Monthly Archives: Agosto 2009

Sussurros

Na pele que se toca, furores mil de quem deseja. Beijos e carícias trocadas como brisas que refrescam a mente de forma ténue e deslumbrante. Toma-se o gosto no suave passajar das falanges pelos destapados rumo ao coberto. Respira-se a paixão que tudo cobre e o mais pequeno gesto descobre-se grandioso. Eleva-se a alma na lembrança do passado, desenhado no presente, desejado no futuro.

Sou eu…

Sou eu aqui…

Sou eu assim contigo…

Ah doce desbravura da selva do meu coração. Tontices mil que me assaltam a alma, me fazem de novo catraio correndo na fazenda agreste de sol raiado nas faces como se não houvesse amanhã. Petiz tonto que não se importa com o charco que atravessa como se fosse planalto empoeirado. Correrias intempestivas, correrias a teus braços.

Mulher, ternura minha, candura do meu olhar.

Sinto-te mesmo quando não estás.

Porque estás sempre.

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A morte de John Doe

O John Doe morreu…

Eu não morri…

Muitas perguntas do porquê da morte do John Doe. Tento explicar.

Para quem lia o John Doe e me conhece pessoalmente, é fácil confundir-me com ele, a ideia que somos uma e única pessoa. Se é verdade que os escritos dele eram os meus, para quem escreve torna-se muitas vezes difícil não olhar para a personagem que cria com um certo olhar de inveja. Porquê? Porque apesar das palavras dele serem minhas, torna-se com o tempo uma personagem viva. E chega um momento em que, de alguma forma, passa a ter uma vida própria que se torna invejável. E, neste momento, quero dizer as coisas que dizia como John Doe com o meu nome, aquele que tem carne e osso, que tem sangue e lágrimas, que tem alma e querer.

Assim, morre a personagem John Doe.

Assim começa a escrever o Francisco.


Morreu John Doe…

O corpo do indigente e desconhecido John Doe foi encontrado numa vala escura perdida numa serrania da zona, não apresentando indicios de outra causa de morte que não seja natural e a autopsia feita pelo talhante no próprio local nada revelou de anormal.

Uma vez que ninguém reclamou o seu corpo, será entregue à faculdade de medicina para estudo, findo os quais será enterrado em caixão de tábuas e vala comum.


Correspondências…

E o desejo flamejante que me assoma, na lembrança acarinhada dos momentos vividos. Volta o apetecer de então aumentado exponencialmente pelo mais desenhado. Traços de cores quentes que se pincelam nas telas já de si coloridas. Suspiro que sai sem travão no delicado trincar da carne seda dos lábios. E se os olhos se fecharem, de novo o laivo doce do perfume e da pele que já se conheceu. As mão no ar penduradas que desenham a figura, sentem sem tocar, brincam sem ter. Suspiro sentido do desprevenido desejo que se levanta.


Chuvas

A névoa de fim de tarde trazia consigo o arrepio normal do Outono que se aproxima a passos largos. Cheira à terra que humedece com o cacimbo que tudo cobre. Ao largo o céu embrutecido pela nuvens negras, não sei se por falta de luz se carregadas das gotas grossas de uma chuva desejada. Não se descobre estrela, mesmo olhando fixamente o tecto do mundo. O pensamento voa enquanto se deixa o corpo amolecer e cair na terra relvada e húmida. Sente-se que todo aquele orvalho se enterra pela carne dentro até aos ossos e faz cerrar dentes como se de fúria se tratasse. Fecha-se os olhos, cansados das tentativas de se firmarem em algum ponto mais luminoso da estratosfera. Mas tudo está tapado pelo manto negro nebuloso. Ao longe, o piar que se imagina saudoso de um milhafre fora de horas. Apelo ecoante pelas serranias barulhentas de árvores que se roçam no embalar poderosos da brisa que lá no alto é vento. O susto e a alegria sucedânea da primeira gota que cai e que acerta na cara, faz abrir braços e receber como dádiva divina aquele desaguar que começa lento. Outras gotas se seguem colando a roupa ao corpo, fazendo-a desenhar a silhueta do corpo que permanece imóvel. Ouve-se o bater no chão mesmo ao lado, no som abafado da terra que bebe sequiosa, seguindo depois ao momento em que já não escoa mais e bate na água que se acumula junto aos ouvidos, sentindo os salpicos. Escorre pelas faces, fecha-se o punho tentando guardar o líquido divino que se junta na palma da mão, sentindo que é impossível, que escorre por entre os dedos perdendo-se junto de outras gotas no chão ensopado. O vento sopra ainda lá longe e o pio já não se ouve, num silêncio quase absoluto. Sente-se nas têmporas o fluir sanguíneo que alimenta todos os pensamentos que vão desfilando pela mente divagante. A felicidade transbordante que flui de todos os poros da pele que ainda se arrepia. Ajeita-te o corpo no chão molhado, fica-se mais um pouco, nasce o sorriso no sabor que entra na boca da água que lhe escorre. Levita e voa no espaço e no tempo da sua imaginação.


Saudades

Por uma ocasião festiva, que leva sempre à junção de um conjunto de familiares, dediquei-me a folher albuns de fotografias antigas, gastas pelo tempo, de cantos dobrados, amaralecidas pelo anos que entretanto lhes passaram. E vi gente que conheci e entretanto desapareceu, gente que fez parte do que sou hoje, gente que me olhou e falou com um carinho imenso e sentido de educação. Particularmente os avós. Já todos desaparecidos, que o tempo não lhes perdoou, sempre presentes nas lembranças. Mas ontem, folheando mais uma vez aquele conjunto de retratos, vendo-me entre os braços daqueles homens que me fizeram, uma saudade imensa bateu tão fundo e de uma forma tão arrepiante que a tristeza me invadiu. Vi-os novamente, senti-os novamente, ouvi-os mais uma vez, fosse nas histórias que contavam , nos concelhos que davam ou simplesmente no seu sorriso. Diferentes entre si, aqueles dois homens completavam-me. Um, de voz suave , sempre com um sorriso, sempre com uma história divertida, daquelas que me fazia sentar no chão e ficar embevecido pela suas palavras. Outro, de voz grave, de respeito, com um sorriso pequeno mas abrangente, de olhos pequenos e brilhantes, ensinador e extremamente culto apesar da quarta classe, foi dele que senti o cheiro de livros velhos, guardados religiosamente.

O primeiro desapareceu há 23 anos. O segundo desapareceu há 14.

Sinto-vos saudades meus amigos. Sinto-vos imensas saudades. Houve alturas nestes anos que me fizeram uma falta imensa. Faltou-me as vossas vozes de razão, vozes de incentivo, risos e sorrisos enternecedores. Faltou-me os vossos ensinamentos, a minha vontade de traquinices. Fez-me falta o vosso mimo. Fez-me falta o vosso juizo.


Sinto-te a falta.

Estás entranhada em mim, corres-me nas veias como o sangue que me alimenta a vida. Entraste pela porta mais bonita, da forma mais graciosa.

Sabes que és bela, não sabes?

Sabes que te gosto, não sabes?

Sinto-te a falta…