Eles…

Aquele convite foi inesperado.

Tinha chegado a casa, despido cada peça de roupa levando-a ao nariz, cheirando cada uma ainda impregnada pelo perfume dele, deixando que os apeteceres avassaladores lhe tomassem conta de cada pedaço da sua mente. “Estranho…” pensava, “Estranho como me faz querer mais“. Deixou as roupas espalhadas em cima da cama e colocou a água a correr. O sentir de mil agulhas na sua pele rapidamente se transformou na lembrança dos dedos que a percorreram descobrindo cada pedaço de si, na lembrança da envolvência que sentia quase como que sobrenatural.

Pingando o chão, caminhara até ao seu quarto e deixando-se cair na cama macia com a pele secar à velocidade do ar, sentindo os últimos raios do dia aquecerem-lhe o corpo outrora beijado e acariciado, descoberto e aninhado. Sorria de olhos fechados, visionando o filme recente de tudo o quanto se passara. Deitou-se de lado, apertou os joelhos entre os braços e deixou-se estar mais um pouco. O cabelo molhado colava-se ao corpo, deixando pequenas gotas escorrerem pelas costas despidas, causando um arrepio familiar. Sentira-se na calmaria de ter sido apreciada de forma completa, de ter sido amada por um estranho. Seria possível ser amada assim? Seria isso amor? Seria apenas um gosto furtivo de um prazer carnal, que era imenso sem qualquer dúvida?

Estava embrenhada nestas estranhas formas do pensar quando foi acordada pela campainha. Aquele “volta” dito assim, a seco soube-lhe como mel quando chega à boca, naquela sensação doce e grossa, quase que se trinca, faz salivar e arrepiar os cabelos da nuca.

Corria agora a vestir-se de qualquer forma, calçava-se em andamento, não se preocupando se as calças brancas combinavam com os sapatos vermelhos e a blusa negra. Só quando chegou ao elevador e se olhou ao espelho é que reparou que nem o cabelo tinha acabado de secar e ainda se colava à testa. Não. Não podia surgir-lhe assim. Encostou-se o mais que pode à lateral do elevador e quando ele chegou ao rés-do-chão deixou as portas abrirem e fecharem-se novamente e voltou ao apartamento. Numa corrida secou o cabelo, trocou de roupa por uns simples jeans, uma camisa branca e as botas castanhas calçadas em andamento, novamente. Desceu e gostou mais do que viu ao espelho.

Quando ela chegou junto dele, a porta do carro já se encontrava aberta. Ele, junto do carro, esperava-a convidando-a a entrar com um aceno de mão. A cara dela estranhou levando-a a estacar no meio do passeio.

– Entra. Não tenhas medo.

Os olhos deles transmitiam um misto de timidez do pedido e solidez de voz, levando-a a confiar. Sentou-se e veio-lhe o perfume já conhecido às narinas, levando-a a recostar-se no banco.

-Onde vamos? perguntou-lhe quando entrou

– Fugir por dois dias.

– Estás a brincar? pergunta-lhe ela

-Não. – disse-lhe ele olhando-a no profundo dos seus olhos.

Arrancou e conduzio pelos labirintos citadinos.

-Dizes-me onde?

-Posso tentar supreender-te?

-Podes. -Diz-lhe ela.

Rapidamente chega à autoestrada em direcção a norte. Ela, recostada no banco, puxa as pernas para cima e fica-se a olhar para ele enquanto conduz. Vê-lhe os olhos por detrás os óculos escuros, os braços fortes que agarram o volante, como morde o dedo distraidamente de cotovelo poisado na porta. Sente-lhe a mão que lhe afaga o joelho, o sorriso que lhe lança enquanto conduz. Não há palavras que os olhos não digam. Não há necessidade de verbalizar mais.

-Mas… -lembra-se ela.

-Mas?

-Eu não trouxe mais roupa que esta…

Ele dá uma gargalhada sonora e responde-lhe.

-Não te preocupes com isso.

Aquela voz a dizer aquela palavras tiveram o condão estranho de a tranquilizar. Normalmente teria ficado possessa, mas ali não. Com ele não. Sentia que ele comandava e que sabia perfeitamente como o fazer.

A viagem foi relativamente rápida. Tinham saído da autoestrada, passado por uma pequena povação e chegavam a uma casa, que não era mais que uma cabana, perdida no meio da serra com um pequeno riacho passando perto. Não se via, mas o som era distinto. A noite já tinha caído.

– Vai. Conhece a casa enquanto vou buscar umas coisas ao carro.

O som de entrar em casa, com os tacões das botas batendo no soalho de madeira ecoavam pela casa fora, despida como a casa dele, pequena, apenas com umas quatro divisões. Voltou à sala quando ele estava a entrar novamente. Numa mão uma mala de roupa que puxava como troley e na outra uma caixa castanha, como se fosse de arquivo. Deixou a mala junto ao sofá antigo de pele castanha e poisou sobre a mesa de centro em frente deste a caixa castanha.

-Vem. Senta-te. – disse-lhe.

Ela chegou-se junto da mesa e sentou-se no chão, de pernas traçadas debaixo de si, com os cotovelos os joelhos e o queixo poisado nos dedos entrelaçados. Olhou-o nos olhos e compreendeu um brilho maior, de uma mistura de calor, dor, paixão, amor e tantas outras coisas que não conseguia explicar.

Ele poisou a mão sobre a caixa e começou.

-Sabes, tudo isto é repentino, sabe-lo tão bem quanto eu. Normalmente não sou assim, não acontece isto tudo tão repentino. E percebo que te assustes. Aliás, nem sei bem como aceitaste em vir para aqui. Mas vieste e agradeço-te por isso.

A boca dela abriu-se para falar mas ele, quase de um salto, chegou-se a ela, beijou-a nos lábios e disse:

-Não fales ainda.

Sentou-se na beira dela e continuou.

– Acho que mereces saber que sou. Acho que mereces descobrir-me. E mereces, não só pelo que já aconteceu, mas também por tudo aquilo que ainda virá a acontecer. O que é não sei, mas sinto que mais e melhor virá. Sinto eu necessidade de te conhecer mais, de te viver mais. É estranho sentir isso. Poucas vezes senti essa urgência de sentir e de ter alguém. Mas sinto por ti desde que te comecei a ver àquela janela.

Puxou a caixa para junto deles e continuou.

– O que aqui está dentro são pedaços de mim. É a minha vida em determinados momentos. E trouxe-te aqui para o partilhar contigo.

Ela olhou-o surpreso sem conseguir articular palavra.

-Aceitas que partilhe contigo?

– Aceito- diz-lhe ela.

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4 responses to “Eles…

  • São

    Quando no outro texto referis-te a caixa, eu imaginei que essa caixa teria textos escritos manualmente, vivências e sonhos dele, mas pensei que iriam ser lidos no apartamento dela, assim é muito mais interessante uns dias isolados no campo só os dois, espero que compartilhes alguns desses textos.

  • Ventania

    Belíssima continuação. Começo a salivar por mais. Ou será por uma dessas surpresas, talvez…

  • John Doe

    Talvez… eheheheh (não posso tirar todo o suspense São… ehehehehe)

  • John Doe

    Será Ventania? Ora conta lá pelo que salivas… 🙂

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