Monthly Archives: Janeiro 2010

Palavras

Não há palavras suficientes para ti.

Nunca houve.

Com o passar do tempo e com cada novo momento contigo, as poucas que se aproximam escasseiam ainda mais. Não chega dizer que és bonita, não chega chamar-te de fada, universo, arte, musa, doce, amor ou qualquer outra. Pura e simplesmente não chega. Há tanto em ti, há tesouros imensos, alguns que creio nunca viram a luz do dia. E se alguma arte tenho, é de palavras conhecidas e gastas.

Queria conseguir inventar novas palavras, grandiosas e eloquentes e nada me sai. Sai-me o teu nome, que digo de coração nas mãos e alma ao alto. Gostava de te conseguir dizer palavras bonitas e doces na proporção do que és e saem-me pequenas sílabas que comparadas pouco significam.

Adoro-te meu anjo.


O Namoro

Hoje esta música não me saiu da cabeça, iniciando a trautear de manhã cedo até agora…

A razão? Porque é simplesmente fenomenal e há muito que não me enchia os ouvidos…

Grande poema, enorme cantor.


Uma vez escrevi…

As gotas escorriam pela vidraça de forma lenta, engrossando à medida que iam descendo e incorporando novas gotas que se formavam com a chuva a bater. Ele olhava através dela para a rua mal iluminada onde raros guarda-chuvas passavam acoitando gente anónima em passo apressado. Um ou outro carro passava, fazendo-o cegar com as luzes e seus reflexos. Quando reabria os olhos, via o seu rosto reflectido na sua janela para o mundo chuvoso. Via os olhos cansados, semi-cerrados, a barba de dois dias, o cabelo grisalho penteado num risco pela direita quase perfeito. Girava um CD de um jazz calmo, quase música de elevador. Nas mãos, um copo de whisky já sem gelo derretido pelo calor das mãos. Cada gole queimava-o por dentro, na viagem vertiginosa entre a boca de lábios grossos e vermelhos e o estômago vazio. Voltou-se de costas para o mundo e no meio de mais um gole, enfrentou a lareira agora apagada. Nenhum calor dali vinha, nenhum calor estava naquela sala, sala essa testemunha de calores imensos. Ao som daquelas mesmas músicas tinha descoberto as sensações do toque da seda. Caminhando de olhos postos na lareira, aproximou-se e passou-lhe as pontas dos dedos recordando os momentos das chamas reflectidas na pele de uma mulher. À ideia vieram as memórias dela à porta esperando por ele, esperando que ele a libertasse da suas roupas e ali, naquele mesmo chão se preenchessem e esvaziassem de desejos. Ali mesmo tinha ele delicadamente despido a blusa que lhe tapava a pele, cobrindo de beijos doces a recente descoberta, deixando as mãos vaguearem por ali, perdidas, sentindo o toque suave de uma pele sedosa. Ali mesmo a tinha despojado de todas as barreiras que o separavam do seu objecto de desejos, deixando-o livre para conhecer todos os seus sabores. Recordava o aroma do seu pescoço e ombros, dedilhados de olhos fechados, marcando na sua mente todas as formas do seu físico. O sabor dos seus seios, delicadamente apreciados pela sua boca, dando-lhe o calor de um corpo que não mais era seu, abandonado aos desejos dela. Ali mesmo recordava o toque na sua barriga, que a fazia arfar de desejos e pedidos de continuação dos prazeres previstos, pedindo-lhe que não parasse no seu caminho de descoberta do seu corpo. Sentia ainda o calor emanado do seu sexo enquanto o saboreava, do seu gosto peculiar, das pequenas cócegas de uma púbis aparada num triângulo de amor, dos dedos dela enterrados nos seu cabelo não o deixando desistir da consumação dos prazeres maiores. Recordava como ali era colocado como centro de atenção, deixando que ela se vagueasse por si, sentindo os contrastes de uma boca delicada, mordendo a sua pele, as suas mãos vaguearem pelo seu peito, pelos seus braços, por todo de si. Relembrava as labaredas de paixão e luxúria dos seus olhos no momento em que os corpos se encaixavam em perfeita simbiose, em que os beijos se tornavam mais fortes, em que se tornavam unos e indivisíveis, em que ondas de tortuoso prazer electrificavam os sentidos, levando-os a um êxtase profundo, seguido da acalmia de duas pessoas que apreciavam cada momento. Recordava o toque dos seios no seu peito, altivos, elegantes, comprimindo-o em abraços de loucura calma deixando o silêncio reinar num abraço dos amantes. O sexo dela ainda húmido dos prazeres recentes comprimido nas suas coxas, dando-lhe ainda o seu calor, apesar do libido satisfeito. O nariz encostado ao seu cabelo, com aroma de pêssego, sentindo nos corpos o calor daquela mesma lareira agora apagada. Poisou o copo na mesa ali ao pé de si e deixou-se literalmente cair no sofá ali por trás de si. Deixou-se inclinar sentindo uma lágrima escorrer vagarosamente pela face por barbear. Deixou-se estar de olhos fechados, deixando-se envolver pelo silêncio de um CD já parado. Na janela, as gotas continuavam e percorrer o seu caminho vagaroso, na rua, outros anónimos continuavam a correr de guarda-chuva aberto.

Ele deixou-se adormecer vencido pelo cansaço da saudade.


Lido há muito tempo…

"Ninguém avança pela vida em linha recta. Muitas vezes, não paramos nas estações indicadas no horário. Por vezes, saímos dos trilhos. Por vezes, perdemo-nos, ou levantamos voo e desaparecemos como pó. As viagens mais incríveis fazem-se às vezes sem se sair do mesmo lugar. No espaço de alguns minutos, certos indivíduos vivem aquilo que um mortal comum levaria toda a sua vida a viver. Alguns gastam um sem número de vidas no decurso da sua estadia cá em baixo. Alguns crescem como cogumelos, enquanto outros ficam inelutávelmente para trás, atolados no caminho. Aquilo que, momento a momento, se passa na vida de um homem é para sempre insondável. É absolutamente impossível que alguém conte a história toda, por muito limitado que seja o fragmento da nossa vida que decidamos tratar."

Henry Miller, in "O Mundo do Sexo"


Despedidas…

Adeus é uma palavra que não uso. Fico-me por um “Até já” ou um “Até logo”. Se a despedida for por mais tempo sai um “Até breve” ou “Até sempre”. Um adeus para mim é definitivo, é entregar a Deus, é nunca mais poder ver (porque sentir, sentimos sempre). Por isso nunca digo “Adeus”. É sempre uma palavra proibida até ter sentido.

Isto vem porque de alguma forma nos últimos tempos me tenho sentido saudoso de algumas pessoas a quem a disse. E saudoso porque foram pessoas tão mais sábias que eu, que tinham um capacidade de intuir e de aconselhar, de observar mesmo quando nada era dito, de saber sem conseguir explicar o como, que tinham palavras que tantas vezes não compreendi mas sabiam que um dia eu saberia. Hoje sei algumas, mas ainda não todas e, mesmo assim, falta-me a presença com o olhar doce e atento, protector e amigo.


Em sóis radiosos me brilham as faces, reflexos de ti e do teu tão lindo adorar.

Sou mais, sou maior porque tens a particularidade de me borrifar com hissope de vida, sou gigante porque me elevas, sou lindo porque me transformas, sou bonito porque me moldas.

És tu razão de passos, és tu, tão crescida, que mostras universos paralelos, me dás vórtices doces.

Apenas sou porque tu és…


Um fado que ouvi…

Quanto te apressas e me confessas, que está na hora

Eu não te digo, que é um castigo ver-te ir embora

Finjo que a dôr, que sei de cor, pouco me importa

Mas mal me deixas, sinto que fechas p’ra sempre a porta

Vem, não te atrases

O que fazes sem mim a esta hora?

Volta para os meus braços, eu já esperei demais

Vem não te atrases

Eu perdoo-te a demora

Se morares nos meus abraços e nunca mais me deixares

Quando tu partes, faltam-me as artes para te prender

Mas se não estás, não sou capaz de adormecer

Acendo estrelas, pelas janelas da casa fria

Mas se não chegas, sinto-me ás cegas até ser dia

Carlos do Carmo

Maria do Rosário Pedreira / Armando Augusto Freire ( Armandinho ) ( Fado Mayer )