Eles…

Ela chegou-se a ele e sentou-se entre as suas pernas, fazendo do seu peito encosto, poisou as mãos nas pernas, encostou a cabeça à face dele e esperou pelas revelações que ele lhe daria. Quase que jurava que lhe sentia o coração bater nas costas, mas não tinha a certeza se não seria o seu próprio a bater na garganta. Sentia as mãos frias, o corpo em dormência doce de expectativa. Olhava a caixa ainda fechada curiosa pelo seu conteúdo.

Ele puxou a caixa para o meio dela e destapou. De dentro, o cheiro de papeis que o tempo amarelou, um misto do bafio dos tempos e do peso da história que continham. Arrumados sem serem certos, a caixa chegava a meio. Os braços deles, que quase a abraçavam, remexeu nos papéis e retirou uma fotografia.

– Este sou eu – disse-lhe a sorrir.

A fotografia, num preto e branco ainda brilhante mas de canto amarrotado pelas vezes que foi pegada, mostrava-o ainda pequeno. Ela pegou na foto com cuidado e passou-lhe os dedos levemente como que querendo sentir a textura dele marcada como estava a fotografia, poisando-a de seguida na mesa.

As mãos acercam-se da caixa novamente. Retira-lhe um manuscrito.

– Há muitos anos atrás, na juventude que já perdi, escrevi poesia. Este texto é um dos primeiros que escrevi. Guardei todos, mas alguns são especiais. Este é um deles.

As mãos dela tremiam quando lhe pegaram. O papel, fino e de aspecto frágil, de letra deitada e corrida exerceu-lhe um fascínio imenso deixando-a quase sem fôlego. Os olhos começaram a ler o título

Luz

Rompe a alma num tormento
Rompe o dia num momento
Sem fim.
Abre-se o cerco que me rodeia.
Sei que a noite me odeia.
Porque busco nela um raio de luz
É por isso que a lua me seduz.
Noite sem lua
É como dançarina que dança nua
A dança da morte de um dia
Sem norte.
A luz alimenta o meu ser o meu interior
E faz acontecer sentimentos fortes
Como o amor, como o ódio
E faz-me ser
Um vencedor sem pódio
Mereço um lugar ao sol
Porque conquistei a luz
Que ilumina o meu espaço
Sou um ser fraco, que se fez forte
Só para combater
Essa morte, essa sorte
Que me chama para me lançar
Nas chamas da loucura
E da aventura
De viver
Depois de morrer

14/06/1996

Quando chegou ao fim voltou ao príncípio e releu, e voltou a ler novamente. Roda a cabeça, beija-lhe a face e limpa-lhe a lágrima que entretanto rolou pela face dele.

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