Ele…

Quando a sua porta se fechou atrás dela, deixou-se escorregar pela parede até sentir o frio do chão. Agarrou-se aos joelhos e de cabeça entre eles, procurava as palavras certas para descrever todo um vendaval de emoções que lhe afloraram nos últimos momentos. O gosto e o toque dela perpetuavam-se numa dimensão diferente do que já alguma vez tinha sentido. Descobrira-a bela, terna, delicadamente suave, de aromas inebriantes e doces. Desenhava no ar a sua figura em dedos sentindo ainda o contacto, deixava que o paladar que lhe invadisse novamente a boca fechando os olhos e vendo as imagens cadenciadas que em flash lhe invadiam a mente.

Despido ainda, deita-se no chão, enrola-se em si qual feto em ventre fecundado, sente os pulsos nos ossos da sua cara e ainda o cheiro que lhe está impregnado na pele. Sente o frio do chão sem o sentir, sabe que precisa de se levantar e não consegue, o corpo está pesado, inerte, subjugado ao imenso que ela consegue ser.

A custo levanta-se e segue até à janela, olhando o outro lado da rua. Depois de tão preenchido sente o vazio imenso do imediato, esse vazio que o pesa, o deixa sem fôlego, quase abandonado numa saudade imensa que sente. Dor lancinante no peito resultante da ausência corporal e uma presença espiritual acicatada pela fragrância que ainda corre pelo ar, que está colada a si mesmo como lapa em pedra. Instintivamente cheira-se, as suas mãos, os seus braços, agoniza no sentir-se arrancado a algo maior. Fuma o cigarro lento, tentando abstrair-se de todos os outros aromas, mas ainda o toque, sempre o toque, como pele ainda na ponta dos dedos, recordações dos roçares de lábios pelo outro que é também ele.

Um brilho estranho passa-lhe pelos olhos, de recordações, de vontades, de mais querer. Em corrida banha-se e veste-se. Corre como sedento para oásis, para que a miragem não fuja, para ter a certeza que há realidade em tudo aquilo. Corre pela casa, apanha o que pode, abre o armário, olha a caixa, pega-lhe com carinho e sai.

Atravessa a rua correndo ainda, como se não houvesse amanhã e carrega na campainha. Do outro lado a voz familiar que lhe diz “sim”.

-Volta – diz-lhe.

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