertador com vida própria em mim que agio por existir apenas, sem dolo.

    Acho que estamos sobre-estimulados, sim. Vivemos na vertigem de sentir muito, querer sentir menos, reclamar cegar de tanto sentir, exigir sentir mais. O livre arbítrio conduz-nos onde podemos ficar, a toda a hora escolhemos ou somos escolhidos somos o actor ou o provocador que toma o seu lugar. Cansa, uma estafa associada a ruidos, bruás e dilemas.
    Ainda gosto de tanta coisa que existe porque, rolei por outras água, me aconcheguei minúscula com outros gãos na areia e porque sou em mim imensa, me espalhei em muitas praias e as vejo e rejubilo.
    Ainda gosto de tanta coisa que existe porque me mexo.
    Cansada sim também, mas pó , só o que lanço para doirar, fazer alguém voar e aquele onde regresso quando for cinza.

  • John Doe

    Factos:

    1-A dinâmica produz desgaste
    2- Não estamos sós
    3- Há incerteza nas dinâmicas de terceiros
    4- Somo influenciados pelas dinâmicas desses terceiros

    O que acontece é que o facto de não controlarmos dinâmicas de terceiros, levando a que muitas vezes não tenhamos controlo sobre as nossas próprias dinâmicas produzem um cansaço superior ao naturalmente alcançado pelo nosso próprio “mexer”. E sim, sinto-me cansado de embarcar em dinâmicas alheias. E sim, apetece-me regressar ao pó de onde vim, esse cinza para onde todos voltamos.

  • Sininho

    Entendo..,
    mas, rebarbativa digo:… assim como também não controlam as nossas- o nosso querer, as nossas cargas largadas em movimento e estateladas no páteo arrumadinho dos outros e os nossos efeitos colaterais, mas isso é lá com eles. O que discutimos aqui é o que os outros nos fazem a nós, certo? Porque o que conta é o que sentimos nós e nos podemos rasgar todos no nosso inconformismo.

    Acho bem, e se pudesse dava-te colo…. e recebia um aninhada de volta.

  • John Doe

    Depende de como cada um de nós enfrenta o mundo. Lá vai o tempo, ou talvez ainda não tenha ido, em que as minhas dinâmicas eram iguais às dinâmicas de terceiros, porque apenas essas interessavam. O que sentia? Pouco importava, como ainda pouco importa. O que ganhava? Uma sensação de felicidade por apoio a um próximo, mesmo que noutras alturas a proximidade levasse a distância.

    E se pudesse recebia colo e com toda a certeza levaria um aninhada. Provavelmente pela ordem inversa…

  • Sininho

    Sabe, Eu mimetizo o outro, não me anulo, , pigmento-me. Tenho por isso um histórico de fazer os outros felizes enquanto ao meu lado beberam dessa taça. Infelizmente não tenho a veleidade de entender este modo como altruísmo, o meu consolidado diz-me que no final a senteça nos esgota no nosso desencontro com o espelho. Instala-se um vazio enorme nesse silêncio onde perdemos a nossa dinâmica- A mesa solítária que separa dois sofás- e a verdade se altera.
    Não subscrevo um “Anthem ” de individualismo, mas hoje está-me mais próxima a noção que entre o que damos, recebemos e que não cobramos, existe uma linha ténue dificílima de gerir. não por causa dos outros , mas por nós mesmos.
    Um dia conto-lhe a história do gatacão, partilho-a de vez em quando:
    Era uma vez um ser pristino de quando o Boiápis era um vitelo….

  • John Doe

    Percebo perfeitamente.

    Aguardo esse dia dessa história.

  • Sininho

    O Gatacão é um ser esquisito….
    …é esquisito porque de facto não existe, mas tentamos recriá-lo todos os dias quando dessa alquimia frustrada, nos rebelamos, não desistimos e de experiência em experiência, na mais cruel história dos mitos fazemos acontecer: Um nado-morto.
    O Gatacão é nada mais nada menos que um gato e um cão, aos quais, pela manipulação dos homens, se tenta subrtair a essência juntando-a num cadinho amalgamádo e incompatível de um só Bicho. Por decantação e filtragem neutralizam- se a carne e peixe, água e serradura, trela e telhados, miar e ladrar, morder e arranhar, lamber e ronronar, apanhar a bolinha e arranhar o sofá..

