Lágrimas

E porque não ler com estes sons em fundo? (Abrir numa nova janela)

Em frente o caminho de luz reflectido no imenso manto de água, sente-se a brisa de fim-de-dia que refresca fazendo a pele arrepiar à sua passagem. Paredão quieto e imenso, rocha de força que suporta a fragilidade tua. Os gritos e as correrias em fim, em azáfama de arrumos de fim de dia de verão. Acaba-se o dia que amanhã vem mais, bolas que saltam pela areia que escurece ao ritmo da noite que aparece. Já se vê a lua lá no alto com o seu brilho prata. Se olhares com atenção, lá ao longe começam a notar-se os cintilantes brilhos das estrelas que serão a tua companhia pela noite fora. Tens frio e não ligas nenhuma. Sentes as lágrimas que te querem saltar dos olhos, querem fazer o seu caminho pela curvatura da tua face. Inspiras profundamente, cheiras o ar do mar que te chega, num esforço sobre-humano de travar o inevitável. Estás só e mesmo assim não choras, não queres chorar. De que servem as lágrimas perguntas-te tu no fundo da tua mente. De que servirão? De nada. Continuas na tua conversa tão própria, em que a razão vai ralhando ao coração. Abraças-te, não pelo frio, mas porque queres e precisas de sentir uns braços que te rodeiem as cintura. Precisas desse sentir para que não desfaleças na loucura. É bom mas sabe-te a pouco. Sabes que não deveriam ser os teus braços que querias que te rodeassem. Sabes que os teus braços deveriam rodear outrem que não tu. Lembras-te de pedaços do passado, fazem pressão nessas benditas lágrimas que teimas em que não caiam. Tentas levar os pensamentos a fugir para outras coisas, para as coisas felizes que viveste e também esses pensamentos te forçam na lágrima que não conseguis-te parar. A gota que te brilhou nos olhos e saiu, escorrendo pela pele morena até cair no teu queixo. Sentiste-a a bater nos teus braços que te apertam. Não limpas que o vento cuidará de o fazer. Contrais-te toda para que mais nenhuma saia. Não podem sair, não podes desabar o mundo assim. Sentes isso. Sabes que num só dia uma lágrima de felicidade e duas de tristeza e dor.

O sol que continua a estreitar o caminho de luz no mar, sinal que o fim está próximo, final de mais um dia que sobreviveste. As estrelas brilham mais agora que o breu da noite chega como manto cobridor de tudo. Ouve-se apenas o roçar lento do mar na areia da beira-mar.

Chego-me a ti sem que me ouças e enlaço-te nos meus braços por trás de ti. Não me olhas, sabes quem sou. Poisas a cabeça no meu peito e deixas-te ir no abandono soluçante das lágrimas que deixas de conter, num choro compulsivo e arrebatador. Sinto-te no abandono de saberes que ali estou, no momento em que sabes que não desabas porque te seguro.

Eu não te vou deixar cair…

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15 responses to “Lágrimas

  • Miquellina

    Aquela poderia ser eu (não fosse a moça ser morena, sempre a mesma coisa!!!) e sim, quase que me cairam as lágrimas, que teimo em não verter, com teimosia, talvez porque não tenha quem me agarre quando começar a soluçar…

    Beijo

  • Miquellina

    Ah!!! Texto magnifico…aliás como todos os teus textos…em que te despes e nos vestes de emoção profunda….

  • John Doe

    Miquellina:

    Há sempre quem te agarre, mesmo longe, há sempre quem te agarre.
    Deixa fluir todas essas lágrimas…

  • Miquellina

    Hoje seria dia de chorar…mas recuso-me, mesmo sabendo que há quem me agarre!! Teimosias..

  • John Doe

    Mas a teimosia a lado nenhum te leva. Não é mais que a razão a querer mandar no coração. Cala essa razão, manda-a de férias por 5 minutos….

  • Ventania

    Sinto estas palavras tão próximas da pele que chegam a arrepiar…

  • John Doe

    Obrigado Ventania…

  • Iris Barroso

    Andará alguma coisa no ar?! Andamos todos a chorar compulsivamente?

  • John Doe

    É do tempo…

  • morena

    Adorei… senti-me como se estivesses a abraçar-me John Doe…e é tao bom sentir esse abraço…beijinhos*

  • Flowerbomb

    Este teu texto toca a alma…

  • John Doe

    Morena:

    beijinhos

  • John Doe

    Flowerbomb:

    Foi com esse desejo que o escrevi…

  • Sininho

    É olhada, perpetrada de espanto, quando do regaço não caem rosas- Senhor, ( não) são rosas!- enquanto, em embaraço e cobrindo o rosto, o inebria e entoxica de adocicados eflúfios quentes pela verdade que lhe escorre na pele. É então que, sem força e trémula, se rende e escorrega para a lage do chão encostada ao vidro que já goteja de calor.

    Que sublimes aão os seus textos.

  • John Doe

    Obrigado Sininho. Tenho alguma dificuldade em manifestar a minha gratidão, porque é sempre uma altura em que me faltam as palavras. Sai um obrigado muito sincero…

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