Em guerra

Com os dedos sujos de terra e sangue desembrulha o pequeno papel, gasto das vezes que foi aberto e fechado, e olha para a foto uma vez mais. Treme de medo ou de frio ou de medo e frio, enquanto o cacimbo que tudo cobre se entranha pela pele até aos ossos. De ouvido à escuta, sempre alerta, encosta a si o cano da arma como que se ela fosse a sua namorada lá longe. Mas não é, o seu gosto é metálico, não é doce como a boca que beijou em saudade. Sorri enquanto à língua lhe vem à lembrança o toque acetinado dos beijos demorados de seu amor. Ajeita-se à arma sonhando que é o corpo quente e tenro de sua amada. Sobe-lhe a mão pela coronha como se fossem coxas roliças, mexe-lhe no gatilho como se lhe sentisse o sexo, afagalhe-lhe o tubo de fogo como se lhe ajeitasse o pescoço. Deitado na lama preta que lhe parecem lençóis de seda, deixa-se invadir pelas sensações da memória. Sabe-lhe de cor o gosto…

Caem pequena gotas de água na cara e nas folhas à sua volta, em ruído que o faz acordar e olhos abrirem-se de novo à foto que segura entre dedos. Passa-lhe dedo e marca-a a sangue. Sangue que não é o seu mas que bem poderia ser. É de outro, aquele mais um que jaz inerte a pouca mais de dez passos. Limpa com a manga do casaco ensebado, sujando mais que outra coisa. Já mal se nota o sorriso ou os olhos. Esta gasta de tanto ser vista. Dobra-a e guarda-a no bolso junto ao coração. Deita-se de barriga ao frio, de olho em mira sentindo o frio da terra e da água entranharem-se por dentro das vestimentas tão sujas quanto ao chão em que se apoia. Olha para os lados e sente-se só, sem companhia, sem amor, sem chão onde pisar em segurança. Deixa os olhos irem até ao seu companheiro de armas, ali estendido, ainda de olhos abertos ao infinito, o sangue a escorrer-lhe pelo canto da boca, diluído pelo temporal que se abate. A chuva em ribombar estridente nas copas das árvores, nem a passarada se ouve e ele ali, perdido no meio do nada, se mira apontada a nada, e o companheiro que já nada vê. Uma vontade de gritar que lhe sobe pelo corpo e que trava a tempo na boca que não se abre. Limpa os olhos com as costas da mão, desviando a água que cai em bica pela testa e se prende na sobrancelhas turvando a visão.

Escurece e ninguém aparece. Pergunta-se pelo outros que não ouve, que não vê. Não sai do seu posto, mira fitada ao vazio. Mas o cansaço que aparece, inimigo mais mortal que todos os outros. E os olhos pesam cada vez mais, fecham-se lentamente enquanto as mãos largam a sua amante de ferro, deixando o sonho entrar na inocência da felicidade.

Desperta ao som da fala que não conhece. Quanto tempo passou? Quem faz barulho assim? Levanta a cabeça para ver em seu redor e sente primeiro que ouve a bala que lhe atravessa o peito, que se projecta de encontro ao chão como se lá tivesse criado raízes, como se este o puxasse até à profundeza do inferno. O quente que lhe invade o peito do sangue que escorre da ferida aberta. Leva a mão até à foto e aperta-a enquanto sente os últimos suspiros que lhe saem do corpo.

Acorda estremunhado, de suor escorrendo pelas faces, olha ao lado e ela dorme descansadamente ao seu lado. Beija-a na face e deita-se novamente, deixando os dedos percorrem a cicatriz que lhe marca o peito…

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6 responses to “Em guerra

  • Princesa (des)encantada

    E é essa cicatriz que faz a presença dela ali ao lado tão preciosa. Dela ali fisicamente, e não na miragem de uma fotografia guardada junto ao coração. A cicatriz da sobrevivência tem valor e dá valor às coisas que podemos viver depois de sobreviver, ou pelas quais lutamos, quase morremos e depois… cicatrizamos. Mesmo que restem os pesadelos.
    Tantas metáforas vejo neste fantástico texto…

  • São

    Tens um talento especial para descrever cenários, e conseguires que nos situemos neles mesmo num cenário de guerra.
    Desde o inicio do texto pensei que o personagem estaria a sonhar, apesar de o final não me surpreender, gostei deste final em que ele acorda, beija-a na face, não a quer acordar só que ela inconscientemente de uma forma inexplicável, ainda que a dormir devia tê-lo abraçado.

  • John Doe

    Princesa:

    Há algumas metáforas sim senhor…

  • John Doe

    São:

    Talvez um abraço. Talvez ele não precise dele para se sentir acompanhado…

  • São

    Sim, o mais provável é que ele não precise de um abraço para se sentir acompanhado basta a presença dela e às vezes nem sequer é necessária a presença física da outra pessoa para nos sentirmos acompanhados basta saber que o coração dela bate em sintonia com o nosso.

  • John Doe

    São:

    É isso mesmo. A dificuldade está em conseguir o coração a bater em sintonia.

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