    Não é uma grande história, nem merece o prémio revelação, mas é uma epitáfio de “Aqui Jaz” Gatacão e de engalanados cantares de Aleluia na verdade do quão complexo é vivermos no desafio de mantermos as duas realidades de um EU e um TU num espaço de respeito que não se quer obrigatoriamente UNO e uníssono.
    Enfim o respeito pela imensa verdade e diferença do outro.
    Espero lá chegar.

  • John Doe

    Bem conhece tal dificuldade.
    A impossibilidade contrariada pela necessidade do grupo se sobrepor ao individual, com os cuidados necessários de não eliminar a essência de cada um.

  • Sininho

    Não foi exactamente isso que quis partilhar, admito que sofro por não ter espírito de síntese.
    Não é a anulação do individuo ao grupo mas do individuo ao seu par. Num relacionamento a dois tentamos recuperar o outro nas semelhanças e a lutar profundamente contra as diferenças..
    Essa gestão tendenciosa do que entendemos “é que está bem” leva-nos a dois caminhos: tentarmos moldar o próximo à nossa imagem ou temporariamente a viver as dinâmicas do outro como se nossas fossem- como referias-
    Superar a esta dinãmica de agente e receptor pelos anos representa um enorme salto qualitativo no que somos por excelência. Entender amar e ser reciprocicado no mais profundo respeito na diferença. como escrevi, não estou lá , mas gostava e estou no bom caminho.

  • John Doe

    Eu percebi isso. Eu falei em grupo, porque duas pessoas formam um grupo. Restrito é certo, mas grupo.

    Dizia um autor que não recordo, que quando estamos com quem amamos nem somos um nem estamos sozinhos. É algo aqui pelo meio. Mas nunca podemos cortar tudo o que somos. Não podemos perder as nossas próprias dinâmicas.
    Mas somos animais de hábitos e quando não bem controlado, uma das personalidades passa a ser confundível com a outra.

  • Sininho

    “cansado de embarcar em dinâmicas alheias. ” é um estádio de transição para o que o pó tem de original em si. Torna então toda esta abordagem muito mais positiva e inequivocamente mais serena- Lucefecit!

  • John Doe

    Depende do sentido que se dá ao pó…

  • Sininho

    Justo. Mas talvez mais longe, depende do quanto sentido queremos de facto dar-lhe…
    eu que sou adversa a dependências gulosas diria talvez um pouco de moderação na forma que o desejamos.
    Estaremos mesmo preparados para, receber tudo o que num momento intensamente desejamos ou aguardar um fim último numa morada de pó que me parece muito terminal? Eis pois o dilema: despedida ou votos de reencontro.

  • John Doe

    O meu sentido e desejo de pó é imediato…

    Nunca quis receber tudo. Efectivamente, a única coisa que quero receber de uma vez é a mesmo a morte…

  • Sininho

    Espero então que o primeiro esteja já a empoeirar -lhe os dedos e a segunda tarde a chegar.

  • John Doe

    Só não chegou ainda por manifesta cobardia.

  • Sininho

    …e folgo que assim seja, porque o desejo mais perto que longe e Adeus é demasiado definitivo.

  • John Doe

    Também eu a desejo mais perto que longe para o definitivo adeus.

  • Sininho

    Acho que fiquei triste.

  • John Doe

    Não fiques. Não vale a pena.

    Haverá algo mais belo que o descanso eterno, longe de todas as fúrias que nos assolam, de todos os pensamentos tristes, de todos os momentos em que tudo parece que está contra nós?

  • Sininho

    Sim fiquei triste. porque sabes bem, sinto, vales a pena.

    Li-te mas não te apoio. Leio-te mas não te contesto. És tu aqui inteiro dizes-me…

    Levada por ti a fundamentar, porque assim o desejas com esta resposta, e me desafias a ir buscar-te, o meu testemunho pretendeu elevar-te a ti e não o teu descanso. Foi um voto de feliz permanência e de desejos inebriados de vida cheia. Que toques no pó fino que a tua vida refinou e que te doirem os dedos como entendo que tens a grandeza de receber e amassar, com lágrimas , saliva, suor e outros fluidos que sejam.
    Que na dualidade entre estas dimensões , possas, SAIBAS e queiras receber em vida tudo o que desejas de paz na morte. Há demasiada procura de cor, de belo e nobre na vida e força telúrica que sentes nas veias e captas nas imagens e que secundarizas e derretes de alma nas tuas orquestras de palavras. O desejo era de ti perto. Reitero-o.

