Eles…

Há uma semana que o pensamento era imensas vezes ocupado pela figura magnetizante do homem presente do outro lado da rua. Via-o de relance todos os dias, em voyerismo alucinante, sem saber quem era ou o que fazia.Sentia a necessidade inexplicável de saber como era a sua voz, o seu aroma, de saber quem era e porque o era. O magnetismo que aquela figura lhe pregava roçava o imbecil, levando-a ao esforço herculeo de afastar as ideias daquele fascínio.

Era uma manhã como tantas outras, o mesmo iogurte de frutos silvestres, a mesma torrada com a mesma proporção de manteiga. O gesto mecânico de calçar os sapatos, os mesmos sons de chave, porta, chave, elevador, porta, sempre o mesmo passo acelerado para chegar à rua, ao carro. O olhar nervoso ao relógio para verificar que mais uma vez estava atrasada. Abre o carro e lança a carteira ao lugar ao lado, sentando-se quase com violência ao volante ao mesmo tempo que a chave na ignição e o carro dá o arranque.

Imóvel, olha para a sua frente como que petrificada. Preso no vidro um papel com letras negras escritas. “Olá!”. Depois de cinco minutos especada a olhar para aquela folha de papel, retirou-a e colocou-a no banco do lado.

O caminho para o emprego foi feito com a cabeça em rodopios, e o dia não foi melhor. Dobrou e desdobrou o papel até quase o rasgar, desejando o fim do dia, a sua janela a varanda dele. A volúpia que se foi apoderando do seu ser conforme as horas foram passando, desejos quase inconfessáveis que ele lá estivesse, naquele momento de ambos.

O fim da tarde chegou e a ânsia de chegar transformou a distância num suplício difícil de suportar. Os movimentos tão habituais foram feitos sem se dar por isso, voa pelo caminho, o elevador parece pesado e não anda. Chega, corre à janela, olha a varanda dele. O coração quase que salta pela boca quando o vê, na calma de fumar o seu cigarro. Sente a onda que se apodera do corpo, que a faz encostar ao vidro, de mãos espalmadas, vendo-lhe o sorriso travesso que lhe pinta a face, enquanto puxa mais um travo ao cigarro quase no fim.

Ele olha-a, ao longe, descobre-lhe a figura a custo pelo reflexo do fim do dia, vê-a quase espalmada, como que se quisesse voar até ele. Sorri-lhe e vê que lhe corresponde, num sorriso luminoso e nervoso. Fuma pacientemente o cigarro que chega ao fim, enquanto o gato reclama que está na sua hora de comer. Senta-se no chão, com o gato subindo ao seu colo, encosta-se na parede de olhar fixo, vendo-a. Recolhe-se de seguida com ela ainda encostada à janela.

O resto da tarde e o princípio da noite foram passados em sobressalto, com idas e vindas ao vidro que lhe dá ao mundo. Espera vê-lo mais uma vez, precisa de o sentir ali, mesmo que não saiba o porquê dessa necessidade.

(Continua)

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