Ela…

O tempo cinza adivinhava chuva que por ora não caía. As nuvens na linha do horizonte, deixando apenas passar alguns raios de luz, traziam uma escuridão como fosse prolongamento da noite. O carro avançava como que em piloto automático, em velocidade constante, na sonolência do mesmo caminho de todos os dias. Regresso depois de um dia fastidioso, em que o marasmo imperava e o expoente do excitante não era mais que o último “tac” do relógio na hora de saída. Um cansaço extremo, uma letargia quase ofensiva apoderava-se de cada partícula de si, deixando os olhos desviarem-se da estrada e percorrer o mar lá ao fundo, hoje de cor cinza como o céu.

Por fim a chegada e o hábito costumeiro de procurar o estacionamento no inferno que era viver na cidade. O cumprimento em sorriso forçado às mesmas pessoas de todos os dias, o movimento usual do solavanco à porta, que acompanha o barulho cada vez mais ensurdecedor das trancas que cedem à força da chave, o som dos seus saltos em eco pelas entranhas do prédio. O “plim” do elevador quando lhe chega e o ronronar dos cabos na subida. Sons familiares que já nada lhe diziam mas que hoje, particularmente, lhe entravam na cabeça prestes a explodir. A chave à porta, quatro voltas e o cheiro familiar do seu mundo.

Atirou os sapatos contra a parede e não se preocupou em os arrumar. Fica para depois que o corpo pede mimo. Caminha descalça pelo chão de madeira finamente envernizada, quase espelho. Os dedos longos e bem tratados iniciam o desabotoar da blusa branca decotada até não haver mais que desabotoar e deixa a blusa escorrer pelos braços até se estatelar no chão sem barulho. Corre o fecho e desaperta o botão da saia, que deixa cair pelo caminho, enquanto anda até ao destino. Abre a porta do armário vermelho cerejeira maciço, e tira um copo de pé, alto, bojudo. Olha para a sua garrafeira e vê o rótulo que lhe interessa. “Batuta 1999”.

O som da rolha que esganiçadamente sai à força e o aroma inconfundível que enche as narinas. Com carinho vai colocando o líquido rubi no copo, sorrindo na ânsia do momento de o sentir invadir o seu interior. Pega no copo e dirige-se ao envidraçado imponente que lhe faz parede ao exterior. Com a ponta dos dedos molhados no néctar, acaricia os lábios sentindo o ardor natural da bebida, deixando-os depois descair pelo vale dos seus seios, como se espalhasse o seu perfume pela manhã. Encosta-se ao pilar como se procurasse apoio para a sua própria vida e dá o primeiro gole tão esperado, deixando na borda do copo a marca dos seus lábios rosa de bâton. Fecha os olhos sentindo o calor invadir-lhe todo o corpo, deixando que os sabores lhe invadam a boca e o aromas o cérebro.

Vê-se em reflexo, o corpo esguio, bem tratado, o contraste da lingerie negra com a pele branca. Olha-se enquanto deixa a mão poisar na sua barriga depois da descida lenta desde o seu queixo. Sente-se excitada, talvez pelo vinho, sentindo cada nervo do seu baixo ventre em corridas electrizantes, que lhe invadem todo o corpo, chegando ao sorriso quase traquinas que lhe invade a face enquanto morde o lábio inferior.

Deixa os olhos prescrutarem a imensidão do que se afigura, vendo o rio que recebe a noite reflectindo as luzes à margem, como fantasmas da noite. Um navio que passa, pacato, abrindo caminho e remexendo os reflexos. O prédio ligeiramente à esquerda sem sinais de vida, excepto uma luz acesa num apartamento. Firmando o olhar vê-o na varanda, fumando um cigarro, de olhos postos em si.

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12 responses to “Ela…

  • Iris Barroso

    Como adoro chegar a casa e despojar-me dos restos do dia que me agrilhoa e beber um saboroso e recuperador, copo de vinho tinto.
    Desta vez, revi-me no teu texto.

    Um beijo,

  • Princesa (des)encantada

    E continua quando?… Não quero perder o próximo capítulo e perceber em que varanda está ele, pois a mim parece-me muito próximo para ser na varanda de outro prédio. Sejas bem regressado e com um texto fantástico.

  • John Doe

    Iris:

    Alguma vez tinha que acertar… 😀

    Um beijo e obrigado

  • John Doe

    Princesa:

    Brevemente a parte II.

    Obrigado

  • Sininho

    Imagino que um calafrio lhe chegou às pontas dos dedos, um calor no estômago lhe apertou o peito e uma vertigem a deixou imóvel prostrada enquanto, não pelo vinho, se sentia inebriada pelo olhar que descobrira ser seu.

  • John Doe

    Imóvel, mas sorridente na imaginação que voa… Os olhos brilhantes, expectantes, ávidos do saber melhor…

  • Sininho

    Desfoca o olhar para o espelho para se ver e adornar na pose, achou-se linda , sentiu-se apimentada por uma doce tentação de ser mostrada e adorada à distância …

  • John Doe

    Trinca ainda o lábio enquanto deixa a ponta dos dedos seguirem a linha do seu corpo. O corpo que se agita na excitação do momento e cola-se ao vidro, admirando-o enquanto se cola ao vidro sentindo o frio que lhe passa à pele e a arrepia ainda mais. Limpa a condensação que se forma do seu arfar em forma de adeus e recebe igual gesto do outro lado da rua…

  • Sininho

    E quando se afasta, num suavíssimo curioso e estudado olhar pelo ombro, olha para trás, Ele ainda a puxa num calor de “fica”?

  • John Doe

    Com um sorriso e um ligeiro tombar da cabeça em jeito de suplica…

  • Sininho

    Ai!!!!… não se acredita… Quem resiste?

  • John Doe

    Pergunto eu o mesmo…

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