Encontro

Vi-te.

Vinhas ao longe em passo lento de olhos perscrutadores, cabelo apanhado num rabo de cavalo solto, deixando à visão a bela imagem do teu pescoço. Já te estou a ver há muito mas ainda não me encontraste. Levantas o nariz cheirando a maresia que te chega em baforada de vento e reparo como fechas os olhos deixando-te invadir por aquele aroma salgado de mar. Apetece-me correr até ti e pura e simplesmente elevar-te. Há demasiado tempo que não te sinto o coração a bater no meu peito. Há demasiado tempo que não te sinto entre meus braços. Resisto, deixo-me ficar. Observo-te como vens até mim e ainda não me conseguiste descortinar. Aquele aroma sal também me chega, também me obriga a fechar os olhos, que rapidamente abro para os poisar na tua figura que vem lá, ainda demasiado longe. Espero que chegues, espero que me vejas. Aguardo com ânsia o teu sorriso assim que me vejas, aquele rasgar doce de uma saudade que aperta e que se vê desfeita. Aperta o peito da espera, que se torna longa, câmara lenta na vida, no dia. O teu caminhar solto, o teu corpo belo que faz voltar olhares, que causa quase ciúme e orgulho. “És tão bonita…” penso. Sorris e apetece-me gritar-te “Estou aqui” só para que sorrias mais ainda, mas não grito, não sai voz. Fico-me na espera longa. Estás mais perto, cada vez mais perto. Quase que juro que já te sinto o perfume, aquele tão doce que inebria todos os sentidos. Sorrio. Vou sorrindo de coração exaltado por mais um encontro. Coração que não acalma antes, durante ou depois. És assim, sobressalto meu. Fazes-me correr sem sair do lugar. Olho-te no teu caminho, delicado, em que cada passo é algodão, que me faz caminhar sobre nuvens quando os dou a teu lado. Mas não agora. Agora estou parado, levitando apenas. Nada de mim toca no mundo conspurcado. O nosso mundo é diferente de todo o outro.

Viste-me.

Sorriso rasgado que me tolda o discernimento. Levanto-me e abro-te os braços. Quero que corras a mim, me saltes ao colo e me envolvas. Gosto de te sentir em meus braços, aconchegada, da forma como poisas a cabeça no meu peito. Aí tem-se a certeza de tudo, de que somos donos de nós, que tudo o resto desaparece e nada mais importa.

Sinto-te.

Abraças-me de forma duradoura, forte, o teu perfume que me chega, cândido, embriagante. As palavras que se soltam naturais do reencontro, em que nos apartamos para que os nossos olhos se reencontrem na profundidade do gosto nosso, até não resistir mais e de novo te aconchegar ao peito. Caminhamos, lado a lado, nas nuvens que fazes sentir, direcção ao desconhecido, não importa destino que estou contigo. Agarras-me a mão, sinto-a. Encostas-te a mim, sinto-te. Vou voando nas asas da imaginação que não pára e nos passos que não se ouvem.

Sentes-me.

Quando te envolvo os ombros no abraço destemido, te puxo mais perto, não te deixando escapar. Gosto de te sentir assim, perto, bem perto. Deixamos a noite cair sobre nós, o manto negro, esconderijo dos amantes, cobrir-nos o rasto que se perde no infinito do ser. As palavras deixam de ser necessárias, apreciamos o silêncio em que deixamos os olhos e as mãos falarem por si, matarem também eles as saudades que se acumulam.

Dor triste mas saborosa da saudade…

…mas só temos saudade do que amamos.

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17 responses to “Encontro

  • Teresa

    Sabes, quase se sente o teu pulso a acelarar, o nó e a adrenalina nas veias a zumbir com asas no estômago. E sabes , quase se vê nela o teu reflexo na retina, o sentir o ar levitar-lhe sob os pés.
    Tem sons de murmúrio, num inspirar que traz cheiros e cores de gelado que derretem à temperatura morna da ponta dos dedos.
    E sabes Francisco, sabes que tudo fica ainda mais bonito agora assinado por ti?

    De facto, que magnífico estado de graça…

  • Francisco

    Sabes Teresa, é bom que quase se sinta isso tudo. Porquê? Porque é o que se sente.

    E o estado de graça é dado por essa mulher que é um universo em forma de gente.

  • AChica

    Também queria ser um universo em forma de gente…para alguém!!(eu hoje estou deprimida e chorona…)

    Quando poderemos ser donos de nós? (Puramente retórica a pergunta…e sabes que percebo…)

    Beijo

  • Francisco

    E acredito que sejas Chica…

    Quanto à tua pergunta, embora de retórica, merece resposta. Provavelmente nunca…

  • Chiqquinha

    Nunca, nunca???

    Agora é que vou chorar, desfazer-me em lágrimas…tu tens mesmo a certeza???

  • Francisco

    Muito dificilmente Chiqqinha…

    Mais vale não nos enganarmos…

    Muitas pessoas dirão “blasfémia, somo sempre donos de nós próprios”. Mas tu eu sabemos melhor…

  • Chiqquinha

    Nunca somos donos de nós próprios…com grande lástima minha!

    mas sobrevivo…e tem dias que até com alguma alegria…

  • Francisco

    Há uma frase de uma música que gosto muito. Diz assim “vamos andando por aí, sobrevivendo à bebedeira e ao comprimido”. Há espaços e tempos, em que a alegria toma conta de nós e nos faz voar. Há pessoas que têm o condão de pegar em nós e nos transportar para mundos paralelos, cheio de cores e sabores, em que, até um daltónico como eu, aprecia com todos os sentidos tudo quanto se passa. Mas, e há sempre um mas no meio destas histórias, há recuar à realidade e assentar pés em chão frio e duro.
    Cada vez tenho mais a noção que são esses andares, no meio dos restantes rastejares, que dão força para continuar, mesmo que em dor, mesmo que em lágrimas.

  • Chiqquinha

    Descobri isso há alguns anos…

    A felicidade meu doce amigo, são os tais momentos em que os pés flutuam no ar, longe do frio do chão, em que nos permitimos arriscar ser felizes….e talvez nesses preciosos momentos sejamos Donos de Nós!

  • Chiqquinha

    Hoje parecemos dois velhos depressivos, eu posso-me desculpar com a TPM…mas tu que desculpa podes dar???

    Hum?

    Toca a colocar um sorriso nesse rosto magnifico…

  • Francisco

    O triste da coisa é que somos donos de nós em sonhos, desejos, imaginações, quadros artisticos soberbamente pintados.

    Eu não tenho TPM é verdade, mas a velhice também me chega.

    Quanto ao sorriso, está cada vez mais presente, nem que seja para me enganar a mim próprio.

  • Chiqquinha

    E quem tem um sorriso magnifico…quem é?

    Hum?

  • Francisco

    Tu tens de certeza.

    E conheço muito mais gente que o tem também…

  • Chiqquinha

    Pronto…tinha que generalizar…não se podia ficar pelo “tu tens de certeza.”

    Humpfffffffffffff

    E referia-me ao teu ó Chico!!!!

  • Francisco

    Sabes que nas coisas boas gosto de generalizar. É ingénuo, eu sei, mas que queres tu?! Eu sou um ingénuo.

    E eu sei que te referias ao meu…

  • Chiqquinha

    Até porque ambos sabemos que eu sou desdentada e não tenho pecunio para uma protese!!!!

  • Francisco

    Tonta…

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