  • John Doe

    Eu tenho que te pedir desculpa por ter distorcido as tuas palavras no sentido do “é mais por aqui que quero que vás…”

    Beijos e bem-haja a ti…

  • Sininho

    Não peças desculpa meu querido John.
    Há vertigens, eu sei.
    Penso, será que procuramos em alguém, ouvir a palavra que um dia perdemos da memória quando o aperto é forte e não temos a magia do momento em que a encontrámos e que nos deu a força de seguir em frente?
    Insitimos, porque queremos nela a renovada redenção ou esperança desse segundo à beira do abismo, como se fosse outra vez o caldo primordial de onde saímos regenerados e ilesos, feitos homens e mulher novos?
    Porque será que em tantos textos que li teus, sinto que levas tão flagrantemente o teu leitor a este momento como se esperasses que alguém mais teu gémeo te dissesse a contra senha?
    Desculpa-me a mim se fui por outro lado.

  • John Doe

    Nada há a desculpar. E muito provavelmente tens razão. Procuro a contra-senha que já esqueci qual é.

  • Sininho

    …e achas que ainda precisas dela?

  • John Doe

    Não sei. Não sei nada. Sei que há dias em que me apetecia dormir para sempre ou acordar do sonho mau…

  • Sininho

    Será que às vezes, para darmos consitência aos rumos, perpetuamos passados e nos consumimos num não virar de página, pelo medo de perder o sentido ao tanto que vivemos um dia?
    Como se quando largássemos amarras, cortássemos o cordão que nos liga a algo que nos habituámos a reconhecer gigante e tivessemos receio de nunca mais sentir assim e então optamos alongá-lo em estertor? Não é bem viver nem amanhãs, nem presentes, é esmoer ontens aos bocadinhos e regogitá-los com náusea.

    Um dia, quando era pequenina ensinaram-me que se visse um fantasma devia enfrentá-lo. Gritar-lhe: Fora daqui, seu mau! desafiá-lo segura a ir porque eu era mais valente. Hoje acho que foi uma boa lição e normalmente ganho. Verdade que me dou espaço para dar tempo à dor, mas não abraço cultivar cantos lúgubres da alma e me deixar pasmar por lá a vê-los germinar durante muito tempo.
    Então cronometro-os e sobrevivo sã e com vontade de me entusiamar e contagiar.

  • John Doe

    É difícil, muitas vezes, largar todo um passado. E ao fim de algum tempo, já tão habituado a ele e às certezas que o acompanham, fica qual carapaça da nossa alma, fazendo-nos reviver uma e outra vez. Pensamentos que nos invadem quase sem darmos conta, sorrisos e choros que voltam sem saber bem como. Sim, sou da opinião que muitas vezes perpetuamos o passado como lembrança do sentimento que por alguma vez nos assolou. Sim, eu perpetuo o meu passado, na certeza do que me foi afirmado então.

    Gostaria de libertar amarras e partir qual navio em descoberta pelos mares desconhecidos. Mas as amarras são tantas, e todos os dias novas, que sou apenas um navio em doca seca. Navio que considero sem arranjo que espera pacientemente que abatam. Principalmente porque a maioria deste navio são apenas destroços do forte navio que já foi.

  • Sininho

    John, o que me sobressai é a urgência, é vontade de mais. Parte! Já é hora! numa imagem menos bonita, que a feridas não te afundem em crostas ou cascos velhos. Ergue-te nobre, recupera a dignidade desse vaso que reclama que não o abandones, levanta a testa, inspira, olha a direito e faz-te ao mar…
    Captain, my captain ,sir I am ready for your command!

  • John Doe

    Ai fosse assim tão simples partir…

  • Sininho

    nunca é quando se insiste em ficar…

  • John Doe

    Ou quando há amarras tão fortes que não nos permitem navegar…

  • Sininho

    Perdoa-me.
    Respeito-te profundamente nos imperativos maiores qua tua vontade. Gostava de te desejar que lhes pudesses dar a face e e te desafiares a encontrar voz e força para com eles conviveres num espaço em que encontrasses felicidade e desses a face para um mundo coexistente e belo.

  • John Doe

    Um dia, talvez, quem sabe…

    E como já tantas vezes te disse, nada há a perdoar…

    (Quando tiras outra manhã?)

  • Sininho

    Saberás tu .

    (As manhãs são difíceis por aqui.)

