Oferendas…

A adaga vibrava ao ritmo do sangue que lhe fluía nas veias, presa entre as palmas das mãos suadas. O punho, feito de marfim trabalhado nalguma tabanca bafienta de uma qualquer tribo africana, assentava perfeitamente nas mãos que a seguravam com os seus entrecortados marcando a pele tal a força que lhe era aplicada. Uma lâmina reluzente, que terminava numa ponta afiada com brio, mostrava o reflexo da pele morena que a circundava misturada com o brilho do aço reluzente. Encostada à carne, fazia já os estragos para os quais tinha sido produzida. Uma gota de sangue fina nascia como rio do ponto de contacto escorrendo pelo peito despido até ser absorvida pelos jeans gastos. Sentia aquele pequeno rasto do líquido rubi, quente e viscoso, conforme ia descendo pelo seu corpo.

Tinha tacteado com os dedos o ponto de inserção, não fosse a lâmina bater nalgum osso do seu externo. Procura aquele espaço entre as costelas, aquele ponto único, que lhe dava acesso à máquina que fazia vibrar a adaga. Sentia nas têmporas a adrenalina a ser bombada para o seu cérebro que não perdia a lucidez do momento. Sentia-se quase samurai praticando o Seppuku, com as devidas diferenças de local. Preferia que fosse directo ao coração. Ao menos assim, haveria mais hipótese de sucesso, calculava.

De joelhos no chão de terra, no meio do arvoredo que se silenciava, chegara o momento do seu sacrifício. Estava escrito e, por isso, incontestado. Nem as pedras que lhe magoavam os joelhos o impediriam da sua oblação, da sua última oferenda.

Baixou os olhos até à lâmina e lentamente os elevou ao céu que começava a escurecer.

Era hora.

Cerrou os olhos e impulsionou as palmas das mãos até si, sentindo o gume rasgar a pele e a carne até sentir o guarda-mão bater-lhe em força no peito. Os olhos abriram-se num repente e um golfada de ar foi inspirada de boca completamente aberta. Sentiu por breves segundo o jorro de sangue que imediatamente lhe saiu do peito e a vida esvair-se de si.

Tinha terminado tudo, não sentindo já o corpo cair em desamparo na terra, de mãos mostrando as palmas depois de largado o seu instrumento de morte e de olhos arregalados como se a vida por ali tivesse saído. A terra engolia o sangue que lentamente deixava de correr fazendo bica pelo punho de um imaculado branco riscado a vermelho até apenas pequena gotas caírem.

A noite tinha chegado e uma brisa levantava-se entretanto trazendo consigo o aroma das árvores húmidas das chuvas recentes, cheiro a terra molhada, fértil, a folhas que se decompunham no processo natural da vida. Os olhos que já nada viam foram tapados por um folha que entretanto lhe batera na cara, quase como se a natureza os quisesse fechar.

A oferta estava feita. Restava esperar pelos seus efeitos.

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