Ainda é verdade…

Há momentos em que temos que parar tudo, travar a fundo e pensar. E pensar sobre e colocar tudo em causa. Eu penso que estou num momento assim. A avaliar tudo e todos, avaliar em que ponto estou e quais as opções que posso e tenho que tomar. Apesar de tudo é um momento extremamente solitário. Podemos estar acompanhados, por gente que nos quer bem e que até nos compreenda, mas não deixam de ser momentos solitários. Porquê? Porque há pequenos pormenores que apenas nós sabemos, situações que apenas nós vivemos, razões, ou a falta dela, que só nós conhecemos. Desta paragem abrupta, várias opções podem ser tomadas:

1. Continuamos como estamos até aí.

Poderá ser a maneira mais fácil e menos trabalhosa de se avançar. É um hipótese sempre presente, mesmo que a situação até ai não tenha sido a que mais nos preenche. Se a situação tem sido óptima, nada a discutir, mas se não tem sido, a possibilidade de mudar versus possibilidade de continuar coloca-se de uma forma acutilante. E muitas vezes se toma a opção de continuar, de não levantar ondas, mesmo que isso nos dê mais dor e mais sofrimento. Mas é opção que podemos considerar válida, porque ela existe e é efectiva.

2. Dizemos “Basta!”

É sem dúvida a opção com mais riscos. Dizer “Basta!” vai levantar ondas de choque que teremos que estar preparados para enfrentar, ondas de choque nossas e dos que nos rodeiam. É atribulado chegar a uma conclusão destas, é um caminho difícil e perigoso, cuja base é transformar quase completamente uma vida. Mas, na minha opinião, o dizer “Basta!” poderá ser feito de diversas forma também.

a) Mudança de alguns aspectos

Mudar é sempre difícil. Vem desde estudos antiquíssimos que a mudança é um aspecto organizativo de maior relevo e de maior dificuldade dentro de uma organização. Se transportarmos a ideia de um organização empresa para uma organização sociedade, infinitamente maior e mais sensível, então a mudança ainda poderá ser mais difícil. Porque se é complicada a mudança de hábitos, alterar mentalidades é tarefa titânica. Mas com coragem e colaboração é possível ir alterando algumas coisas. Mas aqui a palavra chave é colaboração, isto é, as alterações não se podem apenas efectuar em nós mas também em quem nos rodeia. Se tal não acontecer, as alterações podem não surtir o efeito desejado.

b) Mudança de muitos aspectos

Maior que a anterior em tudo, a colaboração torna-se mais permente ainda, ou seja, tem que haver vontades de terceiros em mudar, tem de haver disponibilidade para se sentarem e ouvirem. Mas a percepção das nossas dificuldades, medos, anseios ou infelicidades nem sempre é a maior. Eu tenho dificuldades em ser percebido pela maioria das pessoas que me conhece. E ir a cada uma delas e alterar alguns aspectos é de uma dificuldade extrema. E não falo na “logística”, mas sim na compreensão da necessidade de alterar. É decididamente uma opção muito difícil e talvez não seja de todas a melhor.

c) Radicalidade

A maior mudança de todas, a que comporta mais riscos, a que provoca mais ondas de choque, como atrás lhe chamei. É o “Basta!” na sua forma mais dura. É o quase cortar a direito. Implica riscos enormes na estima pessoal, em que nos lançamos de novo no mundo completamente a solo. Utilizando uma linguagem mais informática, é fazer o reset à vida. É a mudança de tudo aquilo que conhecemos e sentimos e vivemos no nosso passado. Não é apagar, porque um passado nunca se apaga. É simplesmente deitar abaixo a maioria das bases e construir de novo, ou utilizando uma frase que gosto, é “baralhar e voltar a dar”. Por norma, a radicalidade não é aconselhável. Porquê? Porque a preparação mental para o que a seguir tem de ser feita de uma forma tão segura e tão capaz, que a mínima brecha pode dar azo a que caíamos de uma forma cujo levantar seja difícil demais. Mas há momentos na vida, em que a radicalidade é necessária e aconselhável. Saberá cada um quando assim se deseja.

