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Poema de Amor: Carta (Esboço) – Nuno Júdice

 Lembro-me agora que tenho de marcar um

 encontro contigo, num sítio em que ambos

 nos possamos falar, de facto, sem que nenhuma

 das ocorrências da vida venha

 interferir no que temos para nos dizer. Muitas

 vezes me lembrei de que esse sítio podia

 ser, até, um lugar sem nada de especial,

 como um canto de café, em frente de um espelho

 que poderia servir de pretexto

 para reflectir a alma, a impressão da tarde,

 o último estertor do dia antes de nos despedirmos,

 quando é preciso encontrar uma fórmula que

 disfarce o que, afinal, não conseguimos dizer. É

 que o amor nem sempre é uma palavra de uso,

 aquela que permite a passagem à comunicação;

 mais exacta de dois seres, a não ser que nos fale,

 de súbito, o sentido da despedida, e que cada um de nós

 leve, consigo, o outro, deixando atrás de si o próprio

 ser, como se uma troca de almas fosse possível

 neste mundo. Então, é natural que voltes atrás e

 me peças: «Vem comigo!», e devo dizer-te que muitas

 vezes pensei em fazer isso mesmo, mas era tarde,

 isto é, a porta tinha-se fechado até outro

 dia, que é aquele que acaba por nunca chegar, e então

 as palavras caem no vazio, como se nunca tivessem

 sido pensadas. No entanto, ao escrever-te para marcar

 um encontro contigo, sei que é irremediável o que temos

 para dizer um ao outro: a confissão mais exacta, que

 é também a mais absurda, de um sentimento; e, por

 trás disso, a certeza de que o mundo há-de ser outro no dia

 seguinte, como se o amor, de facto, pudesse mudar as cores

 do céu, do mar, da terra, e do próprio dia em que nos vamos

 encontrar, que há-de ser um dia azul, de verão, em que

 o vento poderá soprar do norte, como se fosse daí

 que viessem, nesta altura, as coisas mais precisas,

 que são as nossas: o verde das folhas e o amarelo

 das pétalas, o vermelho do sol e o branco dos muros.

 Nuno Júdice, in “Poesia Reunida”


Num dia soalheiro, daqueles em que o sol amorna a pele da cara e a pincela em tons alaranjados, em passos temerosos e forçados saboreia pela primeira vez o primaveril viver de um novo dia. Sente na ponta dos dedos que tacteiam a saída o quente doce e reconfortante de um amanhecer diferente, poupando os olhos habituados à escuridão ao deslumbre de pasmar que lhe surge em segredo. Com o corpo tremendo, em misto de medo e ânsia, eis que surge diante dos olhos semicerrados uma invasão de cores e aromas em campo extenso e florido. Sente sob os seus pés o manto delicado de um relvado polvilhado as gotículas de água espelhantes, que à passagem dos pés se escorrem em finos fios reluzentes prata de brilho intenso como olhos lacrimejantes, como os seus que se habituam à luz. Passo inseguro deixando que a palma da mão vá sentindo o gentil roçar dos arbustos de seu tamanho. Segue como que conduzindo por mão invisível que o seduz num andejar solto. Descansa nas sombras dos salgueiros, cheira as folhas dos abetos e os lírios selvagens. Inspira em profundo, ouve ao longe o gotejar choroso do riacho que corre devagar no empedrado selvagem que lhe corta o caminho. Molha as mãos e a cara, bebe-a fresca sente-lhe o sabor à terra que aquece.

Caminha no que lhe parece ser a eternidade, caminha sem destino, passa ao lado do canavial recheado de coaxares musicais, da tília de casca marcada pelo tempo.

Num susto reconhece o círculo que acaba de fazer. Reconhece o breu de onde veio, as paredes que há tão pouco descobria na ponta dos dedos.

Num último relance, olha a primavera, o espaço e o tempo que foi seu, grava-se de sol e ar, enche o peito e fecha os olhos.

Em passo lento volta ao seu escuro, frio e sujo lugar, deixando os dedos passearem pela rocha cortante e negra. Em passo lento volta a sua casa…



8 September, 2010 08:25

No cacimbo matinal, fresco e envolvente, transportador dos cheiros outonais a terra húmida e rasteiros incendiados, o nascer de uma nova maratona.


Finalmente os negros, cinzentos. Finalmente se aproxima o meu tempo, o meu lugar…