Num dia soalheiro, daqueles em que o sol amorna a pele da cara e a pincela em tons alaranjados, em passos temerosos e forçados saboreia pela primeira vez o primaveril viver de um novo dia. Sente na ponta dos dedos que tacteiam a saída o quente doce e reconfortante de um amanhecer diferente, poupando os olhos habituados à escuridão ao deslumbre de pasmar que lhe surge em segredo. Com o corpo tremendo, em misto de medo e ânsia, eis que surge diante dos olhos semicerrados uma invasão de cores e aromas em campo extenso e florido. Sente sob os seus pés o manto delicado de um relvado polvilhado as gotículas de água espelhantes, que à passagem dos pés se escorrem em finos fios reluzentes prata de brilho intenso como olhos lacrimejantes, como os seus que se habituam à luz. Passo inseguro deixando que a palma da mão vá sentindo o gentil roçar dos arbustos de seu tamanho. Segue como que conduzindo por mão invisível que o seduz num andejar solto. Descansa nas sombras dos salgueiros, cheira as folhas dos abetos e os lírios selvagens. Inspira em profundo, ouve ao longe o gotejar choroso do riacho que corre devagar no empedrado selvagem que lhe corta o caminho. Molha as mãos e a cara, bebe-a fresca sente-lhe o sabor à terra que aquece.

Caminha no que lhe parece ser a eternidade, caminha sem destino, passa ao lado do canavial recheado de coaxares musicais, da tília de casca marcada pelo tempo.

Num susto reconhece o círculo que acaba de fazer. Reconhece o breu de onde veio, as paredes que há tão pouco descobria na ponta dos dedos.

Num último relance, olha a primavera, o espaço e o tempo que foi seu, grava-se de sol e ar, enche o peito e fecha os olhos.

Em passo lento volta ao seu escuro, frio e sujo lugar, deixando os dedos passearem pela rocha cortante e negra. Em passo lento volta a sua casa…

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6 responses to “

  • Teresa

    Olá meu tão querido Francisco.
    Gosto da primavera, desse tempo de energias fortes antigas e forças telúricas que movem a terra e os bichos a criar e efervescer. Mas a vida acontece num ciclo de estações, onde havemos de nos rever e recriar-nos, clonado no nosso calendário de percurso os seus compassos de amadurecimento, caducidade e pousio.
    Mas ao ler-te pensava que é legítimo e urgente como pão para a boca, querer mais ou diferente, e desengastar o metrónomo e deixa-lo seguir em fúria e quem sabe num acto mágico , desafiar e intercalar estações e enfiar Maio em Dezembro.

  • dulcineia

    Força, amigo! Não te deixes ir abaixo…

  • Francisco

    Olá doce Teresa.
    Bem dizes que o ciclos abrem e fecham, sem direito a “repeat” ou mesmo um “loop”. Numa frase conhecida resume-se a um “é a vida…”. Mas há momento sim, em que o desafio se tenta concretizar. Depende apenas de nós e das sortes…

  • Francisco

    Grato Dulcineia

  • Ventania

    Um dia de Inverno assoma-se a vontade de mergulhar no riacho gelado e deixa-se levar pela corrente até ao ponto em que tudo está ainda por acontecer.

  • Francisco

    É um facto Ventania. Mais, diria mesmo que a vontade existe de deixar-se levar pela corrente ponto final.

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