3. A Morte

Por último a morte. Para a maioria das pessoas, a morte nunca entra nas contas. É sempre uma não opção. Pois bem, para mim a morte é um opção. Poderá ser a última de todas, o desespero de causa, o egocentrismo puro, mas não é por isso que deixa de ser opção. É a ideia de felicidade extrema, em que passa a não haver nada que seja indutor de estados de alma cabisbaixos, descrentes e de sobrevivência num caminho que seria suposto fazermos a viver cada momento com uma felicidade quase inexplicável. Perfeição é uma utopia, mas a esperança de viver nela não o é.

Neste momento estou parado, ou quase parado, analisando tudo o que sou e o que quero e como o vou conseguir.E as opções estão em cima da mesa…

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10 responses to “Ainda é verdade…

  • Anónimo

    Pela minha maneira de ser preciso muitas vezes da mudança …
    Nem sempre uma grande mudança mas não gosto de coisas mornas, preciso de pequenos “abanões” de vez em quando .
    Mas cheguei à conclusão que se estou à espera que os outros sejam como eu gostava, bem posso esperar sentada …
    Como não gosto de magoar ( aliás, não consigo mesmo ) prefiro magoar-me eu e continuar a vidinha …

    Mas sabes, quando se descobre um amor como o que maravilhosamente descreves tudo parece ser menor …

    É a um amor assim que me agarro em todos os segundos da minha vida … e viver é o que mais quero 🙂
    Mesmo quando ele não está, eu sinto-o de verdade e ajudamo-nos um ao outro a viver o que a vida nos reservou …

    Um beijo,

    Anya

  • Princesa Moscatel

    Francisco,
    Não estás parado se estás a analisar o que queres e como o vais conseguir. Solitário, claro, que é como se tem de estar para poderem ser tomadas essas grandes decisões. Mas já uma vez aqui discuti este assunto com o “John Doe” e custa-me voltar a vê-lo na mesa, agora assinado pelo Francisco. A morte não soluciona nada, nem te traz aquilo que queres. A morte é só uma ilusória satisfação porque acaba com o sofrimento que todas as grandes mudanças acarretam, não só ao nível macro, mas também ao micro-nível do individúo. Todas as outras alternativas acarretam sofrimento, nem todas trarão o alcance daquilo por que anseias. A que escolheres trará aquilo por que te dispões sofrer. Disso ninguém pode fugir.
    Escreves a “Perfeição é uma utopia, mas a esperança de viver nela não o é.” Atenta nas tuas próprias palavras. Se não é utópica a esperança, vale sempre mais a vida.

    PS: Desculpa o longo testamento e a intromissão.

  • Francisco

    Obrigado Anya

    Sabes, a questão não é se há mudança ou não. Há um ponto da vida que tem que haver mudança, mutação, mais pequena ou maior, torna-se inevitável. Há é pontos que não se sabe bem o que se fazer. Este texto, talvez te recordes, tem cerca de um ano. O ponto é que ainda é verdade, ou seja, continua-se no mesmo trilho e não se tomam resoluções. É isso que neste momento me zanga. Parece que não aprendo com os erros.

    E sim, este amor que sinto, faz as coisas parecerem menores. Mas, como bem dizes, parecer. Porque as questões continuam à espera de resposta. E isso é que não pode acontecer…

  • Francisco

    Princesa Moscatel,

    Em primeiro não tens que pedir desculpa de nada. E este assunto baila há bem mais tempo que tu o leste.

    Se reparares bem, aqui a morte apresenta-se apenas como uma de cinco opções, tão válida como as outras quatro. Acho que a generalidade das pessoas faz dela um bicho de sete cabeças, um tabu, algo medonho e insensível. Sinal disso é a focalização que deste a essa opção, que é a apenas uma das ampresentadas e a derradeira.

    Quando um problema me é apresentado, tenho por hábito explanar as soluções possíveis, e a morte, quer queiramos quer não, é uma delas. Aliás, neste exercício que fiz (há mais de um ano, se leres a minha resposta ao comentário da Anya), tive o cuidado de explicar o que cada uma das minhas opções encerrava.

    Essa frase que destacas é algo que considero como verdade. Mas espero que compreendas que apesar da esperança não ser utópica, que não o é, isso não quer dizer que seja possível viver com ela. Há várias formas de esperança, como bem deves saber e, dentro dessa diversidade de formas, há as que com as quais conseguimos viver e aqueles que apenas nos permitem sobreviver. Uma das questões que se levantam é se o facto de essa ser uma “sobrevivência num caminho que seria suposto fazermos a viver cada momento com uma felicidade quase inexplicável” é suficiente para “valer sempre mais a vida”. Atenta que não digo sim nem não. Quando chegar a uma conclusão logo direi.

