Cálice

Passos certos sem eco fazem roçar os corpos encostados trazendo um murmúrio de roupa que se fricciona. A parede fria impede mais  avanço sem que os olhos se deixem de fitar por um momento que seja. Os lábios sempre suficientemente próximos para que se sinta um arfar antecipativo, mas sem se tocarem, aumentado a expectativa de um qualquer seguinte.

Levantam-se as mãos acima da cabeça e prendem-se aí, deixando que uma outra desça vagarosamente pelo braço ligeiramente dobrado. Quase que se tem o sabor da boca entreaberta, de lábios secos que a língua teima em humedecer sem sucesso.

Passa pelo peito, tocando de ligeiro no seio que sobressalta, fazendo intumescer o peito e desenhar a forma desejosa de atenção e pára no torso sentindo com ligeireza as suaves curvas das costelas, deixando os dedos espalmar-se às costas. Sente-se o côncavo em que se forma o corpo que se lança em frente como se um choque eléctrico tivesse passado dos dedos à pele e o respirar suspenso aguardando pelo passo seguinte.

Abrem-se os olhos de súplica pelo continuar mas o boca abre para renegar o que o corpo clama. De pulsos ainda seguros, deixa que o dedo indicador se coloque em frente dos lábios entreabertos  não deixando que qualquer som por eles sibile. Quando seguro de tal, desce pelo queixo, deixando desenhar arabescos invisíveis, passa pelo queixo levantado, desce pelo pescoço arrancando suspiros de uma garganta rouca, invade a pele morena de um peito descoberto por um qualquer decote, segue a linha dos botões ainda nos seus lugares, parando apenas quando uma cintura lhe trava o caminho.

Aproximam-se os lábios secos e tocam-se, primeiro num toque fugidio, como se casual fosse, sentindo como ficam colados e a custo se apartam. Depois, abertos, deixam passar as língua que se tocam em baile compassado, sentindo cada pequeno gosto que se redescobre num beijo lento e saboreado, deixando a saliva misturar-se, sentindo-lhe o espesso e o sabor que preenche.

Cai-se de joelhos em terra, quase em estrondo, deixado os pulsos até ora presos ao sabor do seu apetecer. Juntam-se as mãos às coxas que apertam e, de olhos fechados, deixam-se escorregar mais um pouco até encontrarem de novo pele. Resgata-se à escuridão todo o resto de pele até que se deixa as narinas abrirem-se ao máximo e aspira-se o perfume que lhe emana com naturalidade.

A face encosta-se à agora despida coxa, sente-se o toque acetinado, e ainda o aroma que vai enchendo todo o cérebro, deixando-o à deriva, como que drogado. Vagueiam mãos cheias pelo corpo, tocando cada e qualquer milímetro descoberto ou ainda por descobrir.

Por fim, contempla-se o cálice, conhecendo cada elemento, cada cheiro, cada reflexo da fraca luz na derme dando-lhe incandescência, vida, fogosidade.

Toma-se-lhe o sabor, devagar, deixando que o estremecimento do corpo se reproduza em vagas até se libertar em gemido. Insiste-se até nova vaga florescer e expandir.

Sente-se na apoteose o urro que nasce no peito em suplica pela libertação, o esgar da energia que se liberta, no tremer das  pernas que mal se sustêm e que deixam cair também em joelhos.

Face a face, em arfar desmedido, olhos nos olhos, sente-se o abraço que se aperta e as bocas que de novo se juntam até os corpos cansados tombarem sem ruído no chão frio.

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2 responses to “Cálice

  • Phoebe

    Colada, como voyer a um telescópio…
    🙂

  • Francisco

    Também de cola se fizeram as palavras, daquela que o tempo não enfraquece, que juntas apenas se dignam tentar ilustrar (vã tentativa, diria eu na minha ínfima sabedoria) a beleza singela de um acto terno. Com cola se deseja que seja a toma de um cálice pretendido, com o voyerismo muito próprio de uma primeira pessoa que sente…

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