Monthly Archives: Setembro 2009

Chuvas

Hoje gotas gordas cairam-me na cara, poucas e espaçadas, que a intempérie não passou de ameaça.

Mas senti-as baterem-me em força. Elevei a cara ao céu e deixei-as esmurrarem-me a pele.

Uma ou outra sulcou-me o rosto cansado como lágrima grossa…

… mas era apenas a chuva.

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Trauteia-se uma música qualquer enquanto os passos lentos ecoam por entre casa velhas e desertas, frias do tempo em que já não mora ninguém. Roupas velhas jogadas em cantos escuros e rasgadas pelo tempo que passou deixando os seus sinais. Repercussões vibrantes da voz sumida e dos andares barulhentos das pedras que se calcam, estridência para a paz que se almeja. Estuda-se o horizonte vazio na busca da cor magnânima dos olhares perscrutantes de mim. Ruas tenebrosas, cinzentas, inquinadas de águas negras lodosas em esparrinhares assustadores. Luz, precisa-se de luz, de calor e clamor sussurrante de bem-quereres. Tapam-se os ouvidos fugindo para o silêncio. Caminha-se como louco de dedos espalmados na cara cobrindo os poros amplificantes dos sonidos. Gritos contraproducentes que abafem os monstros e da paz almejada chega-se à discórdia indesejada.

E por fim os teus olhos.

Cala-se o mundo que não é para aqui chamado que os ouvidos são apenas para ti. Estreita-se o olhar que a vista é para ti. Tocam-se as mãos que o sentido é teu.

Esquece-se a música e as casas e as roupas e os burburinhos belicosos. Esquece-se a água suja e a dissonância dos assombros.

Estás perto de mim.

Fecho os olhos e sinto-te…

… aqui.


Tesouros

A tua luz ilumina, aquece, afasta toda a negrura que abraça os Homens.

Fonte saciante de ternura, de vida. Brota paz dos teus lábios, calmaria de cada um dos teus poros.

Paleta de mil cores, corpo de mil sabores, sinfonia reconfortante, estrela cadente de desejos, deixas rasto de amor.

 Sorte de quem te tenha pois possui o maior dos tesouros.


Remembering…

Se me perguntares pelas datas não te sei dizer nenhuma.

 Mas se me perguntares pelos momentos sou capaz de tos descrever até ao ínfimo pormenor…


Sentado numa pedra fria de uma qualquer soleira de uma porta aberta, encosto-me na arcada áspera de rocha antiga. Sinto-lhe as rugosidades  e as planuras dos séculos, das mãos que se lhe apoiaram, dos pés que a pisaram, da força dos homens que as carregaram. Deixo que o tempo tome conta de mim, no olhar do futuro sonhado. Deixo que a noite me abrace, na solidão do ser. A luz da lua que me beija os pés, estrelas que não se vêem. Fecham-se os olhos na tentiva de escutar o som dos teus passos no breu da noite, suplicam-se os sons na expectativa que as brisas te tragam a mim. O som do papel que queima entre os dedos, da baforada que obriga a expelir o fumo dos pulmões. Olhos fechados, marejados das lágrimas que não podem cair.

Sente-se o frio que faz o corpo contrair, que faz sentir vivo. Ouço-te. Finalmente ouço-te chegar. Ai felicidade imensa que brota dos meus lábios, luz que me chegas, fonte que me dá alento. Fazes-me levantar, puxas-me pelas mãos, abraças-me no meio do escuro. Já não me sinto só, já a noite não me parece tão escura, já a lua foge envergonhada. Voz que me encanta, braços que me embalam, colo do meu descanso, ternura minha.

És tão doce…


Eu e tu…

Hoje dançava contigo até cair no chão de esgotamento. Eu, que não sei dançar, hoje superava-me no teu acompanhamento.

Deixava a mão escorrer até às tuas costas, espalmada, de dedos bem abertos, segurando com a outra a tua, esguia, afundada nos meus grossos dedos. Puxava-te a mim no doce roçar das roupas, fechava os olhos e voava nos compassos lentos de um tango gemido. Sentiria a tua cabeça poisada no meu ombro a cada voltar ronceiro, o perfume que de ti se eleva e os suspiros que acompanham o grito lamentoso do Bandoneón.

Hoje, eu e tu, dançariamos até aos primeiros raios de luz.

Hoje, eu e tu, bailariamos até não haver mais amanhã.

 


Miragens

Há dias em que eu sou uma miragem…