Da alma

O vento forte assobiava pelas frestas abertas de uma janela com vista a quase nada, num vislumbre do negro da noite que já vai alta. Nem ponta de luz se descobre no céu carregado, adivinhante de chuvas que não caem, anúncio de morte de um verão que queima.  Ao longe, a batida oceânica na areia que não se vislumbra mas que se sabe de oiro. Está-se só, sentindo a aragem que bate e abana, que quase faz voar, desejo quase incontido de uma realidade apetecida. O cigarro que queima nos dedos, fumado mais pelo vento que pela boca que permanece fechada, silenciosa, sem compassos linguísticos que atravessam a mente de um forma dominadora, deixo o fumo desprender-se de forma livre pelo ar. Olho-o, naquele preciso momento em que o azulado se esvai na noite, em que desaparece de forma misteriosa misturado com os elementos.

Ajeita-se na cadeira que começa a parecer desconfortável, apaga-se a ponta incandescente num cinzeiro quase cheio e sempre o vento como companhia.

Deita-se na cama, de corpo despido, com o fresco dos lençois a tocarem-lhe a pele e deixa que o cansaço enfim surja e lhe tolde os sentidos. É tarde, muito tarde. Os olhos fecham no vagar do segundos e um último pensamento que o faz sorrir. Atordoa na certeza do novo dia e na convicção de uma nova vida.

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14 responses to “Da alma

  • Anónimo

    O primeiro e o último pensamento do dia
    ( sem contar todos os outros durante o dia…)
    são com quem nos enche a alma…
    o sorriso é doce
    mas ás vezes dou comigo a sentir a maior das angustias …

    É muito bom quando os olhos de fecham e se tem a convicção de uma nova vida …
    Não é o meu caso, apesar de amar como não sabia que era possível …

    Anya

  • Teresa

    Há qualquer coisa mágica e inigualável na catarse e regeneração de um “Hoje é o primeiro dia do resto da minha vida…”.
    Sente-se,quando num fragmento, temos a sensação inebriante de poder galvanizador, sentimo-nos hostes ululantes de aplauso a nós mesmos, estádios cheios de multidões de eus a acompanhar-nos de “yes we can!”.
    E assim, nesses ritos de passagem, acontecem pequenos momentos de glória e de retorno.
    Gostei, sabes, senti-me próxima dele nesse momento algumas vezes.
    Bem-hajas Francisco. Um beijinho grande.

  • Francisco

    Sei que sabes bem do que falo Anya. E sim é muito bom podermos sonhar com essas convicções. E há novas vidas todos os dias. Nem sempre como gostaríamos que fosse, mas julgo que sempre um pedacinho mais perto do que se pretende. E é o teu caso também. Pensa bem e verás que é também o teu caso.

  • Francisco

    Há sim Teresa. E é essa parte mágica que nos faz sorrir, mesmo entre lágrimas. Mesmo quando as convicções de que falo não passam de sonhos, há qualquer coisa em nós que mexe, que nos faz, como dizer, elevar-nos. Há, como bem dizes, um momento em que gritamos o “yes we can”.

    Bem haja a ti Teresa, por essa proximidade dele nesse momento.

    Um beijo enorme.

  • Teresa

    Tocou-me o que a Anya diz. O que escreveu é uma pérola, um doce da alma, uma entrega que tem travos de outros acidulares , mas que na essência e na ironia, acho que é uma forma de nova vida sim.
    Há contornos que nem sempre se desenham num risco, quem sabe até tendem a esfumar, mas enquanto existem sulcam caminhos nunca dantes traçados até chegar um dia a um (bom???) porto, seja esse o primeiro destino ou um percurso dele desviado. Fazem história e são património de quem pôde e quis um dia encher o peito e cincum-navegar. E… “navegar é preciso”, são os legados da descoberta e do que deixamos e recolhemos à passagem.
    Desulpem-me por favor os dois pelo abuso do espaço num forum não solicitado.

  • Francisco

    Não há lugar a desculpas Teresa.

    Gosto dessa frase “navegar é preciso…”.

    Haja ventos e marés…

  • Teresa

    …e marinheiro(a)s intrépido(a)s. 🙂

  • Anónimo

    Agora é a minha vez de pedir desculpas aos dois pelo meu abuso neste espaço…
    O que a Teresa escreve é que é uma pérola 🙂
    E se calhar “na essência e na ironia, acho que é uma forma de nova vida sim”
    Juro que não sei o que é … só sei que me deixa luminosa …

    Um beijinho aos dois e obrigada por me entenderem …

    Anya

  • Francisco

    E marinheiro(a)s intrépido(a)s, dizes bem…

  • Teresa

    … e um barril de rum, não vá o diabo tecê-las para afogar mágoas ( ainda que me tenham dito que elas sabem nadar…) 😀

  • Francisco

    E vocês com as desculpas…

    Um beijinho a ti Anya. Segue nesse caminho de luminosidade.

  • Francisco

    Quanto mais sabem nadar, mais rum que se beba (embora não seja de todo uma bebida que aprecie por aí além). 🙂

  • Teresa

    Olá Anya, obrigada a ti . Eu acredito que tudo o que nos deixa luminoso, deve ser mais perene que um fogo-fátuo. E ainda que algumas vozes de grilo promovam que nem tudo o que reluz é ouro, se os pós que deixam nos fazem voar, então espero que possas soltar os pés do chão e levitar feliz nessa bolha imensa. Um beijinho aos dois.

  • Francisco

    Um beijinho Teresa.Obrigado.

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