Chuvas de fim de tarde

Os passos chapinham na água que corria livremente pelos passeios a caminhos do bueiros escuros e frios que ladeavam a fronteira da estrada. Pedras brancas e negras gastas pelas solas do tempo, batidas pelos martelos dos homens no tempos imemoriais, homens que já não se lembram, homens que talvez até já nem respirem e comunguem o ar aromatizado de uma terra molhada. Salpicos que se entranham pelos sapatos que caminham no vagar de chegar ao vazio, ensopam as calças iguais a todas as outras que lhe compõem o armário. Torna-se difícil o caminhar pelo passeio atulhado de anónimos que se cruzam, ultrapassam, atrapalham.

O céu cinzento que não aparenta dar tréguas no cair de água, que tapa toda a luz de um sol que não brilha. Fim de tarde de um mar revolto, que bate na pedras na fúria de partir. Mas não parte, desgasta, como aquela chuva desgasta as pedras da calçada.

Chega-se à janela já a seco e olha as gotas que escorrem pelo lado de fora, na libertadora sintonia de se juntar a tantas outras e escorrer ao chão e perder-se no rio que leva ao mar, que leva ao oceano. Bebe álcool que lhe queima a garganta e o estômago. Sente-lhe o ardor quando passa pelo seu interior, lhe deixa a língua em calor doloroso.

Saí à varanda, vai para a chuva. Fecha os olhos e levanta a cara ao céu sentindo como mil agulhas que lhe fustigam a cara. Quase que sente o sangue quente a escorrer-lhe pelas faces doridas. Dor do obrigatório sorrir, dor do escondido chorar. E chora, deixando que as suas lágrimas salgadas se juntem às outras que lhe caem, lhe ensopam a roupa lhe diluem a bebida. Lágrimas que deixa correr para o chão, para a rua, para o rio, para o oceano. Não importa para onde vão. Importa que saiam, importa que o libertem de ser quem sempre é. Sente que a roupa se cola ao corpo, torna-o pesado, molhado, só.

Olha o horizonte vendo uma réstia de sol sem forças fugir por entre nuvens carregadas e iluminar um pedaço de mar. Olha o copo já vazio, lambe a água que lhe cai ao lábio, sabor a sal.

Chora ainda.

Poisa o copo no chão.

Abre os braços.

Grita-lhe o nome.

E cai no finito de olhos cerrados.

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