  • John Doe

    Talvez. Não consigo dar certeza maior que um talvez…

    (Permite-me por isso, um sorriso triste…)

  • Sininho

    Já é qualquer coisa…

    (mas é sorriso e isso é bom!)

  • John Doe

    Achas que a incerteza já é qualquer coisa? Eu sempre preferi as certezas, sejam elas quais forem.

  • Sininho

    Acho que é muito mesmo. se calhar o que nos prova e coloca onde devemos estar e o olhar o mundo, sem grandes veleidades de já sabermos tudo. Porque num dado momento ela chega , sem ser convidada , entra pelo hall e parte estraga o decor. Não gostamos dela mas ajuda a remodelar a casa.
    Foi por ser tão dicotómica e cheia de certezas, que perdi a arrogância de pensar que tinha de saber e controlar o meu ecosistema , fauna e flora. Não te digo que goste, mas rendo-me a observar que foi na incerteza que a vida me trouxe mais saltos qualitativos, diria.

  • John Doe

    Um espírito analista e matemático como o meu, gosta mais da certeza. Criei muitos “e ses..” por esses trinta e poucos anos e cheguei a uma altura de dizer basta!!! Não quero incertezas. Ao primeiro vislumbre de uma incerteza busco incansavelmente o porto seguro, a terra firme de forma a que não balance.

    Prevejo eu a tua cara de assombro, talvez com a palavra louco perpassando a tua mente, talvez imaginando o que com isso perco. Dou-te a face dessa moeda. Dou-te o que ganho. Ganho paz de espírito, ganho a ausências de fantasmagóricos “ses”, monstros de mil cabeças de dentes salientes e salivados, prontos a comerem o que restar do que a mim próprio comi. Ganho a ausência de lágrimas que tombam nos sonhos do que poderia ter tido e sido. Ganho a felicidade, que apesar de pouco completa, não é canibalizada pela infelicidade de não ter ou ser.

  • Sininho

    Não me assombras, conheço esses meandros muito bem. A tentação de voltar à toca quando o tempo ruge lá fora é sempre furiosa. É atávico.
    Mas é talvez por isso por te sentes em doca seca e no marasmo da espera. Porque soubeste o que é gigante e belo sentir a bolha da vida a aumentar no peito.
    São opções de retorno no investimento- valida-se a escolha pelo que se acha mais vital preservar. É o teu saber viver e do alto dessa confiança, te sentes ser mais feliz.

    Num a parte, Não sei é se ganhaste a ausência dos maus, regressas a eles vívida e ferozmente a todo o instante, talvez se lambesses as feridas, saísses da toca e os enfrentasses, diluísses esse medo..mas isso sou eu a extrapolar…

  • John Doe

    Já lambi tantas vezes as minhas feridas, até por vezes ficar sem língua. Ao longo dos últimos tempos fui fechando ses que andavam cá dentro. Fui acabando com eles de forma pouco misericordiosa. E faço o tudo que for possível para que não apareçam mais. Quanto aos medos, sempre vivi com eles e, nalgumas partes da minha vida, apenas com eles. Não são bichos maus. São mais companheiros de viagem.

  • Sininho

    Então faz-te ao largo!

  • John Doe

    Não são medos que me prendem. São amarras fortes…

  • Sininho

    Se são fortes, são tuas. Fica então.

  • John Doe

    É precisamente isso que faço.

    Nem sabes a alegria que me deste ao dizer-me isso. Há gente que pura e simplesmente não percebe essa minha necessidade de ficar…

  • Sininho

    Contra-senhas.

  • John Doe

    Confesso humildemente que essa não percebi…

  • Sininho

    Porque um dia te esqueceste dos porquês. mas ques entes nessa amarra razões, que tu entendeste que se justificam existir. Porque as sentes como mais fortes e importantes que partir. Porque te dão motivos e retorno, porque por excelência renovas os votos de ficar. São imensamente válidas por si. acarinha-as então e fá-las âncoras. Porque há amarras que as são e nos mantêm vivos.

  • John Doe

    Completamente. Há dias que gostava de escrever assim como o fazes…

  • Sininho

    Ora aí está algo que Eu humildemente não pecebi…

  • John Doe

    Um escrita simples e cristalina…

    Sinto que o que escrevo é sofrível. O que escreves é sempre simples e perceptível…

  • Sininho

    Sofrível nunca e sabe-lo melhor, muito melhor.
    a minha, Sempe pensei o contrário. que era densa e hermética.

  • John Doe

    Não é… Gosto de o ler…

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