Eles…

(continuação)

Depois da tempestade, a calma voltava ao seu reduto. Sentada no chão de encontro à parede, sentia a luz banhar-lhe os pés descalços trazendo calor ameno à sua pele esfriada pelas lajes que se estendiam pelo chão. Não voltara a olhar para o outro lado da rua desde que o vira atravessar aquela rua, mas o seu gosto continuava na sua boca, experimentando ainda a sensação da desenvoltura da sua língua rodeando a sua própria, o gosto da sua boca, o cheiro do seu aroma, misto tão própria das essências do seu corpo, perfume e tabaco. A recordação daqueles breves segundos faziam a sua alma levitar de uma forma que nunca tinha experimentado.

Levantou-se sentindo cada pedaço de si queixar-se do tempo que esteve imóvel e olhou pela janela uma vez mais. Ele estava ali, tão longe e tão perto, fumando o seu cigarro, sentado no chão como ela estava há poucos segundos atrás. Olhava-a e sentiu-se trespassada novamente. Perguntava-se incessantemente a razão de tão desvairado fascínio por aquele desconhecido, do qual nada sabia que não fosse o seu gosto ou o seu cheiro. Lembrava-se agora que nem a sua voz conhecia muito menos o seu nome. Olhou-o demoradamente e voltou-lhe costas. Num acto, que vulgarmente apelidaria de loucura, calçou os sapatos que descansavam junto do sofá e saiu. Afastou todos os pensamentos que poderiam fazer-lhe perder a coragem e desceu até à rua. Apercebeu-se de quanto estava mais abafado cá fora. Fruto do calor ou da sua insegurança? Atravessou a estrada e parou na frente do prédio, de dedo apontado à campainha sem a carregar. Na mente, a palavra loucura debatia-se com a vontade de conhecer mais. À resolução de carregar naquele botão a porta destrancou e a estática tomou conta do intercomunicador até perceber que tinha sido novamente desligado. Lentamente, como se temesse que dentro daquele prédio estivesse o pior monstro que existisse, entrou pelo átrio arejado e claro do edifício. Caminhou em passo pouco decidido até ao elevador e subiu. O coração batia na garganta mais que no peito, numa subida angustiante. Quase se arrependeu quando parou, mas sentindo que nem as suas próprias pernas comandava, encaminhou-se para a porta que se encontrava apenas encostada. Bateu na madeira de um forma tão leve que nem ela própria conseguiu ouvir. Quando ia bater novamente, de forma mais decidida, a porta escancarou-se por completo.

– Esperava-te – disse-lhe ele.

A voz grave e profunda, que parecia vinda do confins do mundo tiveram o condão de acalmar o seu espírito enervado de expectativa. A casa tinha o odor que já conhecia que se desprendia das paredes de forma suave. Casa despida, de poucos móveis e muito espaço. Entrou com passo curto, expectante, com um tremor a subir-lhe pelas costas quando ouviu a porta bater atrás de si. Voltou-se, mais com o intuito de fugir que propriamente o enfrentar, indo quase de encontro ao seu peito. Sentiu os braços dele à sua volta e deixou a cabeça poisar no peito, ouvindo o coração dele bater de forma acelerada. Sorriu ao pensar que afinal não era só o dela que estava assim.

– Eu sou… – e ele não a deixou terminar a frase colando os seus lábios aos dela. Novamente aquele gosto tão difícil de definir tomou conta dela. Pegou-a em braços com ela a rodear-lhe o pescoço segurando-se e levou-a até à sua sala, tão despida quando a entrada. Deitou-a no chão, num tapete de imaculado branco, fofo e fresco e deitou-se ele a seu lado.

– Ainda não – disse-lhe ele, beijando-a em profundidade novamente. Sentiu as mãos percorrerem-lhe a roupa de forma leve e sensual até lhe chegar ao pescoço que puxou para si, levando os lábios a percorrem cada pedaço da face. As mão sábias que desenlaçam as roupas que não a deixam respirar, que deslizam pelos seus íntimos, acariciando a cada novo destapar. Sente que ele a admira, a absorve em cada gesto, em cada suspiro mais profundo que lhe é arrancada da garganta à força da doçura. Sente que ele desbrava caminhos nunca antes assim explorados. Sente-se saboreada em cada segundo alucinante que ele lhe faz atravessar. A sua boca, que a percorre tão tranquila qual rio que desagua no mar. Despida aos seus olhos, com os pêlos daquele tapete fazendo-lhe pequenas cócegas quais nuvens em que o seu espírito se sentia, viu-o a ele despojar-se da roupa que o cobriam, avançar para ela e ajoelhar-se na sua frente.

As coxas fortemente morenas que apoiaram as suas enquanto as mãos lhe levantavam os quadris, puxando-a docemente a si, perscrutando o seu íntimo de forma apaixonadamente doce, em movimentos lentos, cheios de ternura, deixando a volúpia electrizar cada pedaço do seu corpo. A boca que a percorre naquele momento de união quase perfeita, que rodopiam em êxtase levando-a ao comando da situação quase extrema, no controlar do frenesim que mal se segura. Sempre lento, compassado, mesmo quando o corpo pede outra cadência, o ar cheio de suspiros sensuais, do cheiro dos sexos que se complementam até ao venéreo momento da manifestação violenta e ruidosa.

Cai-lhe sobre o peito, de dedos enterrados nos pêlos negros que lhe povoam o peito, de olhos fechados, no absorver de todas as sensações. Encara-o, de queixo apoiado nas mãos e vê-lhe os olhos lacrimejantes, transbordando paixão e desejo. Os lábios dele poisam-lhe na fronte suada, em beijo terno.

– Olá – disse-lhe ela.

– Olá – disse-lhe ele.

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