Monthly Archives: Dezembro 2009

Veias

Alimentas-me.

Sacias-me.

Sabes-me bem.

Refrescas-me.

Sim…

És tu que me corres nas veias.


Aberturas

A janela abriu-se …

Queria ver-te, nem que fosse num vislumbre.

O teu aroma esvoaçou no ar e vi os teus cabelos brincarem ao vento em desassossego, como em inquetação me ficou o coração.

“Anda, debruça-te…”


Antigos…

Imagino-te por ali, ao alcance da objectiva, pelo meio onde ficas.

Enquadro-te e faz-se o click.

Eu vejo-te.

Verei sempre mesmo quando formos antigos…


Pequeno conto de Natal…

Os pequenos passos arrastados pelas ruas húmidas e sujas da baixa não ecoavam pelas paredes. As sapatilhas atadas a cordel à volta do pé para que a sola não caísse, de um azul esbatido, quase irreconhecível pelo surro entranhado na lona, calças de ganga e uma camisola esburacada que deixava entrar mais frio que propriamente agasalho, boné vermelho, demasiado grande para a pequena cabeça que cobre, deixando pequenos fios de um cabelo loiro fugirem-lhe à testa. Unhas gastas, de roídas e de limadas nas pedras ásperas das paredes. Caminha em direcção ao rio, que ali perto há uma padaria que tem os fornos a fazer calor que repassa na parede e cheira a pão fresco que não pode comer, mas que o cheiro lhe enche a barriga nas fantasias de menino. Encosta a cabeça à rede, de nariz espetado no ar, vendo o paquete que ali está atracado, cheio de luz e cor, de música e risos, luxos que não sabe a que sabem, apenas imagina. Vira a pala para trás para se encostar mais, até os quadrados lhe ficarem marcados na pele e fecha os olhos, sonhando estar lá, onde outros como ele correm em algazarra e brincadeira, vestidos de roupas caras e limpas, não sujas como as dele e mesmo que apenas em sonhos, sorri. Leva a mão ao bolso e tira o apito amarelo que o senhor que vende na rua do restaurante que deixa sempre os restos dos almoços no contentor lhe ofereceu hoje de tarde. “Porque é Natal” disse-lhe. Olha o apito amarelo, cujo plástico quase brilha na noite escura, preso na pequena palma suja e sente-se rico. O coração acelera por aquele presente que lhe fez lembrar o que é receber presentes. Fecha a mão e guarda de novo no bolso bom, que o outro tem um buraco e pode cair.