  • lidulcineia

    A morte também nunca foi para mim um pesadelo, talvez por já a ter sentido perto. Mas como dizes é o cúmulo do egocentrismo, é pormo-nos à frente de tudo. E isso para mim é reprovável, porque temos responsabilidades nesta vida, porque estamos todos interligados. Se escolho a morte, estou a por-me à frente de quem amo.

  • Francisco

    Como já por aqui escrevi, a morte não é de todo um pesadelo, bem pelo contrário. Não a temo e foi e é companheira de jornada. E sim, é o egocentrismo puro, é colocarmo-nos à frente de tudo e todos.

    Mas pegando nas tuas duas últimas frases, pergunto-te se a responsabilidade maior não é por nós próprios e se o maior amor não deve ser por nós mesmos? É que se assim for, como tantas pessoas me disseram que deve ser (não o desminto, embora também não o confirme), então o acto da morte é de facto tomarmos a nossa responsabilidade e o nosso amor próprio acima de tudo e todos. Não é isso que nos dizem para fazer? Ou só é válido para a vida e não para a morte? Se for só para a vida, porquê? E para mim o argumento de que a vida é que é especial não conta, uma vez que quem o diz nunca experienciou a morte, fala do desconhecido.

    E repara, eu não estou a dizer que depois é que é bom, porque não faço a mais pequena ideia. Tem-se é a certeza do que acaba…

  • anasir

    A pergunta que fazes é uma questão limite. Dizem-nos que devemos amar o próximo como a nós mesmos. Se a escolha é entre o próximo e nós, é muito difícil, neste caso, graduar…

    Ontem vi uma peça de teatro muito boa sobre a morte, de nome “A letra M”. Nela, discute-se a razão de ser da morte, a partir do discurso desesperado de um homem cuja mulher morreu de parto. O ambiente é muito intenso, as palavras dele impressionam qualquer um… Não sei se ta deva aconselhar, mas como testemunho da dor causada por uma perda é do melhor que há.

  • Francisco

    Repara, eu não digo que a morte de alguém não cause a quem está próximo uma dor agustiante. Já a senti, como todos nós.

    Afirmas que a questão é limite. Claro que é. Se estamos num limite, devemos fazer as perguntas limites e descobrir as respostas. As perguntas apenas se adequam ao tempo e ao espaço.

    Quanto à peça, não a conheço, lamento. Mas fiquei curioso…

  • Susana Pires

    Quando somos jovens aprendemos, com a idade compreendemos. A maturidade conquista-se com as vivências e serve para compreender aspectos nossos e dos outros que antes nem sequer viamos; a idade é apenas uma medida do tempo.

    Mudamos quando nos magoamos o suficiente para precisar de mudar, ou quando aprendemos o suficiente para querermos mudar, e recebemos o suficiente para sermos capazes de mudar.
    Na verdade o que muda não somos nós, são as nossas perspectivas. A maturidade é saber conviver em paz com o que não podemos mudar, é não querermos mudar os factos mas deixarmos de ser modificados por eles.
    O que eu aprendi é que, quanto mais envelheço, menos sei; apenas aprendi a não repetir erros.

  • Francisco

    Em primeiro lugar Susana, o meu obrigado pela sua visita e mais ainda pelo seu comentário.

    Dou graças que tenha aprendido a não repetir erros. Eu, pelo contrário, repito os meus inúmeras vezes. É que mudar, dito assim como diz, é de uma simplicidade extrema porque, principalmente, coloca o foco no “nós” e não dá espaço ao que e quem rodeia. A mudança nunca é única, tem que ser acompanhada por quem nos rodeia. Ou então é radical, como eu dizias. Mas nesse caso é também egocêntrica e narcisista.

    Permita-me ainda discordar quando diz que não somos nós que mudamos mas as nossas perspectivas. Afinal o que somos nós senão as nossas perspectivas. São elas que nos definem. Digo eu que não se mudam perspectivas sem mudarmos nós nem nós se não mudarmos perspectivas.

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