As Montanhas de Vento – I

Sábado, seis da tarde.

Final de um típico dia de Outono em que o céu nublado reflectia o  laranja de um sol que já nada aquecia, esfarrapado por núvens finas qual rasto de neve em fundo azul escurecido. A brisa trazia consigo os cheiros de uma terra humedecida pelas chuvas dos dias anteriores, misto de folhas em amalgama que voltam ao berço de vida com as essências, tiradas à força de água, dos ramos ainda verdes das árvores, que balouçavam suavemente ao ritmo constante de um sopro quase humano. Apesar do sol que teimava em desaparecer, por trás de si as nuvens negras, carregadas de dilúvio, adivinhavam nova chuvada para dentro de pouco tempo. Sentia-se que os ventos se tornavam mais fortes trazendo consigo os sinais de tempestade. Nas serranias já não voam os milhafres, recolhidos pelo final do dia e por esse augúrios de borrasca que se adivinha poderosa. Da sua varanda conseguia ouvir esse ressoar intensificado e, se fechasse os olhos, conseguia transporta-se até ao meio dos pinhais pouco iluminados, trazendo consigo as fantasmagóricas figuras de trocos velhos vergando à força do vento. Uma vontade enorme de sair dali e ir embrenhar-se no meio dessas árvores cresceu por si acima quase o fazendo largar o ferro verde da varando do terraço. Senta-se na cadeira de plástico que range vergada ao novo peso que suporta e puxa de um novo cigarro que leva à boca em gesto mecânico, acendido com o isqueiro que tem de proteger para que o ar não lhe apague a chama. A primeira baforada traz-lhe um travo amargo à garganta e fá-lo soltar uma tosse de engasgo que o fez vir às lágrimas. De pernas traçadas, deixa a cabeça suavemente apoiar-se na parede áspera pintada de um branco, que quase não se dá conta de tão suja de pó da terra, e fecha os olhos afilando os ouvidos aos sons que se propagam lá do alto.

A pausa é quebrada pelo som estridente do telefone poisado no chão ao seu lado que atende de forma mecânica sem sequer ver quem lhe liga.

-Estou?

Sim, sou eu…

Aquela voz faz quase saltar da cadeira fazendo com que os pés façam um esforço suplementar para a aguentarem intacta, escorregando no pavimento mas mantendo em zelo a estrutura. Desejava aquela chamada mas não a esperava. A surpresa fez com que nenhum novo acorde saísse da boca, levando a que do outro lado se ouvisse:

Carlos, estás aí?

Levantou-se e caminhou até à beira do terraço novamente.

-Sim estou…

Que fazes?

– Vegeto no meu terraço… – não impedindo um sorriso saído sem esforço – E tu?

Estou estendida no meu sofá. Apeteceu-me ouvir-te…

Rapidamente a imagem dela em postura tranquila naquele sofá que tão bem conhecia lhe veio à mente.

Anúncios

4 responses to “As Montanhas de Vento – I

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: