Uma vez escrevi…

As gotas escorriam pela vidraça de forma lenta, engrossando à medida que iam descendo e incorporando novas gotas que se formavam com a chuva a bater. Ele olhava através dela para a rua mal iluminada onde raros guarda-chuvas passavam acoitando gente anónima em passo apressado. Um ou outro carro passava, fazendo-o cegar com as luzes e seus reflexos. Quando reabria os olhos, via o seu rosto reflectido na sua janela para o mundo chuvoso. Via os olhos cansados, semi-cerrados, a barba de dois dias, o cabelo grisalho penteado num risco pela direita quase perfeito. Girava um CD de um jazz calmo, quase música de elevador. Nas mãos, um copo de whisky já sem gelo derretido pelo calor das mãos. Cada gole queimava-o por dentro, na viagem vertiginosa entre a boca de lábios grossos e vermelhos e o estômago vazio. Voltou-se de costas para o mundo e no meio de mais um gole, enfrentou a lareira agora apagada. Nenhum calor dali vinha, nenhum calor estava naquela sala, sala essa testemunha de calores imensos. Ao som daquelas mesmas músicas tinha descoberto as sensações do toque da seda. Caminhando de olhos postos na lareira, aproximou-se e passou-lhe as pontas dos dedos recordando os momentos das chamas reflectidas na pele de uma mulher. À ideia vieram as memórias dela à porta esperando por ele, esperando que ele a libertasse da suas roupas e ali, naquele mesmo chão se preenchessem e esvaziassem de desejos. Ali mesmo tinha ele delicadamente despido a blusa que lhe tapava a pele, cobrindo de beijos doces a recente descoberta, deixando as mãos vaguearem por ali, perdidas, sentindo o toque suave de uma pele sedosa. Ali mesmo a tinha despojado de todas as barreiras que o separavam do seu objecto de desejos, deixando-o livre para conhecer todos os seus sabores. Recordava o aroma do seu pescoço e ombros, dedilhados de olhos fechados, marcando na sua mente todas as formas do seu físico. O sabor dos seus seios, delicadamente apreciados pela sua boca, dando-lhe o calor de um corpo que não mais era seu, abandonado aos desejos dela. Ali mesmo recordava o toque na sua barriga, que a fazia arfar de desejos e pedidos de continuação dos prazeres previstos, pedindo-lhe que não parasse no seu caminho de descoberta do seu corpo. Sentia ainda o calor emanado do seu sexo enquanto o saboreava, do seu gosto peculiar, das pequenas cócegas de uma púbis aparada num triângulo de amor, dos dedos dela enterrados nos seu cabelo não o deixando desistir da consumação dos prazeres maiores. Recordava como ali era colocado como centro de atenção, deixando que ela se vagueasse por si, sentindo os contrastes de uma boca delicada, mordendo a sua pele, as suas mãos vaguearem pelo seu peito, pelos seus braços, por todo de si. Relembrava as labaredas de paixão e luxúria dos seus olhos no momento em que os corpos se encaixavam em perfeita simbiose, em que os beijos se tornavam mais fortes, em que se tornavam unos e indivisíveis, em que ondas de tortuoso prazer electrificavam os sentidos, levando-os a um êxtase profundo, seguido da acalmia de duas pessoas que apreciavam cada momento. Recordava o toque dos seios no seu peito, altivos, elegantes, comprimindo-o em abraços de loucura calma deixando o silêncio reinar num abraço dos amantes. O sexo dela ainda húmido dos prazeres recentes comprimido nas suas coxas, dando-lhe ainda o seu calor, apesar do libido satisfeito. O nariz encostado ao seu cabelo, com aroma de pêssego, sentindo nos corpos o calor daquela mesma lareira agora apagada. Poisou o copo na mesa ali ao pé de si e deixou-se literalmente cair no sofá ali por trás de si. Deixou-se inclinar sentindo uma lágrima escorrer vagarosamente pela face por barbear. Deixou-se estar de olhos fechados, deixando-se envolver pelo silêncio de um CD já parado. Na janela, as gotas continuavam e percorrer o seu caminho vagaroso, na rua, outros anónimos continuavam a correr de guarda-chuva aberto.

Ele deixou-se adormecer vencido pelo cansaço da saudade.

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4 responses to “Uma vez escrevi…

  • Princesa Canela

    A saudade é ingrata e cansa, a culpa é da idiota da memória, que consome em fogo só o que o que escolhe, só o que arde.

  • Francisco

    Mas só sentimos saudade do que amamos…

  • Francisco

    Amar nunca é um erro.
    O AMOR (assim mesmo, escrito em maiúsculas) é algo que não considero um erro. Como tudo, faz parte de uma dualidade. Há a vida e a morte, a cara e a coroa, o ying e o yang e há o AMOR e a dor. Dor de não sermos replicados, dor de saudade, dor do impossível…
    Mas não é errado amar, faz-nos maiores, faz-nos melhores, faz-nos voar e quando amamos, fazemo-lo incondicionalmente, que o AMOR não tem condições. Amamos e nada mais, entregamo-nos de corpo e alma e nada mais importa.
    Mas amar nunca é um erro.

    Não amar é que é um erro dos maiores que podemos comenter…

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