Monthly Archives: Janeiro 2011

Ainda sonho.

Normalmente recostado na cadeira ou encostado ao parapeito de um janela, ainda sonho. Invariavelmente surge um click! para a chama que incendeia um cigarro naquele desejo kafkiano de ser fumo e esvoaçar pelo éter.

Sim, ainda sonho.

Menos, bastante menos.

Mas ainda vou voando por aí, imaginando sentidos impossíveis, gostos inalcançáveis e palavras irreptíveis. Ainda me deixo embevecer por olhares ternurentos que não são mais que fotogramas de dias que já lá vão longe.

Demasiado longe para o que se quer mas ainda tão perto que dão um aperto no peito de os lembrar. Os olhos caídos para o colo, em jeito de vergonha, vendo as mãos juntas sobre as coxas, como se isso fosse travar alguma coisa, para se levantarem depois em direcção ao horizonte, quase implorando pela força de resistir ao frémito que avança sem pudor ou licença e faz chegar um rubor quase imperceptível na pele morena. Os cabelos escuros e escorridos que à força de brisas não dão descanso à boca que os vai engolindo, forçando os dedos finos a se lançarem num agarrar que para quem olha se deseja à velocidade frame a frame, e delicadamente, e repetidamente, os acomodar por detrás da orelha. Rebeldes que não se ficam e repetem-se à exaustão obrigando ao gesto vezes incontáveis.

Mas a cada um deles, sempre o mesmo gosto de observar, porque a cada vez há mais qualquer coisa que se nota, que se observa. Mas rapidamente os olhos voltam aos lábios curvos de um sorriso que derrete, um queixo forte mas delicado, um pescoço delineado e fino…

Entretanto apaga-se o cigarro, o fumo desaparece e a realidade bate em choque. Volta-se à existência terrena à velocidade de um salto quântico entre universos paralelos.

Esmaga-se a ponta de um cigarro como se maldito fosse sonhar.


20 January, 2011 21:36

Admira-me ainda como é possível que pessoas sejam conhecidas sem se conhecerem profundamente após anos e anos. A cegueira e a pouca ginástica de mentalidades pobres e, pior que tudo, com muito pouca vontade de ser melhor, dão-me arrepios e fazem-me pensar no quanto tantas vezes deslocado estou. Esforços que cada vez mais julgo inglórios, esgotam-me a vontade de ser melhor. Fui comodista, reconheço. Hoje sou mais indiferente, o que não é necessariamente melhor.


20 January, 2011 15:40

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Serenei envolto em capa de ternura…


17 January, 2011 23:52

“Cheira aquilo a que os anjos devem cheirar…”


16 January, 2011 18:18

E num momento de pura loucura, todo desaba por debaixo dos pés e flutua-se como se o mundo se oblitera-se em explosões estupidamente coloridas.



Que a força do medo que tenho
Não me impeça de ver o que anseio

Que a morte de tudo em que acredito
Não me tape os ouvidos e a boca
Porque metade de mim é o que eu grito
Mas a outra metade é silêncio.

Que a música que ouço ao longe
Seja linda ainda que tristeza
Que a mulher que eu amo seja pra sempre amada
Mesmo que distante
Porque metade de mim é partida
Mas a outra metade é saudade.

Que as palavras que eu falo
Não sejam ouvidas como prece e nem repetidas com fervor
Apenas respeitadas
Como a única coisa que resta a um homem inundado de sentimentos
Porque metade de mim é o que ouço
Mas a outra metade é o que calo.

Que essa minha vontade de ir embora
Se transforme na calma e na paz que eu mereço
Que essa tensão que me corrói por dentro
Seja um dia recompensada
Porque metade de mim é o que eu penso mas a outra metade é um vulcão.

Que o medo da solidão se afaste, e que o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável.

Que o espelho reflita em meu rosto um doce sorriso
Que eu me lembro ter dado na infância
Por que metade de mim é a lembrança do que fui
A outra metade eu não sei.

Que não seja preciso mais do que uma simples alegria
Pra me fazer aquietar o espírito
E que o teu silêncio me fale cada vez mais
Porque metade de mim é abrigo
Mas a outra metade é cansaço.

Que a arte nos aponte uma resposta
Mesmo que ela não saiba
E que ninguém a tente complicar
Porque é preciso simplicidade pra fazê-la florescer
Porque metade de mim é platéia
E a outra metade é canção.

E que a minha loucura seja perdoada
Porque metade de mim é amor
E a outra metade também.

Metade
Oswaldo Montenegro

(Pode-se ouvir aqui)