O presente não existe

Tarde morna, com cheiros adocicados de perfumes que se desprendem das flores primaveris que desabrocharam aos primeiros raios de sol, que agora se deita num horizonte longínquo. A terra mole de chuvas ressentes, em que se afundam os passos saltitantes na procura do cascalho salvador, que range sob o peso do corpo que o pisa e a água sempre presente na correria que ainda é muita, em burburinhos dos agasalhos às pedras esverdeadas que lhe ladeiam o trilho. Ouve-se ao longe o grito angustiante de um comboio que vem em esforço de carregar olhares perdidos pelas janelas sujas, olhos sem brilho de almas presas. Sente-se o vento na passagem, o odor do diesel, do ferro quente da fricção com mais ferro, até de novo ao vazio e de novo ao longe soar o silvo angustiado numa qualquer curva mais apertada.

Volta o silêncio, que o riacho não é barulho, volta o perfume, que o diesel já é passado. Desencosta-se da pedra fria e húmida e volta-se ao caminho, de mão estendida a nada, que o tudo não está lá, de dedos abertos sentindo a brisa passar, feita no passo vagaroso do caminhar. Olhar vazio pelo horizonte pintado a azul e laranjas, num presente que não existe, vida sustida na respiração dos passados sonhadores de outros futuros.

Range a gravilha a cada passada lenta, range o mundo por cada segundo que se ouve bater dentro do cabeça que não descansa. Os lábios que desfiam uma ladainha surda, misto de prece e de desejo, em nome repetido à exaustão, como se isso lhe trouxesse o pleno para lhe agarrar a mão cheia de coisa alguma.

Volta no caminho que se faz tarde, volta para o mesmo de ontem, o mesmo de um amanhã que ainda não chegou e rapidamente será um novo ontem, num tempo que passa sem piedade. De pouco adiantam as súplicas para que pare, para que não ande, para que eternamente se afirme na figura que os olhos vêem no vazio que está à sua frente. De mãos estendidas tocam no rosto que não está, descem o corpo que não se acha, pegam nas mãos que não encontram até deixar que a realidade de novo irrompa pelo peito, lhe suba à garganta que aperta em nó lhe fuja à boca em grito desesperado. Grita até a garganta lhe escorrer sangue, berra até o eco ficar afónico, brada até sentir as veias do pescoço latejarem em pressão, de punhos cerrados, de costas curvas até o peito bater nos joelhos.

Passo difícil o primeiro, e o segundo, e o terceiro, em torpor cambaleante. Volta-se ao caminho no retorno a um futuro igual a um passado, num presente que não existe.

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