Monthly Archives: Março 2010

O pequeno sismo…

Há um pequeno sismo em qualquer parte
ao dizeres o meu nome.
Elevas-me à altura da tua boca
lentamente
para não me desfolhares.
Tremo como se tivera
quinze anos e toda a terra
fosse leve.
Ó indizível primavera!

Eugénio de Andrade

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Saudades

A saudade é um sentimento que de tão forte, a sentimos como amputação de nós mesmos. É um membro que nos falta, um pedaço vital de nós que anda longe demais.

E tenho tantas saudades tuas…


Gosto muito de ti…

Sabes, gosto mesmo muito de ti. Ao longo de todo este tempo, que apesar de pouco parecem anos e anos, conheci-te a gostei de ti desde o primeiro instante. Hoje sei-te de olhos fechados. Já vi a cor do teu sorriso e já conheci o sabor das tuas lágrimas. Já te senti a pele e já te li o olhar. Amei-te mesmo numa distância forçada e prometi-te a minha eterna presença. Estarei sempre, mesmo que a minha voz não me faça ouvir ou as minhas letras não te cheguem. Estou contigo, sempre, porque

Gosto muito de ti.

Aprendi que devemos dizer sempre o que nos vai na alma. Liberta-nos. Faço por isso, seja expor o que sinto na urgência de te ter, seja no simples lembrar que há saudade. Escrevi-te tanto, algumas das coisas que melhor me sairam das pontas dos dedos. Pintei-te também, tive a graça de te imortalizar a generosidade em fotogramas coloridos e nem tanto. Provei tantos sabores novos, tantas cores me ofuscaram, tanto sol me entrou pela alma dentro. E não me canso de repetir,

Gosto muito de ti.

Reclamámos que o tempo e o espaço não é este, que não é agora, que talvez nunca seja. Aguentámos provações provocadas, momentos de delícia adiados até Deus sabe quando, cedemos às urgências dos agoras, fomos e somos felizes. Digo que vale a pena ter vivido por cada um desses instantes deliciosamente apreciados porque,

Gosto muito de ti.

E gostarei sempre e escreverei sempre e lembrarei sempre e amarei sempre. Mesmo quando vá reler e re-ouvir tanto e tanto que partilhámos, trazendo dolorosa saudade, mesmo que os olhos me vão trair num momento menos próprio, estarei sempre contigo porque,

Gosto muito de ti.

Percorri contigo caminhos, não te deixei sozinha em momentos mais sós, não me deixaste a mim em momentos meus. Agradeço a honra, a partilha, o tanto que me vais dando, que me enche a alma de júbilo e as faces de sorriso quase envergonhado e embevecido. Olho-os e enches-me de orgulho e cada uma dessas coisas faz-me dizer com mais força ainda.

Gosto muito de ti.

…e sei que gostarei e estarei sempre.


O presente não existe

Tarde morna, com cheiros adocicados de perfumes que se desprendem das flores primaveris que desabrocharam aos primeiros raios de sol, que agora se deita num horizonte longínquo. A terra mole de chuvas ressentes, em que se afundam os passos saltitantes na procura do cascalho salvador, que range sob o peso do corpo que o pisa e a água sempre presente na correria que ainda é muita, em burburinhos dos agasalhos às pedras esverdeadas que lhe ladeiam o trilho. Ouve-se ao longe o grito angustiante de um comboio que vem em esforço de carregar olhares perdidos pelas janelas sujas, olhos sem brilho de almas presas. Sente-se o vento na passagem, o odor do diesel, do ferro quente da fricção com mais ferro, até de novo ao vazio e de novo ao longe soar o silvo angustiado numa qualquer curva mais apertada.

Volta o silêncio, que o riacho não é barulho, volta o perfume, que o diesel já é passado. Desencosta-se da pedra fria e húmida e volta-se ao caminho, de mão estendida a nada, que o tudo não está lá, de dedos abertos sentindo a brisa passar, feita no passo vagaroso do caminhar. Olhar vazio pelo horizonte pintado a azul e laranjas, num presente que não existe, vida sustida na respiração dos passados sonhadores de outros futuros.

Range a gravilha a cada passada lenta, range o mundo por cada segundo que se ouve bater dentro do cabeça que não descansa. Os lábios que desfiam uma ladainha surda, misto de prece e de desejo, em nome repetido à exaustão, como se isso lhe trouxesse o pleno para lhe agarrar a mão cheia de coisa alguma.

Volta no caminho que se faz tarde, volta para o mesmo de ontem, o mesmo de um amanhã que ainda não chegou e rapidamente será um novo ontem, num tempo que passa sem piedade. De pouco adiantam as súplicas para que pare, para que não ande, para que eternamente se afirme na figura que os olhos vêem no vazio que está à sua frente. De mãos estendidas tocam no rosto que não está, descem o corpo que não se acha, pegam nas mãos que não encontram até deixar que a realidade de novo irrompa pelo peito, lhe suba à garganta que aperta em nó lhe fuja à boca em grito desesperado. Grita até a garganta lhe escorrer sangue, berra até o eco ficar afónico, brada até sentir as veias do pescoço latejarem em pressão, de punhos cerrados, de costas curvas até o peito bater nos joelhos.

Passo difícil o primeiro, e o segundo, e o terceiro, em torpor cambaleante. Volta-se ao caminho no retorno a um futuro igual a um passado, num presente que não existe.


The buffoon…

Some times, it only misses the rattles in the ridiculous hat…


Pensamentos…

Num ou noutro dia, pensa-se que quando se começa a escrever (coisa que adoro fazer, nunca com arte e poucas vezes com engenho), devia ser punido “Las Vegas way”…


O Apaixonado

Luas, marfins, instrumentos e rosas,
Traços de Dúrer, lampiões austeros,
Nove algarismos e o cambiante zero,
Devo fingir que existem essas coisas.
Fingir que no passado aconteceram
Persépolis e Roma e que uma areia
Subtil mediu a sorte dessa ameia
Que os séculos de ferro desfizeram.
Devo fingir as armas e a pira
Da epopeia e os pesados mares
Que corroem da terra os vãos pilares.
Devo fingir que há outros. É mentira.
Só tu existes. Minha desventura,
Minha ventura, inesgotável, pura.

Jorge Luis Borges, in “História da Noite”