Reflexões

O tempo tem estado quente. Demasiado quente para meu gosto. 

Escrevi há pouco, num comentário de um blogue amigo, que gostava da chuva e do frio, da neve e da geada, dos dias cinzas e das noites compridas. Sentia-me mais no mundo assim.

E é um facto tão real que me consigo “mexer” melhor em ambiente cinza, escuro, de casacos abotoados acima (embora ande sempre em mangas de camisa), de caras fechadas e nariz vermelho. Gosto de sentir as mãos frias, geladas. De sentir que as orelhas quase não me pertencem. De ver o meu bafo desaparecer no ar, de cada respiro doer porque gelado. Gosto do som dos passos chapinhantes, do reflexo das luzes na água do caminho. Gosto de viajar em estrada chuvosa, com o som chiante dos limpa-parabrisas em movimento síncrono e compassado. Gosto de ver o reflexo das chamas numa parede, a sabor de uma qualquer bebida alcoolica no aconchego de um sofá enquanto o vento assobia nas portadas. Gosto do marejar fantasmagórico das copas das árvores ao longe, do cheiro da terra molhada, do diesel dos carros em andamento. Gosto de beber água da chuva, senti-la cair na cara e nas mãos. Gosto do espírito que me invade pelas festas, de ver as ruas desertas e iluminadas. Gosto de passear e ver os restaurantes e bares de janelas embaciadas, com a azáfama de cheios e, se por acaso entrar, do ambiente quase familiar de entrar numa casa que é quase nossa.

Sinto saudades do Inverno.

Sinto saudades de pertencer ao mundo.

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2 responses to “Reflexões

  • Princesa Canela

    Acho até que já falámos sobre isso por aqui. 🙂
    (tem cuidado é nesse beber água da chuva, é infelizmente muito poluída e não te quero doente!)
    E agora vou revelar uma quase inconfidência… Acho duma sensualidade extrema os pequenos choques térmicos a dois: um nariz frio por um pescoço quente, uma língua escaldante numa orelha gélida, os pés gelados numa barriga confortavelmente morna… Adoro, adoro, adoro!

  • Francisco

    Quanto ao adoecer, como disse ainda hoje, se morrer enterra-se, não me preocupa.
    Tens razão quanto à sensualidade, do toque, do arrepiar. São momentos únicos e irreptiveis.

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