Ele…

Passo lento, quase nostálgico, parando em frente dos placares confirmando a hora do voo, como se fosse possível cada placar mostar uma hora diferente. Como colmeia, pessoas zumbindo à sua passagem, arrastando malas, pequenas, grandes, médias, concentradas nos telemóveis, no livro ou no jornal, pessoas sentadas olhando ecrãs, ouvindo música, vendo quem passa. Sentia-se perdido no meio de tanta e tanta gente que corriam mais que andavam. Ele, no seu passo descansado, caminhava até ao terminal de partida ouvindo nos altifalantes as chamadas para embarque por cada uma das portas que passava. Finalmente a sua e umas cadeiras vagas para esperar. Olhou o seu relógio, praguejando pelo atraso de 20 minutos. Tinha pressa de chegar, tinha saudades do seu canto, do seu tão próprio mundo. Finalmente chamam ao embarque e uma fila interminável de pessoas chega-se ao balcão enquanto ele, apesar da pressa de sair dali, se manteve quieto no seu banco. Detestava aquelas confusões. Quando o último da fila embarcou, levantou-se ele e dirigiu-se de papéis na mão ao balcão. A hospedeira, de sorriso agradável verificou os documentos, entregou-lhos e desejou-lhe boa viagem.

O avião era igual a tantos outros, tendo a sorte do lugar à janela. Enquanto o avião rolava pela pista até ao ponto de partida e as hospedeiras renovavam os conselhos de segurança, ele perdia o olhar pelo horizonte, já farto de ouvir a mesma lenga-lenga sem fim. Sentiu o impulso das turbinas em força e o avião a inciar os procedimentos de descolagem. Sentiu o estômago cair num buraco quando as rodas finalmente levantaram do chão e o avião iniciou a subida. Os olhos pesaram e entrou num sono profundo.

Acordou quando a hospedeira lhe tocou avisando que estavam a iniciar a descida para Lisboa. Estremunhado olhou para fora e viu mar apenas. Sentia-se a descer, mais uma vez o estômago dava sinais disso mesmo. Ou talvez fosse de fome, já que não comia há mais de quatro horas, sendo que a última refeição não tinha sido mais que um pequeno lanche fingindo que era almoço. Sentiu a curva do avião e começou a ver terra, o Cristo-Rei ali tão perto que quase lhe poderia tocar, a ponte com a azáfama do trânsito, a Praça de Espanha, a Segunda Circular tão perto que parecia que era ali que ia aterrar e finalmente o chiar dos pneus no asfalto da pista de aterragem. O céu estava cinzento, notoriamente frio, mas ali dentro sufocava-se. Aligeirou o nó da gravata e desapertou o primeiro botão. Sentia-se constrangido naquele ínfimo pedaço de mundo. Esperou mais uma vez que toda a gente saísse e saiu ele. Como trazia apenas a bagagem de mão dispensou a ida até aos tapetes de bagagem e dirigiu-se ao parque de estacionamento. “Finalmente ar” pensa.

A viagem relativamente rápida, fugindo ao trânsito bem conhecido, levou-o à garagem do seu prédio. Se estava fresco na rua, ali o ambiente era carregadamente húmido, de cheiro bolorento e pesado. Subio pelo elevador até à porta do seu apartamento e entrou, tendo de imediato a recepção calorosa do gato, visivelmente saudoso dos afagos ternurentos do seu dono. Depois de duas festas no animal, poisou a mala de viagem e correu mais ainda o nó da gravata, acabando por abrir mais dois botões da camisa. Acendeu a luz e caminhou até à varanda que se abria ao Tejo sempre com o gato por entre as pernas e, saindo, sentiu a brisa fresca que lhe chegava. A noite caía e era esse o preciso momento em que gostava de ficar de olhar perdido pelo horizonte. Tirou um cigarro do maço quase vazio, que o fez dar um trejeito de quase dor ao perceber que ainda teria que sair novamente para ir abastecer-se. Com ele nos lábios e a mão fazendo concha, rodou a roda do isqueiro até que a pedra soltou faísca e a torcida embebida se incendiou. Aspirou o fumo vendo a ponta do cigarro incandescer num vermelho quase inferno e guardou o isqueiro no bolso fazendo-o tilintar com as chaves que lá se encontravam. Inclinou-se para a frente segurando-se à grade de aluminio com ambas as mão e expirou o fumo que ainda concentrava nos pulmões cheios. Os olhos percorriam o firmamento, vendo as estrelas notarem-se na sua luz qual cidade longinqua que inicia a sua vida noturna, descendo até ao rio onde passava um navio pesado. Quando guiava o cigarro aceso à boca para de novo o sorver, o olhar descaiu naquela janela a meia luz, onde um corpo feminino, em trajes reduzidos sorvia por um copo. Notava-se o olhar distante e compenetrado naquele corpo de mulher esguio, deixando-se observá-la ao longe. Um arrepio percorreu-lhe a espinha quando percebeu que ela também o olhava.

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