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Voltas?

-Voltas?

– Não sei…

Os olhos penderam até ao chão poeirento, onde um sapato quase castanho pela fina camada de pó esboroava um torrão de terra de tal forma que parecia esgaçar as pétalas de um flor.

– Talvez um dia, no teus sonhos…

As palavras ecoaram num qualquer fundo perdido, como se o som viesse de um abismo e apenas lhe chegasse um eco fraco. Apenas o “Não sei…” continuava nítido como se acabado de proferir.

Sentiu os dedos enlaçarem-se no seus e puxá-lo para um abraço e deixou-se ir, lentamente, sentindo como as mãos escorregavam pelo cimo das suas costas espalmadas até se cruzarem e acabarem nos ombros, ao mesmo tempo que a face roçava pela sua até poisar no ombro direito.

Os cabelos soltos tão perto do nariz fez fechar os olhos e vaguear enquanto os seus próprios braços a enlaçavam num abraço forte. Sentia-lhe o calor que repassava pela roupa solta e quase que jurava que lhe sentia o coração bater no peito. Ou seria o seu? A verdade é que sentia o latejar das veias no pescoço fruto da tentativa, até ao momento frutífera, de não deixar cair as lágrimas que já se perfilavam à muito para correr.

Deixou os lábios poisarem na cabeça dela, depositando aí um beijo carinhoso.

Afastando-se do peito dela, puxou-lhe a cara com ambas as mãos para a sua frente. O cabelo à frente dos olhos e as faces enrugadas pelas mãos que as seguravam fizeram-lhe nascer um sorriso.

Gosto de te ver sorrir – diz-lhe. Iluminas…

Os olhos dela baixaram até ao peito e ai deixou um pequeno e sonoro beijo.

– És meu? – Perguntou-lhe ela.

Novamente a puxa ao peito enlaçando-a pelo pescoço e de queixo pousado na sua cabeça para que não lhe visse os olhos responde:

-Sempre. Mesmo que apenas voltes nos sonhos… 


De filacteras ao esparregado*

Olhava para o prato com os talheres cruzados, pegava na faca e raspava os rebordos escaricados do prato, riscava- o em ponto de rebuçado afastando em dois o mar de esparregado deixando entrever uma pata do cavalinho, o último dos que restava do serviço da casa da avó.

Lembrava-se da açorda doce a escaldar e de empastar os desenhos a papa. Estranho este sabor que detestava por oposição às migas em cevada doce que adorava sem deixar tingir o fundo. Sempre gostara de escultura. Gostava daquelas semi orgânicas que surgiam castanhas feitas de areia líquida, molhada e espremida em raízes e troncos e veias. Daí para o papo seco de manteiga com açucar que rilhava nos dentes ao trincar foi uma viagem rápida. Por alguma razão o cheiro, associava-o sempre ao dos produtos de lavandaria a seco e daqui ao lustro que detestava ver junto aos bolsos, braguilha as e vincos das calças.

Gostava de subir às pedras, das grandes . Sentir-se maior no perder de vista do horizonte, mesmo que com nuvens baixas a adivinhar chuva e vento frio que fazia balouçar como vela enfunada ao capricho do sopro. As mãos inquietas faziam tinir a ponta da faca em diapasão na cerâmica gasta, com jeito burlesco de boca a acompanhar. A imagem do verde em estrada deixando antever o azul fidalgo era limitativo da náusea.

Em mais uma ligação, sentiu falta do cheiro da madeira carunchada, das páginas de um livro velho e do ruído das chinelas a acompanhar o virar das folhas que lia às escondidas da criada da casa, (de que quem gostava de sentir o cheiro e olhar as carnes e refegos), aqueles fascículos das fotonovelas que ela guardava também dos senhores. Eram revistas em banda- fotográfica. Homens dominadores carregados de testosterona e raparigas submissas em não tão ingénua sedução. Tramas com vilão e mocinha, que folheava e guardava frases “Toma, lambe, chupa” que ela levava a ressoar em eco para manobrar a solo o entusiasmo debaixo do lençol num ranger suave das molas e roçar de pano na pele. Sabia-o porque a ouvia ofegar mais rápido. Isto acontecia às vezes, quando dizia ter medo do escuro e ela o levava para junto dele e o julgava dormir ferrado. Lembrava-se do som dos dedos roçando as penugens íntimas mal aparadas quando, em suspenso do respirar, se deixava estar por entre mantas. De manhã, ele olhava depois as carnes e refegos que fazia roçar em si engalanadas a filacteras: “toma, lambe, chupa”…

De como ficava espalmado no intervalo do aparador com a parede de pedra escura, sossegado para que as tábuas do soalho não lhe denunciassem a presença, vendo-a de joelhos encerar afincadamente o chão, fazendo balançar a saia rodada e florida que, ocasionalmente, subia e lhe dava a visão das coxas grossas que tinha sentido perto na noite anterior.

Olhando com mais atenção, reparava como o desenho no seu prato se tinha tornado figurativo das lembranças, dando a pata do cavalinho a ideia da protuberância imaginada.

*Com inestimável contribuição da Phoebe 

 

Imagem retirada daqui.

 

 

 


Há uma terra chamada Lalalix…

Lampejo que desce do céu escuro até à terra que o engole, ávida de energia. Onde de choque que levanta cada pequena penugem do cachaço…

Ai… 


Cálice

Passos certos sem eco fazem roçar os corpos encostados trazendo um murmúrio de roupa que se fricciona. A parede fria impede mais  avanço sem que os olhos se deixem de fitar por um momento que seja. Os lábios sempre suficientemente próximos para que se sinta um arfar antecipativo, mas sem se tocarem, aumentado a expectativa de um qualquer seguinte.

Levantam-se as mãos acima da cabeça e prendem-se aí, deixando que uma outra desça vagarosamente pelo braço ligeiramente dobrado. Quase que se tem o sabor da boca entreaberta, de lábios secos que a língua teima em humedecer sem sucesso.

Passa pelo peito, tocando de ligeiro no seio que sobressalta, fazendo intumescer o peito e desenhar a forma desejosa de atenção e pára no torso sentindo com ligeireza as suaves curvas das costelas, deixando os dedos espalmar-se às costas. Sente-se o côncavo em que se forma o corpo que se lança em frente como se um choque eléctrico tivesse passado dos dedos à pele e o respirar suspenso aguardando pelo passo seguinte.

Abrem-se os olhos de súplica pelo continuar mas o boca abre para renegar o que o corpo clama. De pulsos ainda seguros, deixa que o dedo indicador se coloque em frente dos lábios entreabertos  não deixando que qualquer som por eles sibile. Quando seguro de tal, desce pelo queixo, deixando desenhar arabescos invisíveis, passa pelo queixo levantado, desce pelo pescoço arrancando suspiros de uma garganta rouca, invade a pele morena de um peito descoberto por um qualquer decote, segue a linha dos botões ainda nos seus lugares, parando apenas quando uma cintura lhe trava o caminho.

Aproximam-se os lábios secos e tocam-se, primeiro num toque fugidio, como se casual fosse, sentindo como ficam colados e a custo se apartam. Depois, abertos, deixam passar as língua que se tocam em baile compassado, sentindo cada pequeno gosto que se redescobre num beijo lento e saboreado, deixando a saliva misturar-se, sentindo-lhe o espesso e o sabor que preenche.

Cai-se de joelhos em terra, quase em estrondo, deixado os pulsos até ora presos ao sabor do seu apetecer. Juntam-se as mãos às coxas que apertam e, de olhos fechados, deixam-se escorregar mais um pouco até encontrarem de novo pele. Resgata-se à escuridão todo o resto de pele até que se deixa as narinas abrirem-se ao máximo e aspira-se o perfume que lhe emana com naturalidade.

A face encosta-se à agora despida coxa, sente-se o toque acetinado, e ainda o aroma que vai enchendo todo o cérebro, deixando-o à deriva, como que drogado. Vagueiam mãos cheias pelo corpo, tocando cada e qualquer milímetro descoberto ou ainda por descobrir.

Por fim, contempla-se o cálice, conhecendo cada elemento, cada cheiro, cada reflexo da fraca luz na derme dando-lhe incandescência, vida, fogosidade.

Toma-se-lhe o sabor, devagar, deixando que o estremecimento do corpo se reproduza em vagas até se libertar em gemido. Insiste-se até nova vaga florescer e expandir.

Sente-se na apoteose o urro que nasce no peito em suplica pela libertação, o esgar da energia que se liberta, no tremer das  pernas que mal se sustêm e que deixam cair também em joelhos.

Face a face, em arfar desmedido, olhos nos olhos, sente-se o abraço que se aperta e as bocas que de novo se juntam até os corpos cansados tombarem sem ruído no chão frio.


Há algum tempo,

que parece que foi ontem, dei por mim rendido às primeira letras de alguém que,  apesar de desconhecido, me cativou à primeira leitura. Escrita algo rendilhada, cheia de subtilezas que não compreendia à primeira. Obrigava-me a ler e a reler, a pensar, a ficar em leitura partida para compreender o todo. Cativou-me à primeira e não mais larguei. A cada passo queria mais e mais rendido fui ficando. O tempo passou e admiração cresceu na medida do conhecimento. Tive a honra de conhecer alguns dos seus escritos na privacidade que os tinha, roendo-me por dentro por não os mostrar ao mundo.

Hoje estão livres para quem os quiser conhecer.

Hoje tenho o prazer imenso e a honra de colocar na minha lista ao lado, mas não podia deixar aqui, escrito e proclamado, o quanto bom te ler é.


Num dia soalheiro, daqueles em que o sol amorna a pele da cara e a pincela em tons alaranjados, em passos temerosos e forçados saboreia pela primeira vez o primaveril viver de um novo dia. Sente na ponta dos dedos que tacteiam a saída o quente doce e reconfortante de um amanhecer diferente, poupando os olhos habituados à escuridão ao deslumbre de pasmar que lhe surge em segredo. Com o corpo tremendo, em misto de medo e ânsia, eis que surge diante dos olhos semicerrados uma invasão de cores e aromas em campo extenso e florido. Sente sob os seus pés o manto delicado de um relvado polvilhado as gotículas de água espelhantes, que à passagem dos pés se escorrem em finos fios reluzentes prata de brilho intenso como olhos lacrimejantes, como os seus que se habituam à luz. Passo inseguro deixando que a palma da mão vá sentindo o gentil roçar dos arbustos de seu tamanho. Segue como que conduzindo por mão invisível que o seduz num andejar solto. Descansa nas sombras dos salgueiros, cheira as folhas dos abetos e os lírios selvagens. Inspira em profundo, ouve ao longe o gotejar choroso do riacho que corre devagar no empedrado selvagem que lhe corta o caminho. Molha as mãos e a cara, bebe-a fresca sente-lhe o sabor à terra que aquece.

Caminha no que lhe parece ser a eternidade, caminha sem destino, passa ao lado do canavial recheado de coaxares musicais, da tília de casca marcada pelo tempo.

Num susto reconhece o círculo que acaba de fazer. Reconhece o breu de onde veio, as paredes que há tão pouco descobria na ponta dos dedos.

Num último relance, olha a primavera, o espaço e o tempo que foi seu, grava-se de sol e ar, enche o peito e fecha os olhos.

Em passo lento volta ao seu escuro, frio e sujo lugar, deixando os dedos passearem pela rocha cortante e negra. Em passo lento volta a sua casa…


Navegando nos dias

Navegando nos dias, voando em nuvens coladas a cuspo, na tentativa de suster o peso dos castelos construídos.