Caminha ao longo da rede, de olhos postos naquele barco tão grande, ao abrigo do escuro que tem vergonha que o vejam. Olha a chaminé da padaria e já há fumo, já cheira a massa a levedar que em breve será pão para outros comerem. Chega-se à parede e já sente o calor dos fornos com o sono a pesar nas pequenas pálpebras, resultado do cansaço de ser andarilho da cidade. Senta-se no chão coberto pelo pedaço do cartão que guarda na fresta da parede para que não lho roubem e olha de novo o apito, o seu tesouro. Apetece-lhe soprar e celebrar aquela prenda tão grande, mas sabe que não pode. É de noite, não se faz barulho. Assusta-se com a porta que abre ali ao pé de si. Não é costume, não quer que o encontrem. Um homem de grande barriga e bigode farfalhudo, esbranquiçado pela farinha, aparece para deitar lixo no contentor. Encolhe-se para que não seja descoberto, sustem a respiração para não fazer barulho. O homem grande olha-o ali sentado, encolhido como se quisesse fazer parte da parede. Caminha para ele, mas não tem olhar zangado, mas sim um pequeno brilho nos olhos. Olha a mão que lhe é estendida e levanta-se de um salto pronto a fugir. Mas algo o faz estender a mão para a outra que o espera. Conduz pela porta aberta, para a luz da padaria que nunca tinha conhecido. Um mundo novo que acabava de descobrir pela mão daquele senhor grande. Cheirava a massa a levedar, cheirava ao açúcar dos bolos que brilhavam em cima das bancas, sabores que nunca tinha provado mas apenas imaginado quando passava em frente das montras. Leva-o por uma escada ao fundo e sobe. O homem chama alguém e uma senhora igualmente forte aparece e sorri. O homem diz-lhe que estava na rua lá atrás, escondido e ela estende-lhe mão. Despe-o e dá-lhe banho de água morna, muito diferente da água fria dos beirais onde costumava lavar a cara de manhã. Veste-o de roupas lavadas num quarto onde existem fotografias de um menino como ele mas que não encontra em lado nenhum. Desce as escadas de novo e em frente do forno está um banco onde lhe dizem para se sentar. Sente o calor na cara quando o abrem para pôr lá dentro a massa que virará pão e todo ele sorri de uma felicidade. “Porque é Natal”, lembra-se ele da voz do homem que lhe deu o apito amarelo. Olha cabisbaixo para o homem que está a suar do calor do trabalho e da primeira fornada sai um pão ainda fumegante para a banca. Tem vontade de o pedir, tem fome, já não come desde os restos do almoço do restaurante da rua do senhor que lhe deu o apito. As mãos grandes enfiam os dedos dentro do pão e uma faca reluzente atalha-se num pacote de manteiga e barra o miolo que a faz derreter. A boca saliva de vontade mas não pede, fica mudo no querer até que o homem lhe estende o pão que deixa escorrer a manteiga pelos dedos. Pega-lhe e come com afinco, com vontade que não acabe e sente os dedos gordurosos, que lambe no fim, um a um, para que nada se perca. Na pergunta se quer mais, os olhos respondem aquilo que a boca não diz. Novamente os dedos grossos entram pela carcaça ainda mole e mais manteiga generosamente barrada. Sente a comida quente aconchegar-lhe o estômago e a senhora aparece com um copo de leite morno. Vai a um pote e tira uma colher de um líquido viscoso e amarelado que coloca no leite. Mel… E bebe leite e come mais pão que o senhor lhe dá de olhos lacrimosos entre festas nos cabelos loiros. Come bolo-rei e outros sabores que apenas imaginava, come até não conseguir comer mais e sentir o peso da cabeça que apoia num braço até adormecer. Sente ainda os braços gordos do homem pegarem-lhe ao colo e subir a escada, deitá-lo numa cama já aberta e quente, coberto por lençóis perfumados. Sorri no limbo do dormir e recorda-se com o apito amarelo preso na palma das mãos, “É assim o Natal…”


Já não sei chorar…

Houve tempos em que sabia, em que era fácil deixar correr livremente pelas faces cansadas a água que me limpava a alma. Houve tempos em que sabia deixá-las correr…

Já não sei…

Ficam-me bailando nos olhos, ficam-me travadas na garganta que se fica em nó. Já não as sei libertar.

E revolvem-se as entranhas em querer, em tentativa de reaprendizagem, em forças que me faltam. Quero e preciso. Mas já não o sei fazer. Um dia talvez, quando todas as lutas acabarem, eu possa finalmente aprender de novo e possa exaurir tudo que se engole em seco.

Talvez um dia eu comece um texto por “Eu…” . Talvez um dia o solte em torrente de palavras.


Alquimias

Existem momentos que nos transformam, pessoas que nos alteram, situações que nos mudam a forma de viver, de pensar, de ver o mundo e de caminhar.

Antigamente acreditava-se que os alquimistas tinham o poder de transformar chumbo em ouro ou que tinham a possibilidade de chegar ao Elixir da eterna juventude.

Transformação.

Mudança.

Consegues-me isso tudo. Transformas-me em melhor. Alteras-me a forma. Dás-me vida.

És alquimista dos tempos modernos.


Ao largo…

Depois de algum tempo ao largo, volta-se…

Ocupado com a vida que não é mansa, em lutas necessárias, afastei-me daqui. Volto agora, com mais frequência espero.

Um beijo a quem mesmo assim não me deixou…