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A jovem deusa passa

Com véus discretos sobre a virgindade;

Olha e não olha, como a mocidade;

E um jovem deus pressente aquela graça.

Depois, a vide do desejo enlaça

Numa só volta a dupla divindade;

E os jovens deuses abrem-se à verdade,

Sedentos de beber na mesma taça.

É um vinho amargo que lhes cresta a boca;

Um condão vago que os desperta e toca

De humana e dolorosa consciência.

E abraçam-se de novo, já sem asas.

Homens apenas. Vivos como brasas,

A queimar o que resta da inocência.

Miguel Torga, in ‘Libertação’


Poema de Amor: Carta (Esboço) – Nuno Júdice

 Lembro-me agora que tenho de marcar um

 encontro contigo, num sítio em que ambos

 nos possamos falar, de facto, sem que nenhuma

 das ocorrências da vida venha

 interferir no que temos para nos dizer. Muitas

 vezes me lembrei de que esse sítio podia

 ser, até, um lugar sem nada de especial,

 como um canto de café, em frente de um espelho

 que poderia servir de pretexto

 para reflectir a alma, a impressão da tarde,

 o último estertor do dia antes de nos despedirmos,

 quando é preciso encontrar uma fórmula que

 disfarce o que, afinal, não conseguimos dizer. É

 que o amor nem sempre é uma palavra de uso,

 aquela que permite a passagem à comunicação;

 mais exacta de dois seres, a não ser que nos fale,

 de súbito, o sentido da despedida, e que cada um de nós

 leve, consigo, o outro, deixando atrás de si o próprio

 ser, como se uma troca de almas fosse possível

 neste mundo. Então, é natural que voltes atrás e

 me peças: «Vem comigo!», e devo dizer-te que muitas

 vezes pensei em fazer isso mesmo, mas era tarde,

 isto é, a porta tinha-se fechado até outro

 dia, que é aquele que acaba por nunca chegar, e então

 as palavras caem no vazio, como se nunca tivessem

 sido pensadas. No entanto, ao escrever-te para marcar

 um encontro contigo, sei que é irremediável o que temos

 para dizer um ao outro: a confissão mais exacta, que

 é também a mais absurda, de um sentimento; e, por

 trás disso, a certeza de que o mundo há-de ser outro no dia

 seguinte, como se o amor, de facto, pudesse mudar as cores

 do céu, do mar, da terra, e do próprio dia em que nos vamos

 encontrar, que há-de ser um dia azul, de verão, em que

 o vento poderá soprar do norte, como se fosse daí

 que viessem, nesta altura, as coisas mais precisas,

 que são as nossas: o verde das folhas e o amarelo

 das pétalas, o vermelho do sol e o branco dos muros.

 Nuno Júdice, in “Poesia Reunida”


Li…

..hoje páginas escolhidas ao acaso do “livro” que ambos escrevemos em tantos dias. Lá bem do início e mais para o fim, em páginas soltas de uma quase vida.

A história é bonita, o sentimento puro.

Foi bom reler-te, apesar do aperto de garganta que sinto neste momento, da saudade acumulada e das palavras presas.


Leituras…

Lido hoje de uma penada só, “Diário de um Killer sentimental” de Luis Sepúlveda…


Lido…

“Stop all the clocks,cut off the telephone,
Prevent the dog from barking with a juicy bonel,
Silence the pianos and with muffled drum
Bring out the coffin, let the mourners come.

Let the aeroplanes circle, moaning overhead
Scribbling on the sky the message ‘He is Dead’.
Put crepe bows ‘round the white necks of the public doves,
Let traffic policemen wear black, cotton gloves.

He was my North, my South, my East, and West.
My working week and my Sunday rest,
My noon, my midnight, my talk, my song;
I thought that love would last forever:
I was wrong.

The stars are not wanted now; put out every one,
Pack up the moon and dismantle the sun,
Pour away the ocean and sweep up the wood;
For nothing now can ever come to any good.”

W.H. Auden.


o Outono visto pela janela

na casa onde nasci havia sons e cheiros meus
as pessoas que os tinham emprestavam-mos à memória
e eu incluía-os como amigos íntimos
nesta não tem gente
ou se tem não têm cheiro
nem som porque eu não me lembro
gastei toda a memória nas pessoas antigas
e o espaço para as novas é um T1 que fica muito para além do T
onde eu estou sem visitas
fechado à medida de não deixar entrar
preciso do que já foi como do próximo ar para me lembrar que foi bom
eu já fui bom
agora não sei
mas já fui
juro que fui
e quero gastar as únicas energias a fazer manutenção às memórias
p’ra que nenhuma se perca
era pena
é que até a gente que me fez por dentro como a um cofre já não existe
e quero mantê-los ligados à máquina para sempre
e a máquina sou eu
e para sempre sou eu
anda
aconchega-te no mofo do T1
finge que és de antigamente para te dar os beijinhos de quando era pequenino
cheiras à minha avó
à roupa no estendal
à canção do fim dos bonecos
ao banho que está a ficar frio
ao grito do granizo do dia mais longo em que a casa esteve para cair
tu cheiras e sabes ao dia em que a casa esteve para cair
que foi no mesmo dia em que resistiu
como se estivesse ali desde o início dos tempos
e os tivesse começado para eu os acabar
acabar
acabar
acaba comigo que me falha a lembrança
e restas-me como a folha que esteve para cair
e que só não caiu porque o mundo acabou antes do Outono.

João Negreiros


Lido há muito tempo…

"Ninguém avança pela vida em linha recta. Muitas vezes, não paramos nas estações indicadas no horário. Por vezes, saímos dos trilhos. Por vezes, perdemo-nos, ou levantamos voo e desaparecemos como pó. As viagens mais incríveis fazem-se às vezes sem se sair do mesmo lugar. No espaço de alguns minutos, certos indivíduos vivem aquilo que um mortal comum levaria toda a sua vida a viver. Alguns gastam um sem número de vidas no decurso da sua estadia cá em baixo. Alguns crescem como cogumelos, enquanto outros ficam inelutávelmente para trás, atolados no caminho. Aquilo que, momento a momento, se passa na vida de um homem é para sempre insondável. É absolutamente impossível que alguém conte a história toda, por muito limitado que seja o fragmento da nossa vida que decidamos tratar."

Henry Miller, in "O Mundo do